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Por Duse Leite*
Houve um tempo em que o Carnaval começava dentro de casa. A tesoura cortava tecido simples que virava fantasia, a máscara era reaproveitada, e o brilho não vinha da marca da roupa, mas do entusiasmo de quem esperava o bloco passar. As marchinhas ecoavam pelas ruas e atravessavam gerações: “Quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão…”, e logo depois a própria alegria chorava “pelo amor da Colombina no meio da multidão”. Havia drama, havia romance, havia personagens. “Ô jardineira, por que estás tão triste?” — e a resposta vinha quase como poesia popular: “Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu.” O Carnaval cantava histórias.
Os foliões de outrora voltavam para casa na quarta-feira de cinzas com os pés machucados, a voz rouca e a alma cheia. Dançavam como se o mundo fosse acabar na terça-feira à noite. Não havia pressa em registrar — a memória era o único arquivo possível. E talvez por isso cada instante tivesse mais presença do que exposição. Havia também os amores de Carnaval, aqueles que nasciam num sorriso atravessado no salão e morriam na despedida da porta do clube. Amor de quatro dias, intenso o bastante para virar lembrança. Saudade era pouco… e depois passava.
Nem todos estavam no centro da roda. Sempre houve quem preferisse observar, sentado à margem do salão, entendendo que o Carnaval é um grande retrato humano. Ele revela quem ama fácil, quem exagera, quem precisa do barulho para silenciar as próprias dores e quem encontra alegria apenas em assistir.

Hoje o cenário mudou. A fantasia chega pronta, o palco é maior, o som é mais potente e o mundo inteiro cabe em um story de quinze segundos. O Carnaval já começa nas prévias, se espalha pelas semanas anteriores e, em muitos lugares, não termina na quarta-feira de cinzas — avança pela quinta, resiste até o sábado seguinte, como se ninguém quisesse devolver a rotina ao calendário. As marchinhas dividiram espaço com uma mistura de ritmos: axé, funk, eletrônico, sertanejo, pop. Tudo cabe. Tudo se mistura. Às vezes, parece que o Carnaval abraça todos os sons — menos o próprio Carnaval de antigamente.
Mudaram as trilhas, mudaram os códigos, mudaram as formas de encontro. Os amores começam no direct e terminam no “visualizado”. As músicas viralizam e desaparecem antes do próximo verão. Mas será que mudou o coração?
Porque, no fundo, o que move o folião — de ontem e de hoje — continua sendo o mesmo desejo antigo: sentir-se vivo. Antes, dançava-se ao som de marchinhas que contavam histórias de palhaços, flores e Colombinas. Hoje, dança-se ao ritmo que domina as plataformas. Antes, a despedida vinha com a quarta-feira de cinzas; agora, ela é adiada, esticada, quase negada.
Entre o confete de ontem e o filtro de hoje, o que permanece é essa necessidade humana de celebrar, amar — ainda que por quatro dias — e esquecer, por algumas horas, o peso do resto do ano. O Carnaval muda de roupa, muda de som, muda de calendário. Mas o coração humano, esse continua querendo música. Mesmo que a música já não seja a mesma.
(*) Funcionária pública e graduanda em jornalismo.





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