Por Geraldo de Majella*
Em Maceió, no entanto, o que se observa é a substituição dessa função estratégica por uma política de marketing institucional que transforma o planejamento em peça de propaganda, com sobrevoos de drones e imagens coloridas.
O Instituto de Planejamento de Maceió (Iplan), criado para ser o cérebro técnico da cidade, tornou-se uma vitrine política instagramável. Os cargos de direção e coordenação são ocupados, majoritariamente, por indicações políticas — resultado de acordos eleitorais que esvaziam o caráter técnico e transformam o órgão em espaço de barganha. O resultado é uma estrutura onerosa e pouco eficiente, incapaz de formular e executar políticas de planejamento à altura de uma capital com mais de um milhão de habitantes.
Sob a gestão do prefeito João Henrique Caldas (JHC), o Iplan perdeu sua função essencial de pensar a cidade a médio e longo prazo. O que se vê é uma proliferação de projetos pontuais, que servem como cenários a céu aberto para os vídeos produzidos da gestão municipal. Há muito marketing e pouca coerência entre os projetos, muitas vezes guiados por interesses imobiliários e pela especulação urbana.
Maceió está sendo desenhada não para o bem coletivo, mas para a ganância predatória que transforma o espaço público em ativo de mercado. A gestão urbana virou um negócio lucrativo para empresários e políticos.
O discurso oficial fala em “Planejamento Urbano e Cidade Inteligente”, “Pesquisa e Parcerias Inovadoras”, “Estudos e Soluções para Grotas”, “Projetos Estruturantes” e “Governança Interna” — categorias que soam sofisticadas e modernas, mas que, na prática, permanecem ficcionais ou, na melhor das hipóteses, são apenas inserts de marketing.
No portal do próprio Iplan, o vazio é evidente: relatórios superficiais, informações genéricas e conteúdos que mais se assemelham a ações publicitárias do que a produtos técnicos.
Um exemplo simbólico é o Plano de Mobilidade Urbana. Passados cinco anos da gestão JHC, o que existe de concreto são apenas duas matérias publicadas em julho de 2024, relatando levantamentos em ônibus urbanos, com técnicos “embarcados” para observar o comportamento dos usuários. Nenhum diagnóstico, proposta ou plano foi divulgado desde então. Segundo a prefeitura, a Fundação Getulio Vargas, responsável pela elaboração do plano, em breve apresentará uma consulta pública sobre mobilidade urbana. O plano só começou a andar — a passos lentos — depois da pressão da sociedade e de urbanistas.
Outro caso é o programa Negócios na Grota, apresentado como projeto de inclusão e geração de renda. No site do Iplan, o registro se limita a um vídeo de evento, sem qualquer documento técnico, metas, prazos ou indicadores de impacto. Tudo se reduz a mais uma ação de marketing institucional.
Maquiagem como símbolo de gestão
A mesma lógica se aplica ao chamado Museu a Céu Aberto, iniciativa divulgada como símbolo de valorização cultural, mas que ignora o fato de que Maceió não possui sequer um museu municipal, uma biblioteca pública ou uma galeria de arte mantida pela prefeitura. O vazio cultural e urbanístico é disfarçado com slogans e fotos nas redes sociais.
O diretor do Iplan, Antônio Carvalho, aparece nas redes como porta-voz de uma cidade em transformação, mas essa transformação é apenas visual e superficial — feita de renderizações, vídeos, hashtags e discursos em tom “empreendedor e inovador”. A maquiagem tornou-se método de gestão, e o Iplan, o braço institucional do desmonte da cidade como espaço de convivência coletiva.
Em vez de um instituto voltado à formulação de políticas urbanas e sociais consistentes, consolidou-se uma espécie de agência de viagens e de mídia, com participações em eventos empresariais internacionais sobre urbanismo, e farto material para alimentar as páginas oficiais da prefeitura.
Planejar Maceió deveria significar articular infraestrutura, habitação, mobilidade, meio ambiente, cultura e participação popular em torno de um projeto de cidade justa e inclusiva. O que se tem, contudo, é o oposto: a redução do planejamento à estética da propaganda urbanística — consultas online, debates pouco aprofundados e dados superficiais.
Enfim, trata-se de uma cidade pensada para aparecer bem nas redes, mas que não se sustenta fora das telas. Afinal, qual é o plano do Iplan para Maceió?
*Historiador e jornalista







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