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UFAL, Braskem e o silêncio institucional diante do crime da mineração em Maceió.

por | 20 maio, 2026

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Por Neirevane Nunes*

A sociedade alagoana tem o direito de saber como estão sendo utilizados os recursos milionários da Braskem dentro da Universidade Federal de Alagoas. Em meio ao maior crime socioambiental urbano do mundo em curso em nossa cidade, é necessário questionar qual tem sido o papel efetivo da UFAL diante da destruição dos cinco bairros pela mineradora.

Enquanto de mais de 60 mil pessoas atingidas, seguem convivendo com perdas materiais, imateriais e emocionais irreparáveis e comunidades permanecem na zona de sacrifício, que é a borda do mapa oficial, milhões de reais circulam em projetos financiados pela própria empresa dentro da universidade pública.

Dados do Portal da Transparência da FUNDEPES revelam diversos projetos financiados diretamente pela Braskem envolvendo pesquisadores da universidade:

• “Integra Animal – Braskem”, coordenado por Pierre Barnabé Escodro — R$ 41.968.432,29;

• “Biomonitoramento Ambiental da Laguna Mundaú”, coordenado por Emerson Carlos Soares e Silva — R$ 9.075.345,78;

• “Viabilidade do Aproveitamento dos Rejeitos de Demolição/Braskem”, coordenado por Karoline Alves de Melo Moraes — R$ 7.705.065,80;

• “Monitoramento da Lagoa Mundaú”, coordenado por Carlos Ruberto Fragoso Junior — R$ 4.298.496,43;

• “Análise dos Dados de Monitoramento”, coordenado por Juciela Cristina dos Santos — R$ 2.768.163,28;

• “Inventário do Patrimônio Cultural Imaterial dos bairros de Bebedouro, Mutange, Bom Parto, Pinheiro e Farol”, coordenado por Adriana Guimarães Duarte — R$ 2.303.377,05;

• “DRAGAGEM TUP (SUB 2)”, coordenado por Emerson Carlos Soares e Silva — R$ 1.286.950,27;

• “DRAGAGEM TUP (SUB 1)”, coordenado por Aline da Silva Ramos Barboza — R$ 470.694,00;

• “História e Memória Cultura de Alagoas”, coordenado por Eraldo de Souza Ferraz — R$ 390.000,00.

Os pesquisadores que aparecem recebendo maiores volumes de recursos vinculados diretamente à Braskem são Pierre Barnabé Escodro, Emerson Carlos Soares e Silva, Carlos Ruberto Fragoso Junior, Karoline Alves de Melo Moraes e Juciela Cristina dos Santos.

É importante diferenciar que há pesquisadores da UFAL produzindo pesquisas sérias, éticas e comprometidas com a justiça socioambiental e defendendo os direitos dos atingidos. Porém, infelizmente, também existem projetos e práticas que parecem mais contribuir para mascarar dados, normalizar os impactos e silenciar comunidades do que enfrentar as reais consequências do crime socioambiental da Braskem.

Não se questiona a importância da pesquisa científica, pois ela é fundamental para se compreender e intervir no caso. O que precisa ser debatido são os limites éticos dessa relação quando os recursos vêm justamente da empresa responsável pela tragédia-crime que devastou Maceió.

É inaceitável o aparelhamento de projetos dentro de uma universidade pública para atender interesses da empresa que promove crimes ambientais em série e a maior violação de direitos individuais e coletivos já vista em Alagoas. A ciência não pode servir ao silenciamento, à invisibilização dos atingidos ou à construção de narrativas que subdimensionam os impactos socioambientais causados pela Braskem.

Onde estão os resultados concretos desses investimentos para as populações atingidas? Que benefícios reais chegaram às comunidades mais vulneráveis como Flexais, Marquês de Abrantes e Bom Parto. Qual o posicionamento da UFAL diante das violações de direitos humanos e ambientais ainda vividas pelos atingidos?

A universidade pública é mantida pela sociedade e precisa ter compromisso com ela. O silêncio institucional também comunica. A ciência não pode nunca se afastar da ética. A sociedade alagoana espera transparência, posicionamento e compromisso verdadeiro com os atingidos pelo crime socioambiental da Braskem.

*Bióloga, Doutoranda SOTEPP/UNIMA

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