Por Geraldo de Majella*
O evento contou com a participação de diversas autoridades da área de segurança, entre elas o secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo; o subsecretário de Inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro, coronel Uirá Ferreira; o superintendente de Inteligência da SSP da Bahia e perito da Polícia Federal, Rogério Dourado; e os coronéis da Polícia Militar de São Paulo Valmor Racorti, comandante dos Batalhões de Choque, e Pedro Luiz Lopes, chefe do Serviço de Inteligência da corporação.
O conteúdo apresentado pelo coronel Walker durante a palestra representou um atentado à ordem constitucional que garante a liberdade de imprensa. A Constituição Federal assegura esse direito de forma ampla ao estabelecer, no artigo 220, que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, em qualquer forma ou veículo, não sofrerão restrições além daquelas previstas na própria Carta.
O dispositivo reforça, em seu §1º, que nenhuma lei pode criar obstáculos à plena liberdade de informação jornalística e, no §2º, veda expressamente qualquer tipo de censura política, ideológica ou artística. Assim, o artigo 220 consolida a imprensa como um pilar democrático fundamental, protegendo seu exercício livre e responsável contra interferências indevidas do poder público ou de interesses privados.
O que o militar “dissertou” ao chamar de comunicação operativa para neutralizar a “propaganda do crime organizado” reproduz o velho discurso de ódio à imprensa em suas formas contemporâneas — desde veículos pertencentes a grupos multinacionais, como a CNN e a BBC (rede pública britânica), até a Rede Globo e seus diversos braços, como o G1. Como estava em Alagoas, aproveitou ainda para atacar e caluniar a cooperativa Mídia Caeté e o jornal Extra, direcionando sua fala contra a imprensa local.
A fala desarrazoada sobre a Mídia Caeté evoluiu em um evidente crescendo autoritário, sem qualquer cuidado com as palavras, chegando inclusive a sugerir que os setores de Inteligência das polícias realizem um “levantamento” da vida do professor e colunista Alexandre Fleming. Essa insinuação ultrapassa os limites do debate público e revela uma postura incompatível com o respeito às liberdades constitucionais e ao papel da imprensa — atitude típica do período da ditadura militar, quando a censura era regra, jornalistas eram perseguidos, presos e, em muitos casos, assassinados.
O veterano e respeitado jornalista Caco Barcellos, da Rede Globo, teve seu nome citado como a insinuação de manteria contatos com o crime organizado para produzir suas matérias jornalísticas. Trata-se de uma acusação infundada e irresponsável, que atinge não apenas sua trajetória profissional, mas também o exercício ético do jornalismo investigativo no país.
O modelo de curso ministrado pelo coronel Márcio Saldanha Walker remete aos manuais da ditadura militar, período em que conceitos científicos tinham pouca relevância e a força bruta era supervalorizada. A insistência em afirmar que as instituições — no caso, as polícias — precisam se proteger da imprensa, apoiada nos exemplos exibidos no PowerPoint, parte da premissa equivocada de que tudo o que é publicado pela mídia teria como objetivo denegrir a imagem das corporações e de seus agentes. Essa lógica ultrapassada não apenas distorce o papel da imprensa, como reforça uma visão autoritária incompatível com a ordem constitucional vigente.
Lendo uma manchete exibida na palestra — “Morte por intervenção policial em Alagoas” — o coronel comenta: “Isso aí é de chamar o repórter [perguntar] o que você quer dizer com isso. Gente, eu trabalhei dois anos no Ministério da Defesa com a Ascom. A gente ligava direto para o repórter que escreveu aquilo ali, o que você quer dizer com isso?”. Em outro momento, acrescenta: “Vocês que são da área de comunicação não permitam essas palavras aí entrar na boca desses periódicos.” Essas declarações deixam explícito que, diante de matérias cujo conteúdo desagrade à instituição, a orientação defendida por Walker é pressionar o jornalista responsável — uma postura totalmente incompatível com a liberdade de imprensa assegurada pela Constituição.
O conteúdo da palestra do coronel Walker, dirigida às cúpulas da Polícia Militar, da Polícia Civil e do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas — além de outros militares e do secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, ex-procurador do Ministério Público de São Paulo — representou uma demonstração pública de transgressão a preceitos constitucionais, apresentada com ares de sapiência e transmitida ao vivo pela internet. As forças de segurança pública não podem contratar palestrantes que busquem doutrinar suas hierarquias com conteúdos atentatórios à dignidade humana ou com exposições tão rasas e reacionárias, especialmente em um período democrático.
*Historiador e jornalista






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