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Celso Furtado colocou o Nordeste no centro do debate nacional

por | 13 set, 2026

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Por Geraldo de Majella*

No final dos anos 1950, o Nordeste brasileiro era visto sobretudo como uma região marcada pela seca, pela pobreza e pelas emergências sociais. As grandes estiagens provocavam migrações, desemprego e fome, enquanto as políticas públicas se concentravam em medidas de socorro às populações atingidas.

Celso Furtado rompeu com essa interpretação. Para ele, a seca agravava problemas existentes, mas não explicava, por si só, o subdesenvolvimento nordestino. A questão era estrutural e estava relacionada à forma desigual como a economia brasileira se desenvolvia.

Trabalhadores de uma frente de emergência no Nordeste. Fonte: Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 1977.

Essa mudança de perspectiva fez de Furtado um personagem decisivo. Ele colocou o Nordeste no centro do debate nacional sobre o desenvolvimento brasileiro. Em vez de tratar a região apenas como um problema a ser socorrido, passou a apresentá-la como parte fundamental de um projeto nacional de desenvolvimento.

Nomeado por Juscelino Kubitschek para o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), Furtado coordenou estudos que resultaram no documento Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste, apresentado a JK em fevereiro de 1959. Embora publicado oficialmente como estudo do GTDN, o próprio Furtado posteriormente esclareceu que o texto havia sido concebido e escrito por ele.

Celso Furtado

O diagnóstico era mais amplo do que uma análise da seca. Furtado identificou uma economia marcada pela baixa produtividade, fragilidade da agricultura, concentração da renda e insuficiência da industrialização. O problema não era apenas a falta de chuva, mas uma estrutura econômica incapaz de criar oportunidades de trabalho e renda para a população.

A resposta deveria ser igualmente estrutural. Furtado defendia a industrialização do Nordeste, a transformação da agricultura, a melhoria da infraestrutura, a formação de recursos humanos e uma política de planejamento capaz de coordenar investimentos públicos e privados. Era necessário criar uma economia regional mais dinâmica e reduzir a dependência em relação ao Centro-Sul.

Essa concepção mudou a política brasileira para a região. O Nordeste passou a ser pensado não como território condenado à pobreza, mas como parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

O passo institucional decisivo ocorreu em 1959. A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) foi criada pela Lei nº 3.692, de 15 de dezembro, diretamente subordinada ao presidente da República e com sede no Recife. Sua área de atuação abrangia os nove estados nordestinos e parte de Minas Gerais incluída no então Polígono das Secas.

Furtado foi o primeiro superintendente da Sudene. O órgão nasceu com uma característica inovadora: o planejamento regional como instrumento central da ação do Estado. A proposta era reunir conhecimento técnico, decisão política e recursos públicos em torno de um projeto de desenvolvimento.

Economista Celso Furtado. Credito: Fabio Motta/Agencia Estado/AE.

O projeto, entretanto, não foi executado integralmente. O golpe de 1964 interrompeu a experiência política de Furtado, que teve seus direitos políticos cassados e deixou o país. A Sudene permaneceu, mas sua orientação sofreu mudanças profundas. Parte do projeto de transformação estrutural e social perdeu espaço, enquanto os incentivos à industrialização e à atração de investimentos ganharam maior peso.

Ainda assim, a contribuição de Furtado permaneceu. A industrialização nordestina avançou, novos polos econômicos surgiram e a região passou a ocupar outro lugar na economia brasileira. A Sudene tornou-se uma das principais experiências de planejamento regional do país.

Mais importante foi a mudança no modo de pensar o Nordeste. Furtado não aceitava a ideia de que a região estivesse condenada à pobreza por razões naturais. Seu pensamento deslocou o problema da natureza para a estrutura econômica e, com isso, a responsabilidade de enfrentá-lo passou a ser entendida como tarefa do Estado brasileiro.

Crianças e adultos na construção de um açude. Fonte: Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 1977.

 

É nesse ponto que está a dimensão nacional de sua obra. Celso Furtado não apenas estudou o Nordeste: transformou a questão nordestina em uma questão brasileira. Seu diagnóstico mostrou que não seria possível construir um país desenvolvido mantendo uma parte expressiva de seu território submetida a desigualdades estruturais.

Mais de seis décadas depois, o pensamento de Furtado permanece atual porque ele não propunha simplesmente aliviar a pobreza. Defendia criar condições econômicas, sociais e institucionais para superá-la. Seu maior legado não está apenas na Sudene, mas em ter demonstrado que desenvolver o Nordeste era — e continua sendo — uma questão central para o desenvolvimento do próprio Brasil.

*Jornalista e historiador

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