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Cruz em chamas e saudação nazista: PMs de São Paulo protagonizam cena de terror político e religioso

por | 17 abr, 2025

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Reprodução

Imagens que lembram rituais da Ku Klux Klan e evocam o espectro do nazismo chocaram o país na terça-feira (15). Publicado no perfil oficial do 9º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, um vídeo mostra 14 policiais militares perfilados à noite diante de uma cruz em chamas. Ao fundo, viaturas da corporação, bandeiras institucionais, a palavra “Baep” desenhada com fogo e uma trilha sonora cinematográfica criam o cenário de culto sombrio que flerta, sem disfarces, com o imaginário da extrema-direita supremacista.

A cena vai além da estética macabra. Em determinado momento, os policiais erguem os braços em uma saudação que remete diretamente ao gesto nazista, provocando uma onda de indignação nas redes sociais e pressionando as autoridades a se manifestarem. O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite — ele mesmo um símbolo da extrema-direita no estado — classificou o caso como uma “homenagem religiosa” e disse não ver nada demais nas imagens. A “homenagem”, no entanto, tem uma simbologia clara para quem conhece a história: cruz em chamas e saudações rígidas são marcas de movimentos de ódio como a Ku Klux Klan e o nazismo europeu.

Esse não é um episódio isolado. Guilherme Derrite, o atual secretário, foi investigado por sua participação em operações policiais que resultaram em 16 mortes, distribuídas em sete inquéritos distintos. Em apenas três anos e nove meses, esteve envolvido em ações com saldo de dez mortos. Outro episódio, não listado em sua certidão criminal enviada ao TSE, terminou com mais seis mortos e a prisão de três policiais por tortura e assassinato. Tais antecedentes lançam uma sombra sobre sua tentativa de minimizar os fatos.

Além disso, há relatos de que Derrite tinha conhecimento das ações de um grupo de extermínio denominado “Eu Sou a Morte”, formado por policiais militares em Osasco. Segundo denúncia de um dos membros, ele era informado sobre as ações e “tinha comando total” do grupo.

A contribuição militante do ex-presidente Jair Bolsonaro para a partidarização das polícias faz parte desse “legado” sombrio da extrema-direita. Durante seu governo, o que se viu foi o incentivo explícito à politização das forças de segurança, ao armamento desenfreado e à exaltação da violência policial como “solução” para os problemas da sociedade. Não por acaso, figuras como Derrite se tornaram protagonistas da nova configuração autoritária dentro das estruturas do Estado.

Há anos, denúncias de infiltração de ideologias neonazistas em batalhões da Polícia Militar brasileira circulam entre especialistas em segurança pública, organizações de direitos humanos e setores do Ministério Público. Em estados como São Paulo e Santa Catarina — onde células nazistas já foram identificadas e até celebradas por PMs — cresce o temor de que parte da corporação esteja sendo cooptada por doutrinas autoritárias, supremacistas e teocráticas.

Enquanto isso, o Ministério Público, que tem como missão constitucional exercer o controle externo da atividade policial, permanece inerte. Nem mesmo denúncias públicas, dossiês de pesquisadores e investigações jornalísticas têm sido suficientes para desencadear ações concretas e sistemáticas de responsabilização. Mais do que omissão, o que se vê é uma complacência preocupante, que permite que batalhões inteiros abandonem seus postos de trabalho para frequentar cultos em igrejas neoevangélicas, muitas vezes dentro dos próprios quartéis.

Esses cultos, longe de serem espaços de espiritualidade plural, têm se mostrado ferramentas de doutrinação neofascista, promovendo um discurso messiânico, militarista, de extermínio de inimigos internos. A teologia da guerra espiritual, adotada por muitos desses líderes religiosos, encontra solo fértil na lógica belicista das polícias militares e ajuda a formar soldados não apenas armados, mas fanaticamente doutrinados.

O ovo da serpente está sendo chocado diante dos olhos da República. Grupos organizados, fardados e armados, disseminam símbolos do ódio, evocam rituais de supremacia racial e se reúnem sob a chancela de batalhões oficiais. O silêncio das instituições, a negligência dos Ministérios Públicos estaduais e a banalização de símbolos do terror indicam que a democracia brasileira vive uma ameaça real, que não vem apenas de palavras, mas de gestos, brasões e munição real.

É hora de parar de tratar esses casos como “excessos pontuais” e assumir o que está diante de nós: a construção silenciosa de uma força paralela ideologicamente comprometida com o autoritarismo, que se organiza dentro das estruturas do Estado. O combate ao fascismo precisa começar já — e o primeiro passo é romper o silêncio.

*Historiador e jornalista

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