O deputado estadual eleito Ulisses Vieira Coutinho dos Santos (PL-MA) reúne duas marcas que chamam a atenção no cenário político brasileiro: é o parlamentar eleito mais rico do Nordeste e o candidato que acumulou o maior valor em multas por infrações ambientais no país. Os dados foram revelados em levantamentos da Agência Tatu de Jornalismo de Dados, que cruzou informações da Justiça Eleitoral e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
De acordo com a apuração, Ulisses declarou R$ 155,5 milhões em bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2026. O patrimônio coloca o político isolado na primeira posição entre os 510 parlamentares eleitos nos nove estados nordestinos, considerando deputados estaduais, deputados federais e senadores.
O valor também representa mais de 10% dos R$ 1,47 bilhão declarados, em conjunto, pelos parlamentares eleitos na região. A média patrimonial entre os eleitos foi de R$ 2,88 milhões, segundo o levantamento.
Ao mesmo tempo, o deputado eleito acumula R$ 3,2 milhões em multas ambientais relacionadas ao desmatamento e à destruição de mais de 650 hectares de vegetação nativa na Amazônia Legal, no Maranhão. As penalidades são objeto de uma disputa judicial na qual o político tenta anular as autuações.
Patrimônio concentra milhões em empréstimos e negócios rurais
A declaração de bens de Ulisses Gonçalves reúne 70 itens, com forte concentração em atividades ligadas ao agronegócio, maquinário, investimentos e operações financeiras. O maior componente do patrimônio, porém, não está diretamente nas terras, mas nos empréstimos, adiantamentos e valores a receber de terceiros e empresas.
Segundo a análise da Agência Tatu, essa categoria soma R$ 94,2 milhões, distribuídos em 16 itens, o equivalente a 60,6% de todo o patrimônio declarado pelo parlamentar.
Outros R$ 35 milhões aparecem na categoria de benfeitorias e imobilizado rural, representando 22,5% do total. Máquinas, veículos e aeronaves somam R$ 14,7 milhões, enquanto contas, aplicações financeiras, consórcios e participações correspondem a R$ 8 milhões.
As terras, incluindo fazendas e terrenos, representam R$ 3,7 milhões, ou 2,4% do patrimônio informado ao TSE.
Entre os bens declarados estão mais de R$ 17 milhões em benfeitorias na Fazenda Byeta, além de R$ 17,9 milhões em investimentos rurais em andamento e equipamentos agrícolas de alto valor. A relação inclui plataformas de corte avaliadas em até R$ 3,1 milhões cada.
O parlamentar também declarou participação em um helicóptero avaliado em R$ 3,5 milhões. A lista contém ainda R$ 45 milhões relacionados a contratos com a Heringer Táxi Aéreo e R$ 10 milhões antecipados para a aquisição de novas áreas rurais.
A composição chama a atenção pela diferença entre o valor declarado em terras e os montantes atribuídos às estruturas, aos equipamentos e aos créditos financeiros. A declaração eleitoral, contudo, não representa necessariamente uma avaliação atualizada do valor de mercado dos bens: imóveis, por exemplo, podem ser informados pelo valor de aquisição.
Fazendas aparecem em autuações do Ibama
Entre as propriedades vinculadas ao patrimônio declarado estão as fazendas Byeta e Byeta II, que foram alvo de autuações do Ibama. Juntas, elas correspondem a 2.625 hectares declarados por R$ 820 mil.
Apesar do valor informado para as terras, apenas as benfeitorias na Fazenda Byeta somam R$ 17 milhões, conforme os dados analisados pela Agência Tatu.
O caso patrimonial ganha outra dimensão diante do histórico de infrações ambientais atribuído ao político. Conforme levantamento anterior da Agência Tatu, que cruzou dados abertos do Ibama e do TSE, Ulisses foi o candidato com o maior valor acumulado em multas ambientais no país, totalizando R$ 3,2 milhões.
As penalidades estão relacionadas a infrações envolvendo desmatamento e destruição de mais de 650 hectares de vegetação nativa na Amazônia Legal, no Maranhão. O parlamentar tenta anular as autuações na Justiça, e a existência das multas não significa, por si só, que a disputa judicial tenha sido definitivamente encerrada.
A combinação entre patrimônio milionário, negócios rurais e autuações ambientais coloca o deputado eleito no centro de um debate sobre fiscalização ambiental, atividades econômicas e responsabilidade de representantes políticos.
Segundo colocado declarou R$ 107,1 milhões
O levantamento da Agência Tatu mostra que a distância entre Ulisses Gonçalves e os demais parlamentares eleitos mais ricos do Nordeste é expressiva.
O segundo lugar pertence ao deputado federal eleito Jadyel Silva Alencar (Republicanos-PI), que declarou R$ 107,1 milhões em bens. A diferença entre os dois é de R$ 48,4 milhões.
Na terceira posição aparece a senadora eleita por Alagoas Marina Antunes Candia e Figueiredo, conhecida como Marina JHC (PSDB), com R$ 47 milhões declarados.
O ranking segue com o deputado federal Neto Carletto (BA), com R$ 34,3 milhões; Felipe Carreras (PSB-PE), com R$ 31,8 milhões; e Waldemar Oliveira (PE), com R$ 30,8 milhões.
Também aparecem entre os dez maiores patrimônios o senador eleito por Alagoas Arthur Lira, com R$ 26 milhões; o senador Jaques Wagner (BA), com R$ 24,5 milhões; o deputado federal Fernando Coelho Filho (PE), com R$ 17,1 milhões; e Benedito de Souza Lemos Filho (BA), com R$ 17 milhões.
Com R$ 155,5 milhões declarados, Ulisses possui patrimônio aproximadamente 45% superior ao do segundo colocado e mais de nove vezes maior que o do décimo integrante da lista.
Ranking mudou em relação a 2022
A comparação com as eleições de 2022 mostra crescimento no patrimônio total declarado pelos parlamentares eleitos no Nordeste. Naquele ano, a soma chegou a R$ 1,29 bilhão, com média de R$ 2,30 milhões por político. Em 2026, o total informado subiu para R$ 1,47 bilhão, enquanto a média alcançou R$ 2,88 milhões.
O topo da lista também passou por mudanças importantes. Em 2022, a primeira posição era ocupada pelo ex-senador Eunício Lopes de Oliveira, do Ceará, que declarou R$ 158,1 milhões. Quatro anos depois, a liderança passou para Ulisses Gonçalves.
Dos dez parlamentares mais ricos de 2022, apenas dois permaneceram entre os dez primeiros em 2026. Jadyel Alencar manteve patrimônio próximo de R$ 107 milhões, passando de R$ 107,5 milhões para R$ 107,1 milhões declarados.
Felipe Carreras, por sua vez, dobrou o patrimônio informado, de R$ 15,4 milhões em 2022 para R$ 31,8 milhões em 2026. Com isso, subiu da nona para a quinta posição no ranking regional.
Deputado foi procurado pela Agência Tatu
A Agência Tatu informou que procurou Ulisses Gonçalves, por meio de seu advogado, para comentar os bens declarados à Justiça Eleitoral. Até o fechamento da reportagem original, não havia recebido resposta. O espaço foi mantido aberto para manifestação.
Os valores apresentados no levantamento têm como base as declarações de bens disponibilizadas pelo TSE na plataforma DivulgaCand. A classificação dos 70 itens patrimoniais foi feita pela própria Agência Tatu a partir das descrições registradas pelo candidato.
A declaração eleitoral permite conhecer o patrimônio informado pelos candidatos, mas não equivale necessariamente a uma auditoria independente de todos os ativos, dívidas, créditos e valores de mercado. Da mesma forma, as autuações ambientais devem ser consideradas à luz dos procedimentos administrativos e judiciais relacionados a cada caso.
A trajetória de Ulisses Gonçalves reúne, assim, duas dimensões de interesse público: a concentração de um patrimônio muito acima da média regional entre os parlamentares eleitos e o volume de multas ambientais associado a infrações que atingem áreas de vegetação nativa na Amazônia Legal.







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