À medida que o debate público se torna cada vez mais impactado pela disseminação de desinformação, o pensamento do educador brasileiro Paulo Freire volta ao centro das discussões sobre educação e democracia. Em artigo publicado no blog Outras Palavras, o filósofo Leonardo Bernardes argumenta que o combate às fake news exige mais do que checagem de fatos e divulgação científica: requer uma cultura educacional capaz de valorizar o conhecimento e o reconhecimento da própria ignorância.
Segundo o autor, existe uma desigualdade fundamental entre a produção de mentiras e o processo educativo. Enquanto a desinformação pode ser disseminada de forma rápida e simplificada, a educação demanda tempo, reflexão e disposição para aprender.
Bernardes sustenta que muitas pessoas não buscam necessariamente a verdade, mas formas de evitar parecer desinformadas. Esse comportamento, afirma, cria um ambiente favorável à circulação de teorias conspiratórias e notícias falsas, frequentemente exploradas por grupos políticos e ideológicos.
O artigo também questiona a capacidade das sociedades contemporâneas de formar cidadãos preparados para lidar criticamente com a informação. Para o autor, a valorização excessiva da técnica e da autoridade científica, sem uma base filosófica mais ampla, não é suficiente para imunizar a população contra discursos enganosos.
Ao longo da reflexão, Bernardes recorre ao pensamento do filósofo espanhol José Ortega y Gasset para discutir a dificuldade que muitos indivíduos têm de reconhecer suas próprias limitações e se abrir ao aprendizado. Na avaliação do autor, esse desafio ajuda a explicar a força de narrativas simplificadas e polarizadas no cenário político atual.
Como alternativa, o texto propõe a retomada dos princípios pedagógicos de Paulo Freire. A educação defendida pelo educador pernambucano é apresentada como um modelo baseado no diálogo, na valorização da experiência humana e na construção coletiva do conhecimento.
“Talvez seja o caso de resgatar Paulo Freire e sua pedagogia anti-autoritária, humana e sensível às dificuldades de um Outro sempre inferiorizado”, escreve Bernardes.
Para o filósofo, enfrentar a desinformação exige uma resposta que vá além das disputas políticas e das estratégias de comunicação. A aposta estaria na formação de cidadãos capazes de conviver com dúvidas, desenvolver pensamento crítico e buscar o conhecimento de forma permanente.
O autor conclui que, sem uma valorização efetiva da educação e da reflexão filosófica, a sociedade corre o risco de ver a desinformação moldar de forma duradoura o debate público e a própria capacidade coletiva de compreender a realidade.






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