sexta-feira, 08 maio 2026
Nublado
Maceió
25°C
Nublado
Nublado
Maceió
25°C
Nublado

Livro desmonta narrativas que vilanizam a ascensão da China

por | 8 maio, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Por Bárbara Luz, do portal Vermelho

Lançado na última quinta-feira, 30 de abril, pela Editora de Cultura, o livro Quem tem medo da China? A construção da ameaça chinesa, dos pesquisadores Diego Pautasso e Isis Paris Maia, propõe uma leitura crítica e historicamente fundamentada sobre como a China passou a ocupar o centro das narrativas de ameaça no cenário internacional.

Com linguagem acessível, sem renunciar à densidade analítica, a obra desmonta um vocabulário intencionalmente estruturado para vilanizar a ascensão chinesa. Termos como “autoritarismo”, “armadilha da dívida”, “violações de direitos humanos” e “neoimperialismo” são analisados como ferramentas de um repertório discursivo que serve para legitimar políticas de contenção lideradas pelos Estados Unidos e seus aliados.

“A reconstituição histórica da chamada ‘ameaça chinesa’ revela velhos fantasmas do imaginário ocidental. Do racismo colonial do ‘perigo amarelo’ ao anticomunismo do ‘perigo vermelho’, esses repertórios foram sendo reciclados e adaptados para interpretar o lugar da China no mundo contemporâneo.” – trecho da contra-capa do livro.

Ao percorrer episódios recentes — do chamado Pivô da Ásia à guerra comercial e tecnológica, passando pela formulação de uma nova Guerra Fria —, os autores mostram que a ideia de “ameaça chinesa” não é um dado da realidade. É uma construção histórica que se institucionaliza como política de Estado norte-americana a partir de 2011, durante o governo Obama, e que desde então orienta uma série de iniciativas, do cerco tecnológico às alianças militares como o Quad.

Em um contexto de transição sistêmica, essa retórica revela tanto a persistência de uma presunção imperial quanto as crescentes disfunções internas do poder estadunidense. Entre a ameaça fabricada e a reconfiguração da imagem do Dragão, a obra convida o leitor a compreender, para além de idealizações e etnocentrismos, o caminho singular de desenvolvimento e inserção internacional que a China vem construindo — e os horizontes do socialismo do século XXI que emergem dessa experiência histórica.

Os autores são também cocriadores do projeto de difusão científica Fios de China, no Instagram, e integrantes do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (CEBRACh).

Diego Pautasso

Em entrevista ao Portal Vermelho por ocasião do lançamento, Diego Pautasso aprofunda os argumentos centrais do livro: quem alimenta o medo da China, como distinguir crítica legítima de discurso geopolítico, e qual o principal erro do Ocidente ao tentar compreender o gigante asiático. Confira abaixo.

O título do livro pergunta “Quem tem medo da China?”. Quem são os principais atores que alimentam esse medo hoje e por quê?

Essa construção da ameaça chinesa, os atores que alimentam esse medo hoje, obviamente está centrado nos Estados Unidos, que vem desenvolvendo uma política de contenção da China, de construção dessa ameaça, e toda a rede de aliados, países aliados, organizações, empresas e atores individuais no Brasil, enfim, setores conservadores na América Latina, na África, que se alimentam dessa convergência ideológica com o Ocidente, com os Estados Unidos e que, obviamente, é fruto de um histórico de socialização e até de colonização mental relacionada à expansão europeia primeiro e depois ao domínio americano, sobretudo no século 20.

Para quem acompanha o noticiário e as redes e vê tantas acusações contra a China, o que mais surpreendeu vocês durante a pesquisa do livro?

A vilanização da China, a construção de caricaturas, estereótipos e narrativas, é algo que vem se construindo sobre a China desde que eu comecei a pesquisar, junto com a Isis, eu no meu caso a partir do início dos anos 2000, 2001, e a Isis depois se somou a mim na pesquisa, no desenvolvimento dessa obra, nos últimos seis anos. E as narrativas, inclusive tratadas no livro, são muitas. Algumas, vamos dizer assim, entre aspas, caíram de modo, ou são menos usuais, mas são recicladas por outras. As primeiras foram de que o desenvolvimento da China estava relacionado a uma abertura irrestrita, baseado em superexploração da mão de obra, produção de bugigangas, pirataria. Essa foi a narrativa inicial, que atravessou os anos 90 e início dos anos 2000. Mas depois foram se somando outras tantas. A China como o maior poluidor, a China como um país autoritário, agora com a questão tecnológica associada também à vigilância por conta do reconhecimento facial e outras tecnologias digitais. Mas também, cada vez mais, a partir do momento que a China foi se tornando mais assertiva no mundo, a China como um país neoimperialista, ao qual se somou também a narrativa da armadilha da dívida. E o que a gente faz no livro é justamente mostrar a genealogia dessas narrativas, mostrar suas disfunções e os propósitos a que elas se prestam e de que maneira elas turvam o entendimento da realidade chinesa.

O livro fala sobre a construção da “ameaça chinesa”. Até que ponto essa imagem é baseada em fatos e até que ponto ela é fruto de disputa política e econômica?

Como a gente mostra no livro, desde a origem da expansão ocidental da Europa, depois dos Estados Unidos, a construção de narrativas — o fardo do homem branco, o destino manifesto, a doutrina moral, mais contemporaneamente, ao longo da Guerra Fria, o inimigo vermelho, o cordão sanitário, e depois, mais recentemente ainda, o ataque preventivo, a responsabilidade de proteger, a narrativa do fim da história — todas essas narrativas estiveram relacionadas à afirmação e à construção de legitimidade da expansão da Europa e dos Estados Unidos ao longo dos séculos 19 e 20, sobretudo. De modo que o imperialismo necessita de ferramentas ideológicas de legitimação. No caso específico da China, essa construção ideológica se fortaleceu sobretudo nas duas últimas décadas e se institucionaliza como política de Estado a partir de 2011, durante o governo Obama, quando se formula a ideia de um pivô da Ásia, no caso a China, a ser contida. Desde então, uma série de políticas americanas, desde a guerra comercial até o cerco tecnológico, entre outras medidas de natureza inclusive militar, como o próprio Quad, se enquadram sob esse arcabouço da política de contenção da China, que conta com um conjunto importante de aliados no mundo.

Reprodução

Vocês defendem que existe uma tentativa de “vilanizar” a China. Como o leitor comum pode diferenciar críticas legítimas de discursos usados para criar medo?

As narrativas que vilanizam a China estão relacionadas a uma estratégia de contenção do país asiático. E há um amplo domínio dos Estados Unidos sobre as estruturas hegemônicas de produção de ideias. E aí eu me refiro à mídia, me refiro à academia, me refiro às instituições, me refiro à produção cultural no seu conjunto, incluindo cinema, símbolos, marcas etc. E tudo isso foi um dos pilares de reafirmação da liderança americana no campo simbólico. O nosso propósito, meu e da Isis, e de muitos outros pesquisadores, é justamente produzir uma análise científica capaz de discernir, de separar aquilo que é uma cortina ideológica, aquilo que é uma cortina simbólica de ocultação da realidade, daquilo que é dinâmica própria do desenvolvimento das relações internacionais, da ascensão da China.

Para quem ainda conhece pouco sobre a China, qual é o principal erro que o Ocidente costuma cometer ao tentar entender o país?

Uma das coisas que a gente argumenta é que essa política de contenção da China, utilizando-se também de narrativas que constroem um espantalho, um país vilão que não corresponde à realidade, por um lado é funcional no intuito de conter a China, por outro lado produz uma contradição: ao turvar o inimigo, ao produzir uma caricatura do inimigo, tu acaba também negligenciando o entendimento e as razões do próprio sucesso da ascensão chinesa. Por exemplo, bater forte na tecla de que a China se resume a uma experiência autoritária acaba ocultando o entendimento de que a China, na verdade, possui instituições sofisticadas, que tem mecanismos de consulta, de participação, de controle, de fiscalização, de auditoria, que tem políticas públicas robustas, capazes de produzir monitoramento e retificação. Esse é um exemplo de como as narrativas funcionam como uma faca de dois gumes.

Para encerrar: Depois do lançamento e de todo o processo de escrita, qual reflexão vocês mais esperam despertar nos leitores que pegarem “Quem tem medo da China?” pela primeira vez?

O objetivo principal da obra é, por um lado, mostrar que essas narrativas têm uma história, uma genealogia, um propósito. É um objetivo que elas têm um locus, tem um ponto de partida e, no caso, intenções geopolíticas que são claras. Mostrar os limites disso e os riscos de não compreender não apenas a ascensão da China, mas as mudanças sistêmicas que estão correlacionadas com essa ascensão do país asiático. Quer dizer, não resta dúvida, e esse é um dos fios condutores da reflexão, que o mundo passa por uma transição sistêmica e é justamente essa reação americana à ascensão da China que constitui a mola mestra desses processos de transformação. Se a gente não compreender esses processos sistêmicos corremos o risco de perder o bonde da história.

Sobre os autores

Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política pela UFRGS, professor titular da Rede Federal e diretor de pesquisas do CEBRACh. Autor de Imperialismo: ainda faz sentido na era da globalização?, entre outros.

Isis Paris Maia é historiadora, mestre e doutoranda em Políticas Públicas pela UFRGS. Professora colaboradora da Pós-Graduação em China Contemporânea da PUC-Minas. Pesquisa governança digital na China.

0 comentários