O deputado Mário Frias (PL) construiu sua trajetória política a partir da aproximação com Jair Bolsonaro e passou a ocupar espaço estratégico na articulação entre cultura, armas e propaganda política, segundo reportagem da Agência Pública.
A atuação do ex-ator voltou ao centro das atenções após a operação da Polícia Federal que investiga o uso de emendas parlamentares na produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Antes de entrar na política, Frias ficou conhecido por trabalhos como ator em emissoras como Globo, Record e RedeTV. Em maio de 2020, assumiu a Secretaria Especial de Cultura do governo Bolsonaro, após a saída de Regina Duarte.
No cargo, aproximou a política cultural de pautas defendidas pelo movimento pró-armas. Em 2022, durante a Convenção Nacional Pró-Armas, Frias e o então secretário André Porciuncula defenderam a utilização da Lei Rouanet para financiar projetos ligados à cultura armamentista.
A promessa de destinar recursos para esse segmento teve desdobramentos. Um livro sobre a história das armas no Brasil, lançado em 2025, recebeu R$ 336 mil em patrocínio da fabricante Taurus e outros R$ 85 mil em doação, com recursos captados pela Lei Rouanet.
A relação de Frias com o bolsonarismo também ganhou força com a eleição para deputado federal por São Paulo, em 2022. Segundo a reportagem, ele recebeu mais de R$ 1,4 milhão da direção nacional do PL durante a campanha.
Já no Congresso, o parlamentar passou a atuar diretamente na produção de Dark Horse. Segundo a PF, duas emendas de Frias, que somam R$ 2 milhões, foram destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), ligado à produtora Karina Ferreira da Gama.
A investigação apura possíveis conexões financeiras entre recursos públicos, empresas ligadas à produtora e a produção do filme. Frias também é apontado como um dos principais articuladores do projeto cinematográfico.
O filme começou a ser planejado ainda durante sua passagem pela Secretaria de Cultura. Na época, Frias defendia a criação de personagens e narrativas capazes de disputar a atenção de jovens e fortalecer valores associados ao bolsonarismo.
O projeto também previa uma abordagem crítica à imprensa e incorporava elementos de uma teoria conspiratória sobre o ataque sofrido por Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.
Em outro episódio, Frias se ausentou da Câmara alegando participação em uma missão oficial relacionada à implantação de escolas cívico-militares. No mesmo período, ocorreram gravações de Dark Horse.
A investigação atual também alcança integrantes da família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro aparece em áudios nos quais teria pedido recursos a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiar o filme. Ele inicialmente negou envolvimento, mas depois reconheceu ter buscado recursos, negando irregularidades.
Eduardo Bolsonaro também é citado em documentos relacionados à estrutura financeira que teria sido criada para viabilizar a produção.
Na operação Make Up, deflagrada em 10 de setembro, a PF apreendeu armas na residência vinculada a Frias e investiga suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
Segundo os investigadores, Frias teria transferido R$ 645,4 mil para a produtora Go Up em menos de dois meses. A PF aponta que o valor seria incompatível com os rendimentos mensais do parlamentar, estimados em cerca de R$ 44 mil.
A produtora movimentou aproximadamente R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período próximo ao das gravações do filme.
Frias está proibido de deixar o país por determinação do ministro Flávio Dino, relator no STF das investigações relacionadas ao uso de emendas parlamentares no financiamento da produção.
A apuração não significa, por si só, que o deputado tenha cometido os crimes investigados. O caso ainda está sob investigação e deverá esclarecer a origem, o destino e as eventuais conexões entre os recursos movimentados em torno do filme.








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