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Vorcaro: uma rede que conecta dinheiro, política e poder

por | 16 set, 2026

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Por Madson Costa*

A Operação Compliance Zero foi deflagrada em 18 de novembro de 2025, com objetivo de apurar fraudes na cessão de carteiras de crédito realizadas pelo Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), em uma operação que alcançaria a cifra de R$ 12 bilhões.

No início da investigação, coube à 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal autorizar a busca e apreensão contra Daniel Vorcaro. A Polícia Federal apreendeu o celular do banqueiro. Através um software denominado Indexador e Processador de Evidências Digitais (IPED), a Polícia Federal conseguiu reconstruir a dinâmica de comunicação de Vorcaro a partir de vestígios digitais extraídos do celular.

O celular de Vorcaro deixou um rastro digital capaz de reconstruir a forma como determinadas mensagens eram produzidas e enviadas. Ao elaborar um texto no aplicativo Notas, Vorcaro fazia uma captura de tela, enviava em visualização única por meio do Whatsapp. Contudo, o sistema operacional do iPhone gerava um arquivo PDF com conteúdo idêntico ao da captura de tela, armazenado automaticamente em uma pasta interna temporária, inacessível ao usuário comum.

Daniel Vorcaro

O Banco Master não é um escândalo de agora. Sua história antecede a Operação Compliance Zero. Em fevereiro de 2019, sob reflexo da presidência de Ilan Goldfajn, o Banco Central rejeitou por unanimidade a operação que permitiria a Daniel Vorcaro assumir o controle do então Banco Máxima.

Em outubro de 2019, sob a presidência de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, a Diretoria do Banco Central aprovou por unanimidade a transferência do controle do Banco Máxima para Daniel Vorcaro. A sequência dos fatos é objetiva: o Banco Central recusou Vorcaro em fevereiro de 2019, poucos meses depois, já sob Campos Neto, aprovou a operação.

Ao longo dos anos, Daniel Vorcaro construiu relações com diferentes setores do poder. No campo político, aparecem nomes como Antônio Rueda, Ciro Nogueira, Fábio Faria e o próprio Flávio Bolsonaro.

Roberto Campos Neto

Flávio Bolsonaro aparece nessa história de maneira sensível. Ele recebeu cerca de R$ 60 milhões de Vorcaro para financiar o “Dark Horse”.  Já Eduardo Bolsonaro aparece nas investigações relacionadas à gestão dos recursos do filme nos Estados Unidos. Não estamos falando apenas de uma aproximação política entre um banqueiro e uma família da política brasileira, mas de milhões de reais destinados a um projeto relacionado à disputa política nacional.

Antônio Rueda e Ciro Nogueira são os presidentes nacionais do União Brasil e do Progressistas e estiveram no comando de uma aliança que formou a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 109 parlamentares, além de uma das maiores bancadas do Senado, com 15 senadores.

Ciro Nogueira foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Nogueira não é apenas um dos homens mais poderosos do Congresso Nacional, é também apontado como o “vice dos sonhos” de Flávio Bolsonaro.

Em agosto de 2024, Ciro apresentou no Senado a “Emenda Master”. A proposta alterava as regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), elevando de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de proteção por CPF.  Conforme a Polícia Federal, o esboço do projeto não foi produzido pela assessoria parlamentar de Ciro Nogueira, mas pela própria assessoria do Banco Master e entregue ao senador.

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Na residência de Ciro Nogueira foi encontrada uma anotação “Câmara”, contendo valores vinculados a nomes, dentre eles, Arthur Lira (ex-presidente da Câmara dos Deputados) e Hugo Motta (atual presidente da Câmara dos Deputados), entre outros parlamentares.

Por sua vez, Fábio Faria foi ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro e aparece nas investigações como um dos principais interlocutores de Vorcaro junto ao ministro Alexandre de Moraes. Ele teria inclusive cobrado agilidade em pagamentos relacionados ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes.

Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, também aparece no caso. Segundo reportagem da revista Veja divulgada pelo G1, Daniel Vorcaro teria declarado que transferiu US$ 30 milhões, cerca de R$ 153 milhões, para uma conta no exterior destinada ao parlamentar.

No Judiciário, a rede alcançou o Supremo Tribunal Federal. Nomes de ministros aparecem em diferentes contextos relacionados ao banqueiro, entre eles Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.

Dias Toffoli passou a ser alvo de uma suspeita específica da Polícia Federal. Os investigadores levantaram a hipótese de que o ministro seria o beneficiário final de uma estrutura financeira que recebeu R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro, em operação relacionada ao fundo Arleen e ao Tayayá Resort.

Alexandre de Moraes aparece por outra via. O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, sua esposa, firmou com o Banco Master um contrato que chegou a R$ 131 milhões.

Kassio Nunes Marques aparece em outro episódio. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro registram a cobrança de R$ 10 mil relacionada a um encontro de uma mulher com alguém identificado nas conversas como “Kassio”.

O celular de um banqueiro investigado passou a revelar relações que alcançam, simultaneamente, o Legislativo, um candidato a presidência da República e o Judiciário.

Vejam a investigação não começou sob o governo Bolsonaro. Ela começou durante o governo Lula. A Polícia Federal teve liberdade para aprofundar as apurações, enquanto Gabriel Galípolo, indicado por Lula para presidir o Banco Central, conduziu uma atuação cada vez mais dura contra o Banco Master.

Gabriel Galípolo

A Polícia Federal investigou. O Ministério Público atuou. No fim, o Banco Central liquidou a instituição e Daniel Vorcaro acabou preso. Até aqui, o que o caso Master demonstra não é a falência das instituições, mas o contrário, mesmo no andar mais alto da República, ainda há quem possa ser investigado.

Contudo, outro problema aparece quando olhamos para 2027. Flávio Bolsonaro passou a liderar determinados cenários eleitorais para a Presidência da República.  Imagine que o candidato que recebeu R$ 60 milhões de Daniel Vorcaro chegue à Presidência da República em 2027.

Imagine, ao mesmo tempo, um Congresso Nacional cuja maior bancada política, o presidente da Câmara, o presidente do Senado e do Congresso Nacional, ministros do Supremo Tribunal Federal e o próprio presidente da República estejam todos orbitando o epicentro das relações de Vorcaro.

É por isso que 2027 não é um detalhe eleitoral, mas uma possibilidade institucional. Não estou dizendo que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro significaria automaticamente o arquivamento de investigações, interferência na Polícia Federal ou impunidade.

Daniel Vorcaro antes e depois de ser preso pela Polícia Federal.

No entanto, política também é a arte de perceber os riscos antes que eles aconteçam. O risco está na possibilidade de uma rede de influência atravessar praticamente todos os centros de poder da República e, depois, encontrar no governo federal alguém politicamente conectado a uma parte relevante desse mesmo universo.

Retire da equação o governo que permitiu que a investigação avançasse. O candidato que recebeu milhões de Vorcaro estaria no Palácio do Planalto. Todos esses elementos se encontrariam, simultaneamente, em 2027.

O Brasil de Vorcaro está logo ali em 2027. Não porque a democracia tenha acabado, mas porque ela está sendo testada.  Todos podem cair juntos.  Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial de 2026 e assumir em 1º de janeiro de 2027, o homem que chega à Presidência é o mesmo político que aparece nas investigações relacionadas ao Banco Master e que foi gravado negociando diretamente com Daniel Vorcaro o financiamento de seu projeto cinematográfico.

*Jurista, autor de Os Meninos da Parte Alta e Quariterê: Literatura de Aquilombamento, poliglota, pós-graduando em Direito Processual Civil e bacharel em Direito pela Universidade Federal de Campina Grande.

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