A relação entre política e crime organizado no Brasil não é uma novidade histórica, mas nunca foi tão explícita, sofisticada e perigosa quanto agora. A prisão do presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar (União Brasil), no âmbito da Operação Unha e Carne da Polícia Federal, acrescenta mais um episódio a essa narrativa de infiltração e cooptação de estruturas estatais por grupos criminosos que, há décadas, se aproximam do poder público.
A gênese dessa simbiose remonta aos anos de ditadura militar, quando setores da direita se alinharam a esquadrões da morte com o discurso de “combater a bandidagem”. Com o passar do tempo, essa rede informal evoluiu para parcerias com milícias formadas por agentes públicos, e também para alianças com o jogo do bicho — uma combinação de poder econômico, territorial e político que moldou o submundo carioca. Inicialmente toleradas e até defendidas por parte da classe política e da mídia, essas conexões consolidaram um modelo que viria a se expandir e ganhar novos contornos.
Nas últimas décadas, porém, a mistura entre crime e política deixou de ser restrita a milícias e despontou em articulações com facções do tráfico de drogas, que passaram a exercer controle territorial e comercial em regiões cada vez mais amplas. Esse processo de expansão parece ecoar no caso de Bacellar. Segundo as investigações, ele teria repassado informações sigilosas da Operação Zargun ao ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, suspeito de favorecer o Comando Vermelho, intermediando negociações de armas, drogas e equipamentos.
A gravidade do caso, contudo, ultrapassa o vazamento de informações. De acordo com a Procuradoria-Geral da República, Bacellar mantinha influência direta no Executivo estadual, interferindo em nomeações estratégicas nas polícias Civil e Militar — posições-chave em qualquer disputa por controle territorial ou por facilitação de atividades criminosas. Paralelamente, o deputado e o governador Cláudio Castro (PL) enfrentam processo no TSE por abuso de poder, irregularidades em folha de pagamento e uso de estruturas públicas em 2022. O julgamento continua suspenso, mas o voto da ministra relatora Isabel Gallotti já apontou pela cassação e inelegibilidade de ambos.
O entrelaçamento entre política e criminalidade, no entanto, está longe de ser exclusividade do Rio de Janeiro. Em Brasília, iniciativas legislativas recentes também têm levantado suspeitas de favorecimento ao crime organizado, principalmente na sua faceta mais poderosa: aquela que se articula por meio de redes empresariais, financeiras e parlamentares. A chamada “PEC da Blindagem” foi um exemplo marcante. Se aprovada, criaria uma barreira quase intransponível para a investigação de parlamentares, funcionando como um escudo institucional que poderia facilitar a infiltração de organizações criminosas na política nacional. Após forte pressão popular, a proposta foi barrada no Senado, mas deixou um rastro de alerta.
A desfiguração do PL Antifacção, conduzida na Câmara pelo então secretário de Segurança de São Paulo, Guilherme Derrite (PP), reforçou essas suspeitas. Após seis versões e articulações que envolveram figuras como Arthur Lira e Eduardo Cunha, o projeto final aprovado pela Câmara foi criticado por especialistas em segurança pública. Na avaliação de Luís Flávio Sapori, o texto reduzia a capacidade de investigação da Polícia Federal, ignorava o papel essencial da Receita Federal e do Coaf, e fragmentava a atuação estatal contra organizações criminosas. Rodrigo Ghiringhelli acrescentou que, nos bastidores, o endurecimento penal contra facções parecia servir como contrapartida para incluir dispositivos que protegeriam políticos e empresários investigados por crimes econômicos e corrupção.
Esse jogo duplo — punir o crime armado nas periferias enquanto se preserva o crime de colarinho branco — tem sido apontado como uma das mais profundas ameaças às instituições brasileiras. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em relatório recente, reforçou essa percepção ao alertar para o risco de influência de facções e milícias nas eleições de 2026. Segundo o documento, grupos criminosos já controlam territórios onde o Estado é ausente, determinando rotinas, impondo regras e influenciando direta ou indiretamente o voto da população. Em alguns casos, financiam campanhas; em outros, intimidam eleitores ou lançam candidatos próprios. Há registros, inclusive, de eliminação de adversários políticos.
Essa penetração crescente corrompe a democracia em sua essência, distorcendo a representação política e contaminando instituições que deveriam servir ao interesse público. Enquanto facções armadas dominam comunidades, redes de corrupção e lavagem de dinheiro operam nos corredores do poder, moldando leis, interferindo em investigações e capturando decisões estratégicas. A combinação desses dois polos — o crime territorial e o crime de gabinete — cria um ecossistema de poder paralelo que desafia o Estado, compromete a confiança pública e coloca em xeque a soberania democrática.
O caso Bacellar, portanto, não é um episódio isolado, mas um sintoma de um fenômeno muito maior: o avanço contínuo do crime organizado sobre o sistema político brasileiro. Um avanço que se dá por meio de pactos implícitos, alianças silenciosas, imunidades legislativas e fragilidades institucionais. Resta saber se o país será capaz de enfrentar essa captura crescente ou se continuará assistindo, impotente, à corrosão interna das próprias estruturas que deveriam proteger a sociedade.






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