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Quem matou Nô Pedrosa?

por | 23 dez, 2022

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O ex-líder estudantil Walfredo Pedrosa de Amorim (1939-2017), conhecido como Nô Pedrosa (e)

 

Nô Pedrosa e outro homem identificado como José Márcio dos Santos Silva, de 39 anos, foram vítimas de duplo homicídio em sua residência no bairro de Mangabeiras, em Maceió, no dia 23 de dezembro de 2017, a tiros.

A Polícia Civil de Alagoas nunca apresentou o assassino ou assassinos. O então procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, anunciou que seria constituído um grupo de procuradores para acompanhar o caso. Até o momento, nada de concreto foi realizado.

Quem matou Nô Pedrosa?

Essa pergunta ainda não foi respondida pela Polícia Civil, mas, para marcar posição e acalmar a família e os amigos de Nô Pedrosa, o coordenador da Delegacia de Homicídios, delegado Fábio Costa, declarou: “Estamos com uma equipe trabalhando no caso. Já temos informações que podem levar ao esclarecimento do crime”.

A Polícia Civil de Alagoas nunca mais falou sobre o duplo homicídio. As duas autoridades que se pronunciaram horas após o crime não voltaram a tratar do assunto e o duplo assassinato entrou na lista dos casos “arquivados” como milhares.

O governador Paulo Dantas, o secretário de Segurança Pública, delegado Flávio Saraiva têm a obrigação de apresentar à sociedade e à família o assassino ou assassinos, bem como novo procurador-geral do MPE, Márcio Roberto Tenório de Albuquerque.

Com o deputado Paulão (PT) | Arquivo

Abaixo a burguesia, viva o anarquismo

Estou republicando esse texto consternado com o assassinato do amigo e companheiro Nô Pedrosa, que neste dia 23 completa cinco anos. A memória de Nô Pedrosa será sempre lembrada por todos que o conheceram e conviveram com essa figura histórica do movimento de esquerda de Alagoas.

O militante anarquista mais conhecido em Alagoas é Nô Pedrosa. Nasceu em Santa Luzia do Norte, no dia 7 de setembro de 1939, e foi registrado com o nome de Walfredo Pedrosa de Amorim. É filho de Hermes Calheiros de Amorim e Lidia Pedrosa de Amorim. Por ironia do destino, nasceu no dia em que o Brasil comemora a Independência de Portugal.

Nô Pedrosa pertence a uma família com tradição e militância política na esquerda alagoana. O irmão mais velho, o escritor e engenheiro Valter Pedrosa de Amorim, foi o primeiro que iniciou a militância política quando se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), na segunda metade da década de 1950. Nô e Waldir Pedrosa de Amorim seguiram o primogênito; dos quatro irmãos, três militaram no PCB.

O que liga as famílias Calheiros-Amorim à Miranda são os irmãos Hermes e Hermé Calheiros, que por sua vez casou-se com Manoel Simplício de Miranda e constituíram uma prole com dez filhos, entre eles, os jornalistas Jayme e Nilson Amorim de Miranda, dirigentes do PCB em Alagoas.

Os primos constituíram um núcleo destacado na estrutura do PCB nas décadas de 1950 e 1960. O ativismo do jovem Nô Pedrosa ajudou a formar vários núcleos de jovens militantes comunistas no movimento estudantil secundarista e universitário.

Foto: Arquivo

O golpe civil-militar de 1964 levou os irmãos Jayme e Wilton Miranda, Nô e Valter Pedrosa para o cárcere, e outros irmãos e primos para a vida incerta na clandestinidade. Nilson, Anivaldo, Waldemir e Clístenes Miranda tiveram de sair de Alagoas e viver em outros estados, clandestinamente.

Nô Pedrosa, ao sair da prisão continuou a militância política, voltou a estudar na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e a sonhar com uma possível resistência armada para, dessa maneira, derrotar a ditadura. O tempo passou, prisões voltaram a acontecer, líderes estudantis foram presos e submetidos a tortura em Alagoas e por todas as partes do país.

A delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) anotou na ficha do Nô Pedrosa, após o golpe civil-militar de 1964, o seguinte: “Participou de todos os movimentos grevistas nos sindicatos filiados ao CGT, em companhia do comunista Nilson Miranda e outros. Tomou parte ativa nos comícios programados pelo CGT. Desenvolve atividades comunistas no meio dos estudantes. Distribui literatura comunista e boletins subversivos. Preso no movimento revolucionário de 31 de março de 1964”.

Reprodução

A militância comunista se esvai, e Nô Pedrosa torna-se cada vez mais um anarquista em franca aliança com os demais grupos de militantes de esquerda. Não deixa de ser curiosa a sua atitude. O que não mudou entre uma fase e outra foi a capacidade de aglutinar jovens seguidores. Fez da porta da biblioteca pública estadual e dos corredores da Ufal o seu palco de proselitismo político-ideológico.

Esse personagem é uma raridade em nossos tempos, despojado de qualquer apego a bens materiais. Para muitos é tido como louco. Para outros, é um ser integrado à paisagem urbana de Maceió e, umbilicalmente, vinculado à Biblioteca Pública Estadual (BPE).

O fato de nunca ter vendido a sua força de trabalho a qualquer patrão o torna um ser livre das amarras da sociedade capitalista. Encantado com os livros, continua a viver como nasceu: livre. De uma coisa ele não pode ser acusado: de que não gosta de livros e de bibliotecas. Fez disso um sacerdócio. Digo isso consciente de que estou proferindo uma heresia, já que o incrédulo anarquista talvez não entenda que o seu modo de viver é um sacerdócio.

Vida longa ao camarada Nô Pedrosa.

*Publicado, originalmente, no portal Cada Minuto

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