quarta-feira, 09 setembro 2026
Chuva leve
Maceió
24°C
Chuva leve
Chuva leve
Maceió
24°C
Chuva leve

Violência vira promessa eleitoral e alimenta ciclo de medo, ódio e “justiçamento” no Brasil

por | 9 set, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

A violência vem deixando de ser apenas um problema de segurança pública para ocupar um espaço cada vez maior no discurso político brasileiro.

Às vésperas das eleições, a promessa de respostas mais duras contra a criminalidade ganha força e transforma o medo da população em instrumento de mobilização eleitoral.

O fenômeno também aparece no crescimento de práticas de “justiçamento”, quando grupos abandonam os mecanismos institucionais de investigação e julgamento e passam a decidir, por conta própria, quem deve ser punido.

O caso do ciclista Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, morto após ser espancado em Copacabana, no Rio de Janeiro, expõe os riscos dessa lógica.

Cláudio foi acusado injustamente de ter roubado uma bicicleta e acabou cercado e agredido por seguranças particulares e entregadores.

Socos, chutes e pauladas provocaram ferimentos que levaram à sua morte.

O episódio não é tratado como um acontecimento isolado pelo jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso, autor de estudos sobre violência, crime organizado e segurança pública.

Em entrevista à Agência Pública, ele relacionou o caso à expansão de uma cultura de linchamento que começa nas redes sociais, identifica um suposto culpado e rapidamente transforma a acusação em condenação coletiva.

O jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso | Divulgação

Para o pesquisador, existe uma crença profundamente enraizada na sociedade brasileira de que a violência seria capaz de produzir ordem.

Essa percepção, segundo ele, é equivocada e perigosa.

Em vez de organizar a sociedade, a violência tende a produzir mais medo, ressentimento, covardia e desordem.

O problema se torna ainda maior quando a população convive diariamente com roubos, furtos e sensação de insegurança.

O medo acumulado cria terreno para discursos que apresentam soluções imediatas, punitivas e violentas como alternativa à incapacidade do Estado de oferecer respostas eficientes.

É nesse ponto que segurança pública e disputa política passam a se misturar.

Na avaliação de Paes Manso, governantes podem explorar o medo para apresentar operações policiais de grande letalidade como demonstrações de autoridade e eficiência.

O Rio de Janeiro reúne características que potencializam esse processo.

Homens agridem p ciclista Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos | Reprodução

A presença histórica do jogo do bicho, a expansão do tráfico de drogas, as milícias e a disputa pelo controle territorial criaram um ambiente marcado por confrontos permanentes.

Nesse cenário, a violência pode ser utilizada politicamente como uma espécie de espetáculo de força.

O pesquisador também chama atenção para o componente racial da violência brasileira.

Segundo ele, não é possível compreender o cenário atual sem considerar séculos de escravidão, desigualdade, colonização e exclusão social.

Ao longo da história, o homem negro, jovem e morador de periferia foi associado à imagem de ameaça.

Essa construção ajuda a explicar por que determinados territórios e grupos sociais são frequentemente submetidos a níveis mais elevados de vigilância, repressão e violência.

O encarceramento em massa também faz parte dessa equação.

Reprodução

Para Paes Manso, o crescimento da população prisional não eliminou a criminalidade e ainda contribuiu para a formação e fortalecimento de estruturas criminosas dentro das próprias prisões.

A violência, portanto, pode produzir efeitos contrários aos objetivos anunciados por seus defensores.

Outro aspecto destacado na entrevista à Agência Pública é a relação entre violência e masculinidade.

Cerca de 95% dos homicídios são cometidos por homens, segundo o pesquisador, independentemente de idade, classe social ou país.

A estatística revela uma relação profunda entre violência e determinados modelos de masculinidade baseados na força, na imposição e na demonstração de autoridade.

Em uma sociedade em transformação, essa lógica também pode assumir uma dimensão política.

A ampliação da presença das mulheres no mercado de trabalho, na política e nos espaços de decisão modifica estruturas sociais construídas durante séculos.

Para Paes Manso, essas mudanças podem gerar insegurança em setores que enxergam a força física e a violência como mecanismos de recuperação de uma autoridade perdida.

Nesse contexto, ser “forte” passa a ser confundido com ser violento.

A disposição para enfrentar riscos, agredir ou punir pode ser apresentada como prova de coragem e virilidade.

O problema é que essa mentalidade ultrapassa o comportamento individual e passa a influenciar a forma como a sociedade interpreta a própria segurança pública.

Quando suspeitos são considerados culpados antes de qualquer investigação, o direito à defesa perde espaço para a vingança.

Quando uma operação policial é avaliada apenas pelo número de mortos, a vida humana passa a ser tratada como indicador de eficiência.

E quando linchamentos são relativizados como reação “compreensível” ao crime, a fronteira entre justiça e barbárie começa a desaparecer.

O Brasil registrou 227 casos de linchamento em 2025 e já contabilizava 88 ocorrências até maio de 2026, conforme dados apresentados na entrevista.

Os números ajudam a dimensionar um fenômeno que não pode ser explicado apenas pela ação de indivíduos violentos.

Reprodução

Existe uma cultura que legitima a punição imediata e desconfia das instituições responsáveis por investigar, julgar e aplicar a lei.

É justamente nesse espaço que o discurso político da violência encontra força.

Quanto maior o medo, maior pode ser a receptividade a propostas que prometem eliminar o problema pela força.

O risco é transformar a insegurança em combustível eleitoral permanente.

Em vez de políticas de prevenção, investigação, inteligência e inclusão social, ganha espaço a lógica de que mais violência produzirá automaticamente mais segurança.

Reprodução

A advertência de Bruno Paes Manso, na entrevista à Agência Pública, aponta para o sentido oposto: a violência não produz necessariamente ordem; pode alimentar novos ciclos de medo, ressentimento e desorganização.

Em um ano eleitoral, o desafio será separar a legítima demanda da população por segurança do uso político do medo.

Combater a criminalidade exige Estado presente, investigação eficiente, responsabilização dentro da lei e políticas capazes de enfrentar as causas sociais da violência.

Transformar a força em espetáculo pode render votos.

Mas, como demonstra o avanço dos linchamentos e do “justiçamento”, também pode aprofundar, justamente, o problema que promete resolver.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *