Por Geraldo de Majella*
Morreu nesse sábado, 22 de agosto, aos 77 anos, o jornalista e escritor pernambucano Homero Fonseca (1948-2026), um dos nomes expressivos de sua geração no jornalismo e na literatura de Pernambuco.
Repórter, editor e escritor, Homero construiu uma trajetória marcada pelo rigor da apuração, pela defesa da liberdade de imprensa e por uma permanente curiosidade diante da história e da cultura. Passou pelo Jornal do Commercio, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo. Foi editor-chefe do Diario de Pernambuco, diretor de redação da Folha de Pernambuco e dirigiu a revista Continente.
A literatura encontrou em Homero o mesmo olhar atento que o jornalismo lhe ensinara a cultivar. Em Pernambucânia – O que há nos nomes das nossas cidades, percorreu Pernambuco em busca das histórias escondidas nos nomes de suas cidades, fazendo da geografia um mapa de memórias. Em Tapacurá – Viagem ao Planeta dos Boatos, revisitou o pânico de 1975, quando um falso rompimento da barragem tomou o Recife de medo, transformando o episódio em reportagem e reflexão sobre o poder do boato.
Em Roliúde, romance picaresco e cinematográfico, mergulhou no imaginário popular do Nordeste. Em Jaraguá – O Herói Inzoneiro, recuperou um personagem do imaginário pernambucano. E, em Jornais em Guerra – A Imprensa na Confederação do Equador (1823-1825), voltou ao século XIX para reencontrar, nas páginas dos jornais, a disputa política de seu tempo.
Em obras tão diferentes, havia um mesmo fio: a memória como matéria viva, capaz de iluminar o presente.
Conheci Homero em uma das edições da Festa Literária de Marechal Deodoro (Flimar), quando ele participou do evento como escritor convidado. Daquele encontro nasceu uma amizade que se prolongou ao longo dos anos, marcada pela literatura, pelo jornalismo e por boas conversas sobre a vida cultural.
Essa relação ficou registrada de maneira especial quando lhe mostrei os originais de Panorama Cultural de Maceió. Homero leu o texto, comentou, deu suas opiniões e, vencendo a minha própria timidez, perguntei se aceitaria escrever a orelha do livro. Ele topou.
O resultado foi um texto generoso e inteligente, intitulado “Saudade e denúncia”. Homero não apenas apresentou o livro; captou com precisão seu sentido: recuperar a memória de Maceió sem transformar o passado em nostalgia e, ao mesmo tempo, denunciar os ataques à memória da cidade e o descaso com sua vida cultural.
Hoje, diante de sua morte, essas palavras me trazem de volta a presença de Homero, com sua inteligência, seu humor e seu olhar atento para a cultura. É uma lembrança particularmente querida de uma amizade que nasceu entre livros, conversas e afinidades.
Homero Fonseca deixa uma obra que atravessa o jornalismo, a literatura e a história. Em seus livros estão personagens, lugares, acontecimentos e histórias que Homero encontrou pelo caminho e soube transformar em literatura.
Homero partiu. Ficam os livros, as histórias e a voz de um escritor que soube olhar para o passado sem perder de vista o presente.
E fica também a saudade de um amigo.
*Historiador e jornalista






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