Dizem que a política brasileira é um espetáculo à parte, mas a largada para o Palácio do Planalto nesta temporada de 2026 parece ter sido desenhada por algum roteirista de desenho animado.
Se você sintonizar a televisão no horário político, o que encontra não é exatamente um debate tradicional, mas uma pista de terra batida, cheia de curvas, ultrapassagens, motores desregulados e pilotos convencidos de que nasceram para cruzar a linha de chegada.
É a nossa versão tropical da clássica animação Corrida Maluca (1968-69), de William Hanna e Joseph Barbera, que passa há anos no SBT, agora com candidatos de carne e osso ocupando os carros que, décadas atrás, já ensinavam que, numa corrida dessas, nem sempre o mais veloz chega primeiro.
No alto do grid, largando na pole position, está Luiz Inácio Lula da Silva. Se fosse preciso escolher um veículo da corrida original, Lula provavelmente estaria no Carro 3, o Carro Cheio-de-Truques, pilotado pelo Professor Aéreo. Não porque tenha o mesmo temperamento do cientista maluco, mas porque é o carro conhecido pela capacidade de inventar uma saída quando Dick Vigarista prepara mais uma armadilha. O Professor Aéreo tinha sempre alguma engenhoca escondida para escapar do adversário e, de vez em quando, conseguia até chegar em primeiro.
Lula conhece esse circuito há décadas. Aos 80 anos, disputa a sua sétima eleição presidencial, sendo a sexta na corrida principal ao Planalto, e tenta transformar experiência acumulada em vantagem competitiva. Com Geraldo Alckmin no banco do carona, a tarefa é manter o carro governista em movimento enquanto a campanha passa por inflação, juros, relações internacionais, desgaste político e pela necessidade de convencer o eleitor de que ainda há combustível suficiente para mais uma volta. O problema é que, numa Corrida Maluca, conhecer o caminho não significa necessariamente escapar de todos os buracos.
Mas basta olhar para o retrovisor para encontrar o Carro 00, a Máquina do Mal. Nele está Flávio Bolsonaro, ocupando o lugar que parece ter sido reservado a Dick Vigarista. O carro é rápido, equipado e teoricamente capaz de vencer a corrida. O problema é o piloto. Dick Vigarista tinha uma obsessão: ganhar a qualquer custo. Parava o próprio carro para montar armadilhas contra os adversários e, invariavelmente, acabava transformando a própria estratégia em desastre.
A comparação oferece uma ironia conveniente para a corrida brasileira. Flávio entra na pista carregando o sobrenome Bolsonaro e tentando manter acesa uma máquina política construída pelo pai. O carro pode até ter potência, mas a corrida não é feita apenas de velocidade. Há obstáculos jurídicos, desgaste político e a necessidade de convencer uma parcela do eleitorado conservador de que ele é capaz de conduzir a máquina familiar sem ficar preso às armadilhas do próprio percurso. Como Dick Vigarista descobria a cada episódio, nem sempre quem tenta trapacear a pista consegue chegar à bandeirada.
Mais atrás, levantando poeira, aparece Ronaldo Caiado no Carro 9, o Carrão Aerodinâmico, de Peter Perfeito. A associação parece inevitável. Peter Perfeito era o sujeito que não perdia uma oportunidade de falar sobre a potência do próprio veículo, chegando a tratá-lo como praticamente indestrutível. O detalhe inconveniente era que o carro quebrava com facilidade. Caiado também entra na disputa vendendo a imagem de quem sabe conduzir uma máquina mais eficiente que as dos concorrentes e de quem estaria preparado para enfrentar as curvas com firmeza. Resta saber se o carrão resistirá quando a pista deixar de ser discurso e começar a cobrar desempenho.
Romeu Zema poderia ocupar o Carro 6, o Carro Tanque, aquela estranha combinação de tanque de guerra e jipe comandada pelo Soldado Meekley sob as ordens do Sargento Bombarda. É um veículo menos preocupado com elegância do que com resistência, feito para atravessar terrenos difíceis. O governador mineiro tenta levar para a corrida nacional a experiência construída em Minas Gerais, apostando numa imagem de administrador e empresário. Até agora, porém, seu veículo parece enfrentar dificuldades para encontrar espaço entre as máquinas que largaram com mais velocidade.
Pablo Marçal, por outro lado, parece ter sido desenhado para o Carro 4, a Máquina Voadora, pilotada pelo Barão Vermelho. O veículo vermelho é um carro-avião, e seu piloto é inspirado num dos aviadores mais conhecidos da história. A metáfora serve menos pela ideologia do personagem do que pela vocação para transformar a corrida em espetáculo. Marçal não parece interessado em simplesmente percorrer a pista. Quer sobrevoá-la, fazer barulho e garantir que ninguém deixe de notar sua passagem. Em uma eleição cada vez mais disputada também no território das redes sociais, isso pode ser uma vantagem. Ou uma forma rápida de sair da pista.
Renan Santos, o novato que chega embalado pelas redes sociais, combina melhor com o Carro 7, o Carro à Prova de Balas, da Quadrilha de Morte. O grupo de simpáticos gangsters nunca teve exatamente a discrição como principal característica. Renan também aposta numa comunicação mais agressiva, numa identidade política própria e em propostas que procuram ocupar o espaço mais radical da direita. Seu kart pode parecer pequeno diante dos veículos mais tradicionais, mas já descobriu que, na televisão e na internet, tamanho nem sempre corresponde ao barulho produzido.
Augusto Cury entra na pista por outra porta. Seu Carro 2, o Cupê Mal-Assombrado, seria uma espécie de consultório sobre rodas. Cercado por fantasmas e criaturas estranhas, o veículo parece adequado ao candidato que apresenta a política como um problema que talvez precise primeiro de terapia. Enquanto os outros pilotos aceleram, Cury olha para o grid e parece perguntar se não seria melhor interromper a corrida para uma sessão coletiva de análise. No alto-falante, o semipresidencialismo aparece como uma espécie de freio de mão institucional para uma República que, segundo essa leitura, anda acelerada demais.
O restante do grid parece ter saído diretamente de uma garagem onde ninguém se preocupou em combinar as peças. Edmilson Costa poderia conduzir o Carro de Pedra, dos Irmãos Rocha, avançando com a disposição de quem quer demolir parte da arquitetura institucional da pista e extinguir o Senado. Hertz Dias aparece em uma máquina mais rudimentar, adequada ao discurso de enfrentamento às reformas. Samara Martins, dentista e defensora dos direitos sociais, poderia reivindicar para si o carro rosa de Penélope Charmosa, que, apesar da aparência delicada, era cheio de engenhocas e sabia muito bem como sobreviver às confusões da corrida.
Wilson Grassi entra em seu próprio veículo, pregando o imposto único, enquanto Clariana Barão procura uma brecha entre os carros maiores para encontrar espaço no asfalto.
E ainda há uma regra não escrita dessa corrida: nenhum carro está autorizado a acreditar demais no próprio painel. O carro mais veloz pode quebrar. O piloto que lidera pode parar para montar uma armadilha e terminar em último. O veículo que parece condenado a ficar para trás pode encontrar uma curva favorável. Na Corrida Maluca, a lógica da competição é essa: todos acreditam que estão no controle, mas a pista costuma ter opiniões diferentes.
Enquanto a bandeira quadriculada de 4 de outubro se aproxima e as pesquisas de intenção de voto aquecem os motores, o Brasil acompanha uma disputa em que experiência, sobrenome, redes sociais, máquinas partidárias e promessas de transformação disputam o mesmo asfalto.
Lula larga na frente, mas sabe que uma corrida longa exige mais do que velocidade. Flávio Bolsonaro tenta manter a máquina familiar em movimento. Caiado e Zema procuram convencer que seus carros têm potência suficiente para entrar na briga. Marçal aposta no espetáculo, Cury em suas peripécias discursivas saídas de seus livros de autoajuda. Os demais tentam encontrar uma curva, uma brecha ou uma ultrapassagem que os coloque no centro da pista.
No fim, talvez a grande pergunta não seja quem possui o carro mais potente. É quem conseguirá chegar à última volta sem desmontar o próprio veículo.
Porque, nesta Corrida Maluca brasileira, até o favorito precisa olhar pelo retrovisor.





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