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Modesto de Souza: o alagoano que conquistou o teatro e o cinema brasileiros

por | 5 set, 2026

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Por Claudevan Melo*

Modesto de Souza Bittencourt (1894-1967) nasceu em São Miguel dos Campos, Alagoas, em 13 de novembro de 1894. Filho de agricultores, desde cedo demonstrou uma inclinação para as artes que contrariava os desejos da família, que pretendia vê-lo seguindo a atividade comercial.

A vocação artística, porém, falou mais alto. A passagem de um circo por São Miguel dos Campos mudaria definitivamente o destino do jovem Modesto. Ele aproximou-se dos artistas e, quando a companhia deixou a cidade, partiu com o circo. Durante a viagem, que percorreu diversas regiões do Brasil, Modesto também se apaixonou por uma bailarina espanhola integrante da trupe.

A jornada terminou no Rio de Janeiro. Na então chamada Cidade Maravilhosa, deixou o circo e iniciou uma trajetória nos palcos, trabalhando em operetas, comédias musicais e teatro dramático. A partir daí, construiu uma carreira extensa, que atravessaria décadas do teatro e do cinema brasileiros.

As informações reunidas neste texto fazem parte de um acervo que organizei ao longo de anos de pesquisa e de garimpo em sebos, livrarias e junto a colecionadores. A documentação reunida nesse percurso permite recuperar aspectos da trajetória de Modesto de Souza e preservar a memória de um artista alagoano cuja carreira se estendeu por décadas no teatro e no cinema brasileiros.

No teatro, sua trajetória inclui participações em dezenas de montagens. Entre elas estão Nhô Manduca (1914), Tournée da Companhia de Eduardo Nunes (1919), Aves de Arribação (1927), Rancho da Serra (1929), Meu Brasil (1930), Sorrisos de Mulher (1931), Casamento a Yankee (1931), Anastácio (1936-1937), A Dança dos Milhões (1937), Deus Lhe Pague (1942), Mania de Grandeza (1942 e 1943), O Grande Alexandre (1949 e 1954), Rumo à Brasília (1957), O Sr. Puntila e Seu Criado Matti (1962), de Bertolt Brecht, As Aventuras de Ripió Lacraia (1963), A Torre em Concurso (1964), Os Azeredo Mais os Benevides (1964), O Berço do Herói (1965), censurada, e Sabiá 67 (1967).

Também participou de encenações de Anastácio, de Joracy Camargo, O Sr. Puntila e Seu Criado Matti, de Bertolt Brecht, e Onde Canta o Sabiá, de Gastão Tojeiro, em 1966.

No cinema, Modesto de Souza estreou em 1939, justamente em Anastácio. A partir daí, participou de uma extensa filmografia, que inclui O Simpático Jeremias (1940), Romance de um Mordedor (1944), Romance Proibido (1944), Cem Garotas e um Capote (1945), Terra Violenta (1948), Obrigado, Doutor (1948), Falta Alguém no Manicômio (1948), E o Mundo se Diverte (1948), Carnaval no Fogo (1948), Não é Nada Disso (1950), Cascalho (1950), Tico-Tico no Fubá (1952), Rua sem Sol (1954), Carnaval em Caxias (1954), Rio, 40 Graus (1955), Leonora dos Sete Mares (1955), A Carrocinha (1955), Osso, Amor e Papagaio (1957), Orfeu Negro (1959), Entre Mulheres e Espiões (1961) e Terra em Transe (1967).

Um dos momentos de reconhecimento de sua carreira ocorreu em 1953, quando recebeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo por sua atuação em Tico-Tico no Fubá, filme que retrata a vida do compositor Zequinha de Abreu, e no qual contracenou diretamente com Anselmo Duarte. No mesmo ano, o Conselho Estadual de Cultura de São Paulo emitiu uma nota oficial em homenagem ao ator alagoano.

Modesto de Souza também foi pai do ator Jackson de Souza, dando continuidade, na família, à relação com as artes cênicas.

Sua vida terminou de maneira trágica. Em 20 de agosto de 1967, aos 72 anos, morreu no Rio de Janeiro, vítima de atropelamento.

Nos últimos anos de vida, porém, sua trajetória artística permaneceu registrada nos palcos e nas telas. O destino de seu túmulo teve outro desfecho. Segundo informação que obtive in loco, junto à administração do Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, após três anos seus restos mortais foram encaminhados ao ossário público, e o túmulo não foi preservado.

A trajetória de Modesto de Souza, construída ao longo de décadas no teatro e no cinema brasileiros, merece ser lembrada. Filho de agricultores de São Miguel dos Campos, contrariou a vontade da família para seguir sua vocação artística e construiu uma carreira que o levou aos palcos e às telas.

Resgatar seu nome, sua obra e sua passagem pelas artes brasileiras é preservar também uma parte da memória cultural de Alagoas.

*Pesquisador, colecionador e escritor

 

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