O delegado Leandro Almada, que havia sido afastado da Diretoria de Inteligência da Polícia Federal por determinação do ministro André Mendonça, acumula uma trajetória marcada por investigações de grande repercussão nacional e por episódios que atravessaram diferentes governos.
Um dos momentos mais relevantes ocorreu às vésperas do segundo turno das eleições de 2022, quando Almada comandava a Superintendência da PF na Bahia.
Cinco dias antes da votação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, o então ministro da Justiça Anderson Torres esteve no estado acompanhado do então diretor-geral da PF, Márcio Nunes.
Na ocasião, segundo depoimento prestado posteriormente por Almada à Polícia Federal, foi proposta uma atuação conjunta entre a PF e a Polícia Rodoviária Federal durante o segundo turno.
O delegado considerou a iniciativa inadequada e decidiu não aderir à operação.
Almada também relatou ter recebido pressão para ampliar o número de policiais federais nas ruas, embora mais de 70% do efetivo já estivesse mobilizado.
A Bahia era, naquele momento, o maior colégio eleitoral do Nordeste e Lula terminou o segundo turno com 72,12% dos votos válidos no estado.
Posteriormente, as investigações sobre a tentativa de golpe revelaram que o Ministério da Justiça havia levantado municípios onde Lula havia obtido votação expressiva.
A utilização da estrutura da PRF para dificultar o deslocamento de eleitores nordestinos passou a integrar as acusações apresentadas pela Procuradoria-Geral da República contra integrantes da trama golpista.
Almada, porém, não foi acusado de participação nesse esquema.
Ao contrário, seu depoimento foi utilizado para reconstruir parte da movimentação ocorrida na Bahia durante o segundo turno e para demonstrar sua resistência à proposta de ação conjunta.
Um delegado escolhido por Mendonça
A trajetória de Almada ganha ainda mais peso porque ele próprio foi escolhido por André Mendonça para ocupar um cargo de direção durante o governo Bolsonaro.
Em julho de 2020, quando Mendonça era ministro da Justiça, Almada foi nomeado diretor de Operações da Secretaria de Operações Integradas.
O delegado já ocupava posições de comando na Polícia Federal e posteriormente assumiu funções estratégicas em diferentes estados.
Em 2021, chegou à Superintendência da PF no Amazonas, substituindo Alexandre Saraiva.
No ano seguinte, foi transferido para a Bahia, onde estava quando recebeu Anderson Torres e Márcio Nunes antes do segundo turno presidencial.
Com a mudança de governo, Almada assumiu outro posto de grande relevância.
Em fevereiro de 2023, foi nomeado superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro.
A indicação enfrentou resistência política no estado.
Relatos feitos posteriormente apontaram que o então governador Cláudio Castro tentou impedir a nomeação, alegando desconfianças em relação à atuação do delegado.
A pressão, no entanto, não impediu a posse.
No Rio, Almada colocou entre as prioridades o combate à corrupção e ao crime organizado e voltou a atuar em uma investigação que já conhecia desde os primeiros anos do caso.
Marielle voltou ao centro da investigação
A relação do delegado com o caso Marielle Franco começou ainda em 2019.
Naquele ano, Almada coordenou uma investigação federal sobre possíveis tentativas de obstrução da apuração dos assassinatos da vereadora e do motorista Anderson Gomes.
A PF identificou uma suposta tentativa de direcionar as investigações para pessoas que não teriam relação com a execução.
O relatório produzido naquele período já apontava Domingos Brazão como principal suspeito de ser o autor intelectual dos assassinatos, embora, naquele momento, não houvesse elementos suficientes para responsabilizá-lo criminalmente.
Anos depois, Almada voltaria ao caso em posição decisiva.
Já no comando da PF no Rio, participou da fase da investigação que avançou sobre os possíveis mandantes e sobre pessoas suspeitas de atuar para garantir a impunidade dos responsáveis pelo crime.
Em março de 2024, Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e Rivaldo Barbosa foram presos.
A operação representou uma virada em uma investigação que permanecera durante anos sem identificar os responsáveis por encomendar o assassinato.
O delegado que havia colocado Brazão no radar da Polícia Federal em 2019 comandava a corporação no Rio quando a apuração chegou novamente ao político.





0 comentários