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Alemanha: sete fatores ajudam a explicar avanço da ultradireita e força da AfD no leste

por | 9 set, 2026

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A expressiva votação da Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições regionais da Saxônia-Anhalt acendeu novamente o alerta sobre o avanço da ultradireita no país. O partido chegou a 43,8% dos votos, praticamente dobrando seu desempenho em relação a 2021 e ficando a poucas cadeiras de formar um governo.

A ascensão, que até pouco tempo parecia improvável na Alemanha, é resultado de uma combinação de fatores econômicos, sociais, históricos e políticos. Uma análise publicada pelo site OutrasPalavras, assinada pelo pesquisador Franco Delle Donne, aponta sete elementos centrais para entender o fenômeno.

O crescimento da AfD também revela uma mudança importante no perfil do eleitorado da legenda. O partido, tradicionalmente associado aos discursos contra imigração e criminalidade, passou a ocupar espaços que antes pertenciam à esquerda, principalmente entre trabalhadores e eleitores com dificuldades econômicas.

1. A conquista do eleitorado popular

Um dos principais movimentos da AfD foi incorporar ao seu discurso temas ligados à justiça social. A estratégia, porém, é acompanhada de uma visão nacionalista, na qual políticas de proteção social são defendidas prioritariamente para os alemães.

Na Saxônia-Anhalt, segundo os dados citados pelo estudo, 59% dos trabalhadores não qualificados votaram na AfD. Entre eleitores com ensino fundamental, o índice chegou a 57%. Já entre aqueles que afirmaram enfrentar dificuldades financeiras, a legenda alcançou 65%.

O resultado mostra que a extrema-direita conseguiu avançar sobre parcelas do eleitorado tradicionalmente mais próximas da esquerda.

2. O ressentimento da Alemanha Oriental

Outro fator importante é a sensação de abandono existente em parte da população do antigo território da Alemanha Oriental.

Pesquisa do instituto Infratest dimap apontou que 73% dos entrevistados na Saxônia-Anhalt se consideram cidadãos de “segunda classe”. A percepção está relacionada às consequências da reunificação alemã e à ideia de que a promessa de igualdade entre as duas partes do país nunca foi plenamente cumprida.

A AfD encontrou nesse sentimento uma oportunidade política. Em vez de tratar a insatisfação apenas como uma questão econômica, o partido transformou o ressentimento em identidade política e passou a se apresentar como representante de uma população que teria sido esquecida pelas forças tradicionais.

3. A capacidade de mobilizar novos eleitores

A força eleitoral da AfD também aparece na capacidade de levar às urnas pessoas que anteriormente não participavam das eleições.

De acordo com os dados citados na análise, aproximadamente 170 mil dos 570 mil eleitores da AfD na Saxônia-Anhalt não haviam votado na eleição anterior.

Nenhuma outra legenda teria conseguido mobilizar um contingente semelhante. O aumento da participação eleitoral na região acabou favorecendo especialmente a extrema-direita.

4. A estratégia de Ulrich Siegmund

A campanha do candidato da AfD, Ulrich Siegmund, também teve papel importante no resultado.

A legenda apresentou Siegmund como uma figura próxima do eleitor comum da Alemanha Oriental. Durante a campanha, ele participou de eventos locais e utilizou intensamente as redes sociais, apostando em mensagens simples, provocativas e de forte apelo emocional.

A própria exposição negativa acabou sendo transformada em instrumento político. Depois de ser chamado pela revista *Der Spiegel* de “o homem mais perigoso da Alemanha”, Siegmund incorporou o episódio à narrativa de perseguição construída pela extrema-direita.

A lógica é conhecida: se as elites e os grandes veículos de comunicação atacam o candidato, isso seria apresentado como uma prova de que ele estaria enfrentando o sistema em defesa do “povo”.

5. A normalização da extrema-direita

O resultado eleitoral representa também mais um passo na normalização da extrema-direita alemã.

Siegmund, segundo a análise, mantém vínculos com setores extremistas e neonazistas e esteve presente, em 2023, em uma reunião realizada em Potsdam que discutiu um plano de deportação em massa associado ao conceito de “remigração”.

Mesmo diante desse histórico, a AfD vem ampliando sua presença institucional e eleitoral.

Para Delle Donne, a vitória na Saxônia-Anhalt ajuda a deslocar o partido de uma posição marginal para o centro do debate político. É justamente esse processo de normalização que preocupa setores democráticos do país.

6. A ideia de que a AfD estaria no “centro”

Um dos dados mais reveladores das pesquisas é a forma como os próprios eleitores da AfD enxergam o partido.

Segundo a Infratest dimap, 87% dos eleitores da legenda acreditam que, apesar da existência de políticos de extrema-direita em seus quadros, a AfD estaria localizada no centro do espectro político.

A percepção ajuda a explicar por que posições antes consideradas extremistas passaram a ser vistas por uma parcela significativa do eleitorado como alternativas políticas legítimas.

Para a análise, esse processo demonstra o grau de normalização alcançado pela extrema-direita na sociedade alemã.

7. O objetivo vai além de uma eleição regional

A vitória na Saxônia-Anhalt não deve ser observada apenas como um fenômeno regional.

Na avaliação apresentada pelo OutrasPalavras, o avanço da AfD pode aumentar a pressão sobre o governo do democrata-cristão Friedrich Merz e ampliar a disputa dentro do campo conservador.

O objetivo estratégico da extrema-direita seria enfraquecer o governo e, com isso, aumentar a pressão pelo rompimento do chamado “cordão sanitário” que historicamente impede partidos tradicionais alemães de formar alianças com a AfD.

Nesse cenário, também ganha importância o BSW, partido de esquerda conservadora liderado por Sahra Wagenknecht, que combina propostas econômicas de esquerda com posições mais duras sobre imigração e questões culturais.

Um alerta para a democracia alemã

O avanço da AfD mostra que a extrema-direita alemã deixou de ser apenas uma força de protesto. O partido passou a disputar diretamente o poder e encontrou espaço entre grupos sociais afetados por dificuldades econômicas, insatisfações históricas e desconfiança em relação às instituições tradicionais.

A análise publicada pelo OutrasPalavras aponta que a resposta dos demais partidos não poderá se limitar à rejeição da AfD. Será necessário enfrentar as causas sociais, econômicas e políticas que alimentam sua expansão.

A eleição na Saxônia-Anhalt, nesse sentido, pode ser mais do que uma vitória regional. Ela funciona como um sinal de que a extrema-direita encontrou uma forma eficiente de transformar insatisfação social em força eleitoral — e de ocupar espaços que antes pertenciam a outras correntes políticas.

 

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