Por Geraldo de Majella*
É difícil ignorar que André Mendonça vem trabalhando para criar um clima de ruptura interna no STF. Sua atuação não pode ser vista isoladamente: ele é uma das peças desse movimento de desestabilização da Corte. Trata-se, portanto, de uma atuação que se insere em uma estratégia mais ampla. A história política mostra que os golpes de Estado mudaram de método e que a desestabilização da ordem democrática pode ser construída sem a presença ostensiva de soldados e tanques nas ruas.
A literatura política e a experiência histórica mostram como a captura ou a cooptação de instituições de Estado — Poder Judiciário, Ministério Público e Congresso Nacional — pode desempenhar papel decisivo nesse processo. A disputa também alcança a opinião pública, com a imprensa tradicional exercendo forte influência. No Brasil, veículos como O Globo, O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo, além das grandes redes de televisão e rádio, têm papel relevante na formação de um ambiente político favorável à ruptura institucional. Para preservar uma aparência de pluralidade, esses veículos abrem espaço, pontualmente, para articulistas com posições divergentes, sem que isso altere a linha predominante de seus espaços editoriais. É uma pluralidade mais aparente do que real.
A esse conjunto de forças soma-se o mercado financeiro. Há também um elemento que ganhou peso nas últimas décadas: as denominações evangélicas. Não todas, evidentemente, mas setores importantes de suas lideranças há muito apoiam movimentos de ruptura institucional.
Os instrumentos tradicionais, entretanto, não desapareceram. As forças policiais e as Forças Armadas continuam no horizonte de uma ação dessa natureza. O 8 de janeiro de 2023 demonstrou isso. A tentativa de golpe fracassou, e oficiais-generais envolvidos na trama golpista, militares de outras patentes, policiais federais e milhares de civis foram presos e condenados.
A possibilidade de uma nova tentativa para reverter o resultado político ou promover uma revanche continua presente entre os principais defensores dessa perspectiva. Flávio Bolsonaro continua a sustentá-la e agora conta com a anuência cada vez mais explícita de Donald Trump.
É preciso reconhecer os sinais antes que seja tarde.
*Jornalista e historiador





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