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Guimarães Passos: o poeta alagoano que ganhou voz nos discos

por | 12 set, 2026

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Por Claudevan Melo*

Em 9 de setembro de 2026, completam-se 117 anos do falecimento do poeta parnasianista Guimarães Passos, Sebastião Cícero Guimarães Passos, nascido na antiga província de Alagoas, em 22 de março de 1867, e falecido em Paris, em 9 de setembro de 1909, vítima de tuberculose. Posteriormente, seus restos mortais foram transladados para o Rio de Janeiro.

A obra de Guimarães Passos atravessou mais de um século e chegou também à música. Alguns de seus poemas foram musicados e levados aos discos quando a gravação mecânica ainda dava os primeiros passos no Brasil. Entre os documentos que preservo em meu acervo particular está uma verdadeira relíquia: um disco de 1904, com a gravação de um de seus poemas.

Trata-se de “A Casa Branca da Serra”, poema musicado por Miguel Pestana e gravado em 1904 pelo cantor Mário Pinheiro, ainda pelo sistema mecânico. O registro, em disco de selo amarelo, integra a documentação que preservo sobre o poeta alagoano.

A modinha teve outras interpretações ao longo das décadas. Antes delas, o cantor Paraguassu, conhecido por “Noites Enluaradas”, havia interpretado a composição em 1929, pela gravadora Columbia. Em 1951, a gravação recebeu arranjo de J. C. de Oliveira e foi registrada por Vicente Celestino. Também foi gravada pelo cantor Cândido Botelho, em 1955.

A história de “A Casa Branca da Serra” está ligada a um episódio marcante da vida de Guimarães Passos. Aos 19 anos, ele veio para o Rio de Janeiro. Aventureiro, juntou-se ao grupo armado de Floriano Peixoto contra a revolta liderada por Custódio de Melo, em 1894, no contexto da Revolta da Armada. Por seu destaque, foi promovido a sargento e, posteriormente, a alferes.

Guimarães Passos rompeu com Floriano e foi unir-se aos revoltosos, seguindo para Desterro, atual Florianópolis. Lá conheceu Antônia Alves de Araújo, de família tradicional, e apaixonou-se por ela. Com a derrota dos revoltosos para os federalistas, teve de exilar-se na Argentina. Foi durante esse período que escreveu a famosa modinha.

Fundadores da Academia Brasileira de Letras, entre eles Guimarães Passos, identificado pela seta.

De volta do exílio após a anistia, Guimarães Passos participou das reuniões que deram origem à Academia Brasileira de Letras e foi um de seus fundadores. Tornou-se o fundador da Cadeira nº 26, escolhendo como patrono o poeta Laurindo Rabelo. Entre as fotografias que preservo está um registro de Guimarães Passos na Academia Brasileira de Letras, no qual aparece Machado de Assis sentado e Guimarães Passos ao fundo, identificado por uma seta.

A vida literária do poeta, entretanto, não se limitou à sua participação na criação da Academia. Guimarães Passos construiu uma obra que continuou circulando por meio dos livros e também da música. A trajetória de “A Casa Branca da Serra” é um exemplo dessa permanência: o poema saiu da literatura, ganhou melodia e foi registrado por diferentes intérpretes ao longo de décadas.

Mais tarde, Guimarães Passos viajou à Europa em busca de tratamento para a tuberculose, mas não obteve resultado. Morreu em Paris, em 1909. Seu corpo foi trazido para o Brasil em 1921. O amor por Antônia Alves de Araújo, que marcou a história da modinha, nunca chegou a se concretizar.

Em meu acervo, preservo a documentação relacionada a essa trajetória: fotografias de Guimarães Passos, registros de sua presença na Academia Brasileira de Letras, a partitura de “A Casa Branca da Serra”, o disco de lançamento da modinha, de 1904, a gravação por Paraguassu, de 1929, o registro por Vicente Celestino, de 1951, e o disco por Cândido Botelho, de 1955. Também fazem parte desse conjunto livros dos poemas do poeta.

Entre os livros e poemas que preservo está “O Prisioneiro”, do qual destaco:

“Nunca a verás; não queiras vê-la, não!

Deixa que o meu amor oculto cante

N’áurea gaiola do teu coração.”

Outro registro que integra essa memória é a visita que fiz ao túmulo do poeta Guimarães Passos, no Rio de Janeiro.

Claudevan Melo no túmulo de Guimarães Passos, no Rio de Janeiro.

Reunir e preservar essa documentação é uma maneira de manter viva a memória de um poeta alagoano que teve uma trajetória marcada pela literatura, pela política, pelo exílio, pelo amor e pela música. Seus versos não permaneceram apenas nos livros: ganharam melodias, foram gravados em diferentes épocas e chegaram a várias gerações.

O disco de 1904 é, para mim, uma das peças mais importantes desse conjunto. É uma testemunha sonora de um tempo em que a poesia de Guimarães Passos já ultrapassava as páginas dos livros e encontrava na música outra forma de permanecer viva.

Fotos: Acervo Guimarães Passos.

*Pesquisador, colecionador e escritor

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