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Efeméride octogenária

por | 13 set, 2026

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Quero pedir a compreensão dos 14 leitores da Depois do Play, para esta pequena pausa nas resenhas costumeiramente publicadas, porque não posso deixar passar, sem tecer comentários, uma data tão significativa de uma instituição da maior importância para os diversos segmentos culturais deste país. No próximo dia 13 deste mês, em nível nacional, o SESC completará 80 anos de existência e atividades em prol da produção cultural brasileira. Particularmente, ao cabo dos anos 1990, muito do que realizei musicalmente teve o SESC Centro como casa acolhedora, notadamente no Teatro Jofre Soares, onde fiz alguns shows e até a gravação de um disco. Além, claro, de ter alimentado minh’alma por diversas vezes, como plateia e fruidor de bons espetáculos ali apresentados.

Neste sentido, ressalte-se que a Instituição SESC, de maneira geral, cumpriu uma tarefa essencial para manter viva e ativa a produção cultural aquariana, pois eram tempos difíceis, com a nossa principal casa de espetáculos fechada para reformas, que se estenderam por intermináveis dez anos. Ainda não tínhamos o Centro de Convenções e, portanto, não existia o Teatro Gustavo Leite.  O SESC supriu essa lacuna com inúmeros projetos e uma equipe técnica criativa e abnegada ao fazer cultural. Creio que muitos teriam se perdido pelo caminho se não fosse a Instituição SESC, alimentando a chama criativa dos nossos artistas. Sobretudo, em um momento tão crítico e nebuloso, pelo ponto de vista das hostes governamentais. Aliás, por ironia, o Teatro Deodoro, vergonhosamente, encontra-se fechado novamente e sabe-se lá até quando…

Tripartite

Apesar da inoperância dos órgãos oficiais de fomento à cultura, aquele foi um tempo bem efervescente, pois era a quadra dos inesquecíveis Festivais de Música do SESC, o saudoso FEMUSESC, alento de talentos que tinham ali uma verdadeira chance para o exercício do que propunham fazer e querer da vida. Minha gratidão à Instituição é imensurável e eterna. Tive a honra e a glória de vencer dois festivais (o primeiro e o terceiro), em noites memoráveis no Jofre Soares, com canções que depois foram levadas à mostra de Maringá, como consequência do resultado do Festival. Agora, estão armazenadas em discos lançados pelo SESC, como registros de uma época e da memória musical do que estava sendo produzido em nossa latitude.  Os discos, são outra importante contribuição do SESC aos artistas da cena local e à sociedade em geral, como herança material da criativa diversidade musical contemporânea, que alimentava tanto aos festivais como, posteriormente, às mostras de música do SESC.

Além das minhas participações nos festivais, fiz alguns shows no Teatro Jofre Soares. Um deles, o show Depois do Carnaval, originou um disco gravado ao vivo, que acabou se tornando o álbum Ao Vivo e Aos Outros. Porém, um show em especial eu não esquecerei jamais! Sua história é muito peculiar e, talvez, única. Dessas que ficam no anedotário para a posteridade e volta e meia, aqui-acolá, a gente relembra nos momentos em que os causos estão em pauta numa roda de amigos. Entendo que o ocorrido é pertinente a este escrito, porque não foi um caso isolado, que diria respeito só a mim ou a banda que me acompanhava. Eu não teria o que contar se o fato não tivesse acontecido com uma participação tripartite, digamos assim. Primeiro, a minha, como sujeito da questão. Depois, o púbico, como protagonista direta e indiretamente. Por fim, a própria Instituição SESC Centro, por fazer cumprir o seu regulamento de maneira imparcial e por direito.

Surpresa Inesperada

Hoje, com o natural distanciamento cronológico, o ocorrido tem até o seu lado cômico. Contudo, no calor dos acontecimentos, foi um tanto dramático, porém, solucionado da melhor maneira que eu poderia conceber, sem maiores prejuízos para ninguém, a não ser ao meu parco capital financeiro que, diga-se de passagem, nem o tempo consegue melhorar.  O fato é que era um sábado, nos idos de 1998, e tínhamos um show para ser realizado no Tetro Jofre Soares. Seria uma espécie de despedida, pois no dia seguinte estaríamos embarcando para Europa, em uma turnê de quarenta e cinco dias e vinte e nove shows. Estávamos afiados e no afã de apresentar ao público do aquário o mesmíssimo show que estávamos levando para alguns dos mais importantes festivais de música do velho continente.

Sem maiores delongas, voltemos ao causo que se assucedeu, antes do show no Jofre Soares. Ocorre que estávamos bem tranquilos e animados no camarim, minutos antes da hora marcada para o início do show, quando, com uma expressão de tristeza e até de piedade, o meu querido amigo-irmão Felix Baigon – à época funcionário do SESC – veio nos comunicar que o show não poderia mais acontecer. Tomados de assalto, pela surpresa inesperada, ficamos por alguns segundos sem ação, boquiabertos pelo inusitado. Saindo do torpor insólito e momentâneo, eu quis saber o motivo da impossibilidade, até então completamente improvável e inimaginável para mim. Foi aí que o Baigon nos explicou que, de acordo com o regimento do SESC, para que um espetáculo com bilheteria acontecesse no Jofre Soares, seria necessário que o mínimo de 10% dos ingressos disponíveis tivesse sido vendido. Explicou, ainda, que a capacidade do Jofre Soares era de 120 lugares e que, portanto, 10% seriam doze ingressos, e até aquele momento, faltando minutos para o início do show, só haviam sido vendidos oito ingressos.

Grito de Guerra

Para ser sincero, a princípio eu não acreditei no que estava acontecendo. Parecia algo surreal, tipo a queda da Alice ao fundo do poço, um soco no estômago, daqueles que deixam a gente sem ar. Entretanto, graças ao espírito apolíneo, que sempre nos socorre nesses momentos, eu disse: tudo bem, eu compro os quatro ingressos que faltam para atingir a cota mínima. E assim foi feito e assim o show aconteceu! Sem dúvida, acho que essa foi uma maneira insólita de o próprio artista pagar para fazer o seu show. No entanto, mal sabia eu que esse seria também um combustível incandescente, que abasteceria o nosso orgulho a partir daquele momento e durante toda a nossa longa turnê pela Europa.

Fizemos o show para as oito pessoas com o mesmo ímpeto, com a mesma garra e respeito, como se estivéssemos tocando para o teatro lotado ou uma massa receptiva em praça pública. A partir dali, criamos um grito de guerra que utilizamos antes de cada show da turnê europeia. Fazíamos um círculo, como fazem os jogadores de futebol, e gritávamos em uníssono: “Aqui pra Maceió! ” Sim, claro, acompanhado do gestual respectivo. Mas não passava de um desabafo, uma vingança boba pelo fato de o público do aquário ter ignorado a nossa “despedida”.

Musculatura Artística

Foi no SESC Centro, após esse episódio, que também caiu a ficha de que nem sempre cabe ao artista a responsabilidade direta ou o ônus pela falta de público nos espetáculos. Como sempre, e no caso citado foi assim, tínhamos feito como manda o figurino: divulgação em todas as mídias, entrevistas em programas de rádio e TV, boca a boca e etc.  É bem verdade que, naquela época, não havia redes sociais e a internet estava praticamente dando os primeiros passos no Brasil. Então, onde estaria o nó da questão? Bem, esse é um longo assunto que não cabe aqui nem agora. Apenas citei, porque ficou como um dos resultados práticos daquela noite inesquecível.

Este foi só um dos vários episódios que vivenciei na Instituição SESC, que tanto contribuiu para a minha busca pelo crescimento e aprimoramento pessoal e artístico. Torço para que os deuses apolíneos continuem a fortalecê-la como fomentadora da cultura produzida em nossa latitude e alhures, gerando consciência crítica e, sobretudo, estimulando jovens que, como eu, tenham a oportunidade de criar musculatura artística e alimentar a alma em seus equipamentos culturais, além de vislumbrar novas perspectivas e oportunidades. Que esta efeméride, dos 80 anos de existência do SESC, nos revele novas narrativas, como referência histórica e participativa da contínua formação cultural do nosso povo.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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