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Revolução em curso: do Nordeste de Celso Furtado ao Nordeste de Lula

por | 14 set, 2026

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Por Geraldo de Majella*

Celso Furtado não apenas estudou o Nordeste: transformou a questão nordestina em uma questão nacional. Seu diagnóstico partia da concentração da terra, do analfabetismo, da economia pouco diversificada e da vulnerabilidade às secas. Os dados históricos ajudam a dimensionar o Nordeste sobre o qual formulou sua política de desenvolvimento.

Na estrutura agrária, os dados dos Censos Agropecuários do IBGE mostram a concentração. Em 1950, os estabelecimentos com menos de 10 hectares representavam 53,3% do total, mas ocupavam apenas 2,8% da área. Os de 100 a 1.000 hectares correspondiam a 10,3% dos estabelecimentos e concentravam 40,5% da área; os de 1.000 hectares ou mais, apenas 0,9%, ocupavam 31%. Em 1960, os estabelecimentos com menos de 10 hectares já representavam 61,6%, mas ocupavam somente 4,2% da área. Esse quadro ajuda a compreender a questão estrutural enfrentada por Furtado.

Décadas depois, a estrutura havia mudado, mas a concentração permanecia. No Censo Agropecuário de 2017, segundo o IBGE, a agricultura familiar correspondia a 79,2% dos estabelecimentos nordestinos, mas ocupava 36,6% da área; os estabelecimentos não familiares, que representavam 20,8%, ocupavam 63,4%. A desigualdade fundiária permaneceu.

Trabalhadores de uma frente de emergência no Nordeste. Fonte:Trabalhadores de uma frente de emergência no Nordeste. Fonte: Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 1977.

Universidades e Institutos Federais: impulsionadores do desenvolvimento

Na educação, o contraste também é profundo. Segundo o IBGE, em 1950 apenas 25,9% da população nordestina com cinco anos ou mais era alfabetizada. Em 1970, a taxa chegava a 39,2%. Em 2025, entre as pessoas de 15 anos ou mais, a alfabetização alcançou 89,4%, enquanto o analfabetismo caiu para 10,6%. A mudança é profunda, embora a região ainda apresente a maior taxa de analfabetismo do país.

A expansão das universidades federais transformou o mapa do ensino superior nordestino. Em 2002, eram 12 universidades e 30 campi; em 2026, são 20 universidades e 83 campi. Isso representa oito novas universidades e 53 novos campi em pouco mais de duas décadas.

IC da Ufal

Universidades do Nordeste detêm 15% das patentes em biotecnologia do Brasil. A biodiversidade da região vira inovação com babaçu, quitosana e bioenergia.

Na educação profissional e tecnológica, a expansão foi ainda maior. O Nordeste tinha 49 unidades da Rede Federal em 2002 e chegou a 249 em 2026, um acréscimo de 200 unidades. A expansão dos Institutos Federais levou a educação profissional a um número crescente de municípios do interior dos nove estados nordestinos, ampliando o acesso à formação profissional e tecnológica para além das capitais.

Convivência com a seca e migração

A resposta à seca também mudou. O Programa Cisternas foi criado em 2003. No governo Dilma, o Programa Água para Todos, lançado em 2011, estabeleceu a meta de 750 mil cisternas até 2014 e ultrapassou esse objetivo: segundo o Ministério da Integração, 771.344 cisternas haviam sido distribuídas até novembro de 2014. Em 2025, a Sudene registrava 1.252.472 cisternas e outras tecnologias sociais no Nordeste, das quais 1.083.770 destinadas ao abastecimento humano.

A infraestrutura hídrica avançou em outra frente. Segundo a Agência Nacional de Água (ANA), o Projeto de Integração do Rio São Francisco tem como objetivo levar água a 12 milhões de pessoas em 390 municípios de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Os dois eixos do projeto passaram a integrar uma estratégia de segurança hídrica que substitui, em parte, a lógica exclusivamente emergencial de enfrentamento das secas.

A migração continua revelando a dimensão das desigualdades. O Censo Demográfico 2022, do IBGE, registrou 10,4 milhões de pessoas nascidas no Nordeste vivendo fora da região; 6,8 milhões delas, ou 65,5%, estavam no Sudeste. Ao mesmo tempo, 96,6% da população residente no Nordeste havia nascido na própria região.

Transferência de renda

O Bolsa Família acrescentou outra dimensão às políticas sociais. Em abril de 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, 9,4 milhões de famílias nordestinas recebiam o benefício, com repasse de R$ 6,26 bilhões no mês. A política combina transferência de renda, condicionalidades e proteção social.

O Nordeste de Celso Furtado era marcado pela pobreza estrutural, pela concentração fundiária, pelo analfabetismo e pela vulnerabilidade à seca. O Nordeste de Lula e Dilma é diferente: possui uma rede federal mais extensa, maior acesso à educação, políticas permanentes de transferência de renda e infraestrutura hídrica que ampliou a capacidade de convivência com o semiárido.

Lula e Dilma apresentaram o Nordeste ao Brasil não como território destinado ao socorro, mas como espaço de desenvolvimento, investimento e oportunidades. Esse movimento dialoga com o pensamento de Furtado: superar desigualdades exige planejamento, políticas permanentes e presença do Estado. A transformação é real, mas não encerra a questão nordestina. A concentração da terra, as desigualdades territoriais e a migração mostram que a revolução continua em curso.

*Jornalista e historiador

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