Por Edberto Ticianeli, do História de Alagoas
Por solicitação da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Alagoas (Sindjornal) instituiu a Comissão da Verdade dos Jornalistas Alagoanos, que foi instalada no dia 27 de março de 2013, às 19 horas, no auditório do Museu da Imagem e do Som (Misa), em Jaraguá, com a presença do jornalista alagoano Audálio Dantas, então presidente da Comissão da Verdade da Fenaj.
A Comissão alagoana foi formada por Valdice Gomes (presidente), Edberto Ticianeli (coordenador), Olga Miranda, Graça Carvalho, Anivaldo Miranda e Adelmo dos Santos.
Um dos jornalistas ouvidos foi Iremar Marinho, que faleceu na quinta-feira (17 de setembro de 2026) em Maceió. Para se conhecer um pouco de sua história, reproduzimos parte do seu depoimento à Comissão da Verdade dos Jornalistas Alagoanos.
Aprendendo o jornalismo
“Minha faculdade de comunicação foi o antigo Jornal de Alagoas. Fui convidado pelo jornalista José Osmando de Araújo, que era meu colega de classe na Faculdade de Direito. Pela minha facilidade de escrever, ele perguntou se eu queria trabalhar como repórter no Jornal de Alagoas, onde ele era editor. Isso foi em 1974.
Comecei como repórter, e foi quando eu conheci uma figura que foi muito importante para a minha profissão, que foi o jornalista Denis Agra. Na época ele era o revisor do jornal. O Ricardo Neto soube que ele estava sem emprego, porque ele tinha estudado com a esposa do Ricardo Neto na faculdade, e conseguiu esse emprego para ele.
Logo depois, o Denis Agra foi convidado para trabalhar com o Márcio Canuto na Gazeta de Alagoas, e me chamou para ir trabalhar lá também. Quando cheguei lá, o Márcio Canuto era o editor e o Denis Agra era o chefe de redação, e eu fui ser editor de Nacional e Internacional. Logo em seguida, o Márcio Canuto me levou para trabalhar, também, na TV Gazeta como redator do departamento de jornalismo.
Quando Denis Agra foi convidado para fundar a Tribuna de Alagoas, eu fui também. Denis Agra era o editor geral, Cláudio Humberto era o chefe de reportagem e eu, o chefe de redação. A Tribuna surgiu para enfrentar o monopólio da Gazeta de Alagoas, com um projeto político. Era uma coisa nova no jornalismo em Alagoas.
Eu entrei em 1979 e fiquei até 1987. Quando eu saí da Tribuna, esse pessoal todo já tinha saído, e o jornal estava ruim das pernas, abandonado pelos seus sócios, que no início eram 20, mas no final ficou somente o Teotônio Vilela. Houve um momento em que me convidaram para ser editor com o intuito de afastar o Cláudio Humberto, que tinha uma posição de ultradireita. O diretor era o Arnon Chagas e o pessoal não queria mais ele por lá. Eu não aceitei fazer esse papel. Sai da Tribuna e fui para o Jornal de Hoje, depois fui assessor na Assembleia Legislativa e tive vários outros trabalhos como assessor.
Enfrentado o autoritarismo
(…) Se existiu perseguições nos jornais por causa do meu passado, não chegou ao meu conhecimento. Na imprensa eu só recebi solidariedade. O que existiu na época do governo do Suruagy, quando o coronel Amaral era o secretário de Segurança, e havia aquela matança a torto e a direito, era perseguição ao jornal Tribuna de Alagoas. Eu sempre tive a posição de defender o jornal e os colegas.
Nessa época, houve um incidente na Tribuna de Alagoas. Eram umas nove horas da noite, quando chegou um delegado e três policias para prenderem o Wilson Barros, que hoje é diagramador da Tribuna Independente e na época respondia a processo por assassinato. O delegado queria invadir o jornal e eu perguntei a ele pelo mandado de prisão. Ele respondeu que não precisava, e que tinha recebido ordem para levar o Wilson de qualquer jeito. Eu disse que ele não levava. Disse ainda que na delegacia dele ele mandava, mas que no jornal ele não podia entrar.
A Censura e os Ratos
A presença dos censores era tão constante que ninguém estranhava mais. Tinha um agente da Polícia Federal que ia diariamente e ficou amigo dos jornalistas. Ele chegava ao jornal e dizia o que podia sair e o que não podia. A censura atuava junto à direção do jornal e a gente ficava sabendo pelos diretores, que vinham até a redação e diziam: — Essa matéria não pode sair por recomendação da Polícia Federal.
Houve um caso na TV Gazeta. Eu era chefe de redação da TV e um dos repórteres era o Joaquim Alves, quando o presidente Geisel visitou Alagoas. A gente fazia as chamadas e tinham duas matérias. O Joaquim fez as duas chamadas em seguida: “Geisel chega a Alagoas” e “Ratos invadem a Pajuçara”. Assim que foi ao ar, Pedro Collor me chama à sua sala e pergunta: — Que chamada da peste é essa? Eu era o chefe de reportagem e responsável. Pensei que seria demitido, mas ele chamou o Joaquim e disse que ele estava demitido. O Joaquim ficou só no jornal. Já era a censura da empresa.
Quanto a diretor de jornal, não tem exceção não. Todos eles eram coniventes com o regime militar, não tinha nenhuma exceção. O único que discordava em algumas coisas era o Noaldo Dantas, que veio da Paraíba e tinha uma visão mais aberta, mas o restante achava que a Ditadura estava certa, que era para reprimir mesmo.
Por causa da censura, o jornal saía sempre ruim, não era o jornal que a gente queria fazer. Eu preparava a página internacional dando destaque à guerra do Vietnam, mas não como queria. A gente já sabia que não ia ser publicada. Só saía elogio ao governador do estado e ao prefeito.
Perseguido pela Ditadura
Quando eu era estudante de Direito e representava o Centro Acadêmico, em 1973, participava da redação do jornal do DCE e convivia com as lideranças da época, como Denis Agra, Breno Agra, Jeferson Costa e outros. Durante uma aula do professor Zeferino Lavenère Machado, pai do Marcelo Lavenère Machado, eu fiz um comentário afirmando que a Constituição do Brasil era uma constituição entre aspas.
Eu me referia aos decretos da Ditadura, que sempre começava assim: A Junta Militar decreta, e abria aspas para citar a medida. Falei isso como gozação na aula de Direito Constitucional. Essa fala minha chegou até à Reitoria, ao reitor e general Nabuco Lopes e ao pró-reitor Acadêmico, Medeiros Neto, que me chamou e disse: — Olhe, o 477 está aí e você pode perder o curso. Em seguida, a Reitoria nomeou uma comissão para analisar a minha atuação como subversivo. A comissão era composta pelo capitão Ailton, do Exército, pelo Dilmar Camerino e outra pessoa que eu não me recordo.
Logo em seguida, eu fui aprovado num concurso para agente administrativo do INPS. Durante o treinamento, eu fui chamado pela Assessoria de Segurança e Informação do INPS, quando tive que responder as mesmas perguntas da comissão instituída pela UFAL, numa mostra de que eles já tinham minha ficha.
Mas eu assumi o emprego e fui trabalhar no Arquivo da Perícia. Seis meses depois, numa véspera de Natal, recebi o recado que a diretoria de pessoal queria falar comigo com urgência. O diretor era o Inésio Cavalcante, irmão do ex-governador e general Luiz Cavalcante. Ele me disse que tinha um relatório em mãos, e que por causa dele eu estava sendo demitido, que já tinha assinado a portaria no dia anterior. Reclamei dizendo que não estava sendo acusado de nada e que não tinha respondido a nenhum inquérito. Ele disse que era um caso de segurança nacional e que não precisava de inquérito. Eu disse: — Quer dizer que eu vou perder o emprego? Ele explicou que eu ainda receberia por um mês sem trabalhar, como se fosse uma indenização. Avisei a ele que iria procurar o superintendente, Nelson André, para pedir explicações. Ele me disse que podia procurar o superintendente, mas a decisão era irreversível. E disse mais: — Se você quiser exercer a advocacia, procure outro estado, porque aqui você não vai ter condições de trabalhar.
Anos depois, já no governo Sarney, eu fiz o concurso para auditor do trabalho. Fiquei em 16º lugar e tinha 40 vagas para Alagoas e eu nunca fui nomeado porque a minha ficha não deixou.











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