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Praça Deodoro: mau exemplo ambiental para o futuro das nossas praças

por | 16 set, 2025

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Por Dilson Ferreira*

A Praça Marechal Deodoro, no coração do Centro Histórico de Maceió, passou por uma transformação radical desde o fim de 2024. Em 2009, era coberta por árvores que formavam um belo corredor verde, sombreado e acolhedor. Era lugar obrigatório de descanso, conhecido desde quando se chamava Largo da Cotinguiba e, depois, Largo das Princesas.

Em 3 de maio de 1910, foi inaugurado o monumento ao Marechal, acompanhado de uma reurbanização para celebrar a memória de Deodoro da Fonseca.

Hoje, em 2025, a Praça Marechal Deodoro perdeu boa parte de suas copas e de seu sombreamento. Restam apenas fragmentos de árvores decepadas e mal podadas, que não chegam nem perto da massa arbórea que já existiu nesse espaço público histórico de nossa capital.

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Não é comum atravessar a Praça Deodoro atualmente sem sentir o calor causticante no rosto, principalmente em dias de sol. O piso claro, sem sombreamento adequado, reflete intensamente a luz, aumentando a sensação térmica e causando ofuscamento em quem passa. Isso torna o ambiente desconfortável para quem deseja permanecer ali alguns instantes durante o dia.

É verdade que, à noite, a praça se torna mais convidativa, quando há atrações no Teatro Deodoro e em seu anexo. Bem iluminada em LED, com fontes coloridas ligadas de vez em quando, atrai crianças, pipoqueiros, vendedores de churros e famílias que passeiam.

Já durante o dia, o espaço é árido, exposto ao sol e pouco acolhedor. Além disso, boa parte dos bancos foi retirada ou realocada, restando apenas alguns em pontos isolados. Ou seja: uma praça sem sombra, com piso refletindo luz nos olhos e com número insuficiente de bancos.

Tudo isso é exatamente o oposto do que se espera ambientalmente de um espaço público, que já foi sombreado e democrático, especialmente em uma cidade quente e úmida como Maceió. Para se ter uma ideia, a diferença de temperatura entre uma praça arborizada e outra sem árvores pode chegar a 7 ºC, o que mostra a importância do sombreamento como elemento essencial no espaço urbano nordestino.

Esse fato reforça a necessidade imediata de um plano de arborização urbana para Maceió, tema que já abordei em outros textos e debates públicos.

A Praça Deodoro perdeu sua memória ambiental e afetiva. Um patrimônio histórico e ecológico que unia jovens e moradores do centro por décadas. Inclusive, já foi refúgio seguro para pessoas em situação de rua.

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A Praça Deodoro era um lugar de juventude, de encontros e convivência urbana, de debates e de atos políticos (ali funcionava a Câmara Municipal até 2018). Hoje, tornou-se um espaço renovado e “instagramável”, mas pouco convidativo durante o dia, pela ausência de sombra. Serve mais para fotos rápidas ou como caminho de passagem, já que o calor intenso afasta qualquer permanência prolongada em boa parte da praça.

Não sou contra a reforma de praças. Pelo contrário: luto todos os dias para que todas as praças de Maceió sejam revitalizadas. Em uma cidade quente e úmida como a nossa, praças arborizadas e ventiladas são fundamentais para estimular a vida urbana, os encontros e a convivência das pessoas. São um item vital em qualquer projeto urbano no Nordeste. Árvores convidam as pessoas a sair na rua, andar, pedalar, correr.

É preciso aprender com os erros ambientais da reforma da Praça Deodoro, que retirou boa parte do sombreamento, enquanto a reforma da Praça Centenário preservou suas árvores e devolveu vitalidade ao espaço. Esse foi um acerto, que atraiu novamente a população para a principal praça do bairro do Farol.

Portanto, esta não é apenas uma crítica ambiental à Praça Deodoro, mas uma contribuição para corrigir erros básicos de conforto urbano, que ao contrário foram assertivos na Praça Centenário, quando se preservou sua massa árborea, suas sombras históricas.

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Que as próximas reformas em andamento, como as da Praça Visconde de Sinimbu e da Praça Afrânio Jorge, conhecida como Praça da Faculdade, sejam guiadas pelo cuidado com a arborização, com a memória afetiva dos maceioenses e com o conforto térmico.

É preciso garantir que nossos espaços públicos sejam, de fato, democráticos, verdes, arborizados e acolhedores.

Bem, acredito que as árvores da Praça Deodoro estão mal podadas, talvez até doentes, e precisam do cuidado de um botânico. Quem sabe ainda seja possível resgatar a vitalidade dos anos 1980, quando nelas escutávamos o canto dos pássaros que ali faziam seus ninhos.

Ninguém escuta mais nada na Praça Deodoro. Só suor e calor durante o dia.

*Arquiteto urbanista e professor da Ufal

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