Por Klinger Silva*
“Alma não tem cor. Por que eu sou branco? Por que eu sou negro?”
Alma Não Tem Cor (1995) – Chico César.
As Identidades são a um só tempo processos construtivos e contínuos individuais e comunitários. Experiências particulares de vida socio-culturalmente referenciadas em conexão dialética e dialógica com o mundo.
Sabe-se que as identidades são múltiplas, a exemplo das nacionalidades, àquelas relativas ao gênero e a etnia, outras relacionadas aos diversos grupos, classes, funções e arranjos político-econômicos, culturais e sociais.
Percebe-se que uma das edificações identitárias mais complexas e difíceis é aquela relativa ao processo da descoberta, ressignificação e valorização étnica. Lastreada por fatores sociais, políticos, psicológicos, históricos, econômicos e culturais do povo negro.
De fato, segundo essa ordem de ideias, o termo “Negritude” significaria todo aquele processo de construção étnica distintiva-particular e coletiva na direção da superação e erradicação simbólica e material da “desumanização de parte da humanidade”. Criada, perpetuada e naturalizada historicamente, em grande medida, para manutenção e reprodução dos poderes econômicos, políticos, institucionais e sociais de toda sorte.
A Negritude, dessa forma, revela-se como um importante e inegável dimensão do Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Constituindo-se como processo identitário, desafiador e multidisruptivo de fundamentos sistêmicos-segregacionistas persistentes, iniciados a mais de quatro séculos a partir do tráfico transatlântico de Seres Humanos escravizados.
É notável que para a viabilização da ordem econômica-política-social, tal qual experenciamos hoje, os poderes etnocêntricos e eurocêntricos-colonizadores, necessitaram de conceitos e narrativas ideológicas que justificassem a desumanização, o rapto, a comercialização e a exploração violenta do trabalho até a morte de parcelas significativas de seres humanos. Tais fatos e argumentos ideológicos se consolidaram através dos séculos em alguns dos fatores basilares, não menos importantes, do arcabouço ideológico-estruturador da sociedade contemporânea, onde negras/os se encontram na condição de “cidadãs/cidadãos” de terceira categoria; em regra, pertencentes das últimas camadas de classes e condições sociais de precarizadas.
Para tanto, a partir do século XVI criaram-se os conceitos de “branco e negro”. O primeiro com qualidades inatas e de distinção sociocultural e econômica “divinizadas”. O segundo termo significando todas as desqualificações imagináveis e inimagináveis. Essas desqualificações possuem fundamento último na exploração do “homem” pelo “homem”. Na disputa por supostos lugares de controle e poder institucionais, sociais e políticos. Nos “arranjos familiares” que dão exclusividade a certos grupos e classes no dito e incutido “privilégio” de gerenciarem diversos nichos de poder.
Desumanização esta, normatizada e naturalizada por diversas “justificativas científicas” com o correr dos séculos, que perduram nos nossos consciente e inconsciente individual e coletivo até os dias de hoje.
Geralmente negada publicamente pela maior parte das elites referenciadas na mentalidade colonial, a discriminação se revela todos os dias em todas as dimensões das relações pessoais, institucionais e sociais.
Dessa forma, práticas correntes traidoras de discursos fundados na mitificação da “democracia racial” se revelam em costumes, atos, gestos, comportamentos e falas segregacionistas daqueles/as que não assumem suas ações e pensamentos íntimos. Fato ordinário e concernente à nossa própria formação sociocultural e econômica.
Neste sentido, pode-se dar como exemplos relativos duas situações vividas em nossa cidade durante os anos de 1980 em espaços institucionais e contextos diferentes. Casos reveladores de algumas características fundamentais da estrutura do ser social alagoano amplamente conhecidas.
Na UFAL
Em uma conferência de “caráter-científico”, onde o “protagonismo democrático” cabia a representantes acadêmicos, empresariais e do poder público, cuja mesa de cerimônia etnocentrada não dava assento e voz à Vida, a audiência surpreendeu-se com a fala de um jovem estudante negro que cobrou a participação de um representante do Movimento pela Vida como conferencista no evento. Tal atitude discursiva, lastreada pelas lutas pessoais e coletivas contra os nichos sistêmicos etnoclassistas de poder, teve o apoio imediato da totalidade da audiência.
De fato, a Mesa foi recomposta com a admissão da liderança do referido movimento socioambiental. E, assim, a conferência (até então mera ferramenta de propaganda empresarial), transformou-se em um debate público aberto sobre os perigos que a Indústria Química traria para o meio-ambiente e a população de Maceió.
Diante disto, o preposto da Indústria e do poder público, economista, professor e organizador do evento, ameaçou publicamente o estudante com injúrias racistas extremamente agressivas e ainda afirmou, em cólera, que o jovem jamais concluiria seu curso. Tal processo, na verdade, só contribuiu para afirmação identitária-étnica e representativa do estudante. E revela só mais um daqueles milhares de casos experenciados por negras/os durante a toda vida, constitutivos de seus processos dinâmicos da construção da negritude, cuja energia ancestral é parte fundamental de resistência e resiliência.
No Comércio
A jovem, em seu primeiro emprego como balconista de uma loja pertencente a uma rede nacional varejista, inaugurada e ainda hoje localizada em frente ao mar no centro da Maceió; junto com suas amigas de trabalho negras, era obrigada todos os dias ao final de uma longa e exaustiva jornada de trabalho a se despir completamente. E em peças íntimas vivenciarem uma humilhante busca em suas roupas e pertences por produtos supostamente roubados por essa/s funcionária/s durante o fatigante dia de trabalho.
Neste caso verifica-se nitidamente três camadas de segregação. Visto que eram mulheres, negras e trabalhadoras. Percebe-se que o maior agravante da segregação, além do gênero e da classe social, foi indubitavelmente etnia.
De fato, os dois casos acima descritos, assim como milhões de outros vividos no passado e no presente, fazem parte de experiências individuais e coletivas que infligem dor e sofrimento e, ao mesmo tempo, são os propulsores de transformações particulares e sociais necessárias, a partir da tomada de consciência e das lutas do povo negro. Transformando, assim, sentidos, textos, contextos e o próprio conceito de “ser negra/o”.
Concebe-se, de certa forma, que o conceito-poético sintetizador deste processo, acima descrito chamado de Negritude, surge a partir da obra “Cahier d’un Retour au Pays Natal”, de 1939, que em tradução livre significaria: “Escritos de um Retorno ao País Natal”, de autoria de Aimé Césaire (1913-2008). Originário da Martinica, Césaire e outros intelectuais negros na França e no Mundo organizaram o movimento sobre a “Descoberta” (sobre ser negro e as relações sociais, históricas e econômicas da segregação advindas do processo de escravidão de mais de quatro séculos, chamado de Negritude).
Tal como Césaire, Léopold Sédar Senghor (1906-2001), do Senegal; William Edward Bughart Du Bois (1868-1963), norte-americano; Léon-Gontran Damas (1912-1978), nascido na Guiana Francesa e Frantz Fanon (1925-1961) originário da Martinica; Abdias do Nascimento (1914-2011), brasileiro; Martin Luther King (1929-1968), norte-americano; destacam-se como intelectuais negros, dentre outros grandes escritores, sociólogos, historiadores, psiquiatras, filósofos, religiosos, artistas e ativistas sociais que, reconhecidamente, contribuíram para o processo da Negritude em termos práticos e teóricos.
Notifica-se, em particular, a importância dos cultos-afros-brasileiros e suas lideranças sociais, espirituais e políticas na preservação das melhores tradições ancestrais no tocante à sobrevivência, resiliência e edificação da Consciência da Negra diante da segregação sócio-histórica, cultural e econômica, operacionalizada através de suas várias dimensões de violência individual e coletiva. Além da importância de todas as revoltas e lutas protagonizadas pelo povo negro através da história no mundo. Em especial, aquelas ocorridas e correntes em nosso país, que têm como grande referência e inspiração o Quilombo dos Palmares.
Por último, acredita-se que construir identidade não significa necessariamente destruir outros caminhos identitários. Essencialismos invariavelmente possuem caráter autoritário. E todo autoritarismo baseia-se na violência, segregação, intolerância religiosa, entre outros malefícios advindos do lado sombrio da humanidade. Logo, uma nação cuja identidade primordial é a sua rica diversidade cultural não pode prescindir do Estado Democrático de Direito para sua sobrevivência e superação estratégica de todos os males sociais, econômicos e políticos herdados que teimam em continuar existindo.
(*) Mestre em Patrimônio – Universidade Nova de Lisboa – FCSH/UNL










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