Por Dilson Ferreira*
Lendo o Relatório Independente de Análise de Dados sobre a Subsidência em Maceió, apresentado em agosto de 2025 pela Defensoria Pública do Estado (DPE), decidi escrever este texto. O estudo da DPE refuta a tese da Defesa Civil de Maceió de que apenas as zonas de criticidade 00 e 01 representam risco. Essa tese, até então defendida pela instituição, não se sustenta à luz do que foi apresentado pelo relatório da DPE.
Diversos laudos, relatórios e uma CPI no Senado já haviam contestado essa visão. Defendemos junto com o IAB e a UFAL a realocação, desde 2023, e todas as evidências apontavam que havia subsidência nos Flexais e em outras áreas. Esse novo relatório de 2025 confirma isso.
Critérios simplistas
O relatório da Defensoria mostra que a Defesa Civil considera em risco apenas áreas com deslocamentos verticais acima de –5 mm por ano. Esse limite é simplista e enganoso segundo o relatório. A cidade afunda além das linhas do mapa oficial aponta o estudo da DPE.
A cidade que afunda em silêncio
Entre junho de 2019 e dezembro de 2024, a bacia de recalque ou subsidência de Maceió acumulou –1083,7 mm de afundamento vertical e velocidade máxima de –189,7 mm por ano. O deslocamento horizontal, no sentido Leste-Oeste, chegou a –524,2 mm e velocidade de –92,2 mm por ano.
A bacia de afundamento tem formato elíptico, com 3,8 km de comprimento e 1,3 km de largura. O fenômeno é mais amplo que os limites do mapa versão 05, traçados pelo poder público municipal.
Exemplos que desmontam o mapa oficial
Na Rua Barão José Miguel, nº 240, no Farol, uma casa apresenta deslocamentos verticais de –26,6 mm e horizontais de –40,4 mm. O imóvel tem brechas, pisos afundados e rachaduras contínuas.
Na Rua General Hermes, no Bom Parto, as residências de números 1367, 1379 e 1425 apresentam recalques de cerca de –27 mm. As paredes estão rachadas e as fachadas comprometidas.
Na Rua Beira da Lagoa, nº 96, no Bom Parto, o imóvel foi interditado em abril de 2025 após deslocamentos próximos de –30 mm.
Em 2023, eu já alertava que a subsidência poderia atingir a ETA Cardoso, mas fui ignorado. A estação de tratamento abastece o sistema Catolé-Cardoso, que atende mais de 250 mil pessoas também sofre os efeitos da subsidência.
O relatório registrou deslocamentos verticais próximos de –40 mm e horizontais de –30 mm, além de fissuras e trincas em estruturas de concreto. A mineradora já está, segundo a imprensa local, em tratativas de indenização pela ETA, que não aparece no mapa da Defesa Civil.
Os Flexais de Bebedouro
Na Comunidade dos Flexais, o relatório internacional indica recalques de –15 a –20 mm por ano, com afundamento acumulado de –90 mm em cinco anos e deslocamento horizontal de –60 mm.
Casas e ruas exibem rachaduras, pisos inclinados, afloramento de lençol freático e água invadindo as vias. Mesmo assim, a área continua fora das zonas de criticidade 00 e 01, embora os estudos comprovem o risco.
A infraestrutura também sofre
O relatório identificou vazamentos na rede da Casal em áreas com deslocamentos inferiores a –5 mm por ano. Esses vazamentos podem causar erosão subterrânea e aumentar a instabilidade do solo. Diversas tubulações estão se rompendo na região e a população sempre tem alertado é mostrado essas rupturas de infraestrutura de abastecimento de água.
O risco invisível
A subsidência é silenciosa, dinâmica e cumulativa. Os deslocamentos continuam ativos e não se estabilizaram. O mapa atual da Defesa Civil cria uma falsa sensação de segurança para moradores que vivem em áreas instáveis.
O que está em jogo
Manter um zoneamento que minimiza sem critério técnico confiável o risco é irresponsável. Em 2023, quando coordenei o relatório de isolamento social para a Defensoria, já havia alertado que o problema de isolamento é urbano, ambiental e humano.
O novo relatório de 2025 da defensoria confirma que a subsidência em Maceió ultrapassa os polígonos oficiais. É necessário adotar novos critérios técnicos, monitoramento contínuo e reconhecer a dimensão real do problema.
Esse não é um debate político. É um debate técnico e científico. Envolve segurança ambiental, vidas humanas e o direito à moradia segura.
A realocação é inevitável
A realocação dos Flexais é uma questão técnica, geológica, humana, ambiental e urbanística. Os problemas se agravam a cada ano. Ou vamos esperar um novo inverno para ver a lagoa avançar sobre os Flexais que afundam em direção a ela?
O relatório da Defensoria é tecnicamente inquestionável. Negar isso é negar a ciência, que é incansável pela verdade.
Muitos outros laudos, artigos e relatórios virão, podem aguardar. Nós pesquisadores continuaremos mostrando a verdade tecnicamente.
*Urbanista e professor da Ufal





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