Por Geraldo de Majella*
O deputado federal Alfredo Gaspar (União Brasil–AL), relator da CPMI do INSS, tem transformado as sessões do colegiado em verdadeiros espetáculos de autoritarismo. Quando mulheres prestam depoimento, seu comportamento é o de um inquisidor desrespeitoso; já diante de bolsonaristas convocados pela comissão, mostra-se complacente e hesitante. Um “tigrão” com as mulheres e uma “tchutchuca” com os companheiros de extrema-direita.
No dia 3 de novembro, durante uma sessão transmitida ao vivo, Gaspar ultrapassou todos os limites e se superou no discurso de ódio e violência, ao exaltar a política de extermínio do governador Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro — responsável por operações policiais que resultaram em centenas de mortes nas favelas. Disse o deputado:
“Quero bater palmas para a polícia do Rio de Janeiro, que bandido que não respeita a polícia é chumbo mesmo. Mas eu tenho pena da polícia não ter a mesma autorização para fazer isso nos corruptos com poder. O povo quer justiça igualitária, ou seja: para corrupto, forca. Para corrupto, o mesmo tratamento de bandido perigoso.”
A fala, que combina populismo punitivista e oportunismo eleitoral, revela a essência do bolsonarismo: o discurso da violência como justiça e a hipocrisia travestida de indignação moral.
Se a bravata de Gaspar fosse levada ao pé da letra, não sobraria espaço no plenário da Câmara para se esconder. O próprio presidente de seu partido, Antônio Rueda, é citado em inquérito da Polícia Federal na Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do PCC no setor de combustíveis. Rueda aparece mencionado como possível dono oculto de jatos executivos usados em esquema criminoso — fato que ele nega, mas que está sob apuração.
Pelas regras do próprio Gaspar, se algum dia a Justiça condenar Rueda, a pena seria o fuzilamento, e não o devido processo legal.
A seletividade moral do deputado não para por aí. O alagoano conhece de perto outro personagem ilustre da corrupção nacional: Fernando Collor de Mello, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Conterrâneo de Gaspar, Collor manteve com ele, ao longo dos anos, laços políticos e familiares. Ainda assim, o extremista jamais fez qualquer menção a esse caso.
Cláudio Castro, a quem Gaspar aplaude com entusiasmo, está sendo julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) por corrupção e peculato, em processos que investigam desvios de recursos públicos durante sua gestão no governo do Rio de Janeiro. Mesmo assim, Gaspar o exalta como modelo de governante.
Mas nada disso impede o deputado de posar de paladino da moralidade, acenando para a plateia bolsonarista que exige sangue, mas silencia diante dos crimes dos seus.
É o moralismo seletivo, marca registrada da extrema-direita brasileira: a lei serve para o inimigo, nunca para os seus.
Enquanto o país precisa conhecer a fundo as fraudes bilionárias organizadas durante o governo de Jair Bolsonaro, que lesaram aposentados e pensionistas do INSS, Alfredo Gaspar transforma uma comissão parlamentar em palco de bravatas e slogans.
Não é justiça o que ele busca — é visibilidade, aplausos e curtidas.
Por trás do discurso inflamado está o mesmo cálculo político que moveu o bolsonarismo desde o início: usar a raiva do povo como escudo para proteger os poderosos de sempre.
O “tigrão da CPMI” ruge apenas quando convém.
*Historiador e jornalista







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