quarta-feira, 29 abril 2026
Nuvens dispersas
Maceió
29°C
Nuvens dispersas
Banner
Nuvens dispersas
Maceió
29°C
Nuvens dispersas
Banner

Maceió e o Urbanismo da Idolatria Política

por | 9 nov, 2025

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Foto: Secom Maceió

Por Dilson Ferreira*

Maceió está entre o marketing urbano instagramável, a idolatria política nas redes sociais, a especulação imobiliária e o abandono das funções públicas da cidade. Vivemos uma distopia urbana.

A cidade passa por um processo de transformação que não pode mais ser explicado como simples decisão administrativa ou falha de gestão. Trata-se de uma distopia urbana planejada. O que está em curso no Brasil são modelos de cidades orientadas pelo interesse imobiliário, pela privatização progressiva dos espaços públicos e pela substituição do planejamento urbano por estratégias de visibilidade política nas redes sociais. Esse modelo pode ser chamado de “Urbanismo Beverly Hills”, um urbanismo artificial, padronizado e frágil, criado para idolatrar gestores públicos.

Nunca houve tanto investimento em obras de impacto visual. Ao mesmo tempo, nunca se acumularam tantos passivos sociais, urbanos, ambientais, territoriais e culturais.

Cinco bairros foram afundados pelo crime da mineração. A reparação não veio em forma de política pública para os afetados. Veio em arrecadação para o Estado. Veio em obras que não foram discutidas com a população. Veio em um êxodo urbano que deslocou milhares de pessoas para fora de Maceió ou para áreas periféricas. Veio em isolamento social e urbanístico de comunidades como os Flexais de Bebedouro, onde famílias vivem ilhadas dentro da própria cidade, assistindo a um projeto de requalificação que favorece o mercado da construção civil e foi rejeitado por especialistas.

Foto: Célio Junior/Secom Maceió

A mobilidade urbana deixou de ser política pública e passou a ser vitrine turística restrita à orla. Linhas de ônibus foram reduzidas, como a linha Ipioca–UFAL e outras que atendiam estudantes universitários no Campus A. C. Simões. Enquanto isso, a orla recebeu ciclovias, pavimentação nova, faixa verde, o “caminho do porto” instalado ao lado de dutos da Petrobras e eventos esportivos privados que fecham o trânsito para produção de imagens turísticas. A prioridade não é mobilidade para quem precisa. É estética de mobilidade para quem vê.

O mesmo fenômeno ocorre com o espaço público. A orla foi convertida em zona permanente de exploração comercial. Foi instalada uma roda-gigante com concessão privada. Foram realizados eventos pagos em área pública. O estacionamento passou a ser disciplinado. Ambulantes tradicionais foram removidos. A organização de jangadas foi regulada. A cidade promove um turismo de espetáculo enquanto enfraquece a vida comunitária e estimula a gentrificação. Os bairros da orla estão sendo transformados em zonas de aluguel temporário e investimento imobiliário. A população local perde lugar para o capital especulativo. A pergunta já existe: estamos vivendo uma bolha imobiliária?

Ao mesmo tempo, cresce uma gentrificação induzida pelo próprio Estado. Bairros como Ponta Verde, Pajuçara, Jatiúca, Cruz das Almas e Jacarecica passam por verticalização acelerada voltada ao aluguel por aplicativo. Casas são substituídas por microapartamentos destinados à renda especulativa. Muitos desses empreendimentos usam recursos do Minha Casa Minha Vida, programa que não pode financiar imóveis com fins de aluguel especulativo. A cidade não apenas permite a especulação. Ela financia a especulação. Em São Paulo já existe uma CPI investigando esse modelo em parceria com bancos, investidores e grandes incorporadoras. No Nordeste nada disso é investigado.

Foto: Secom Maceió

Essa mesma lógica se repete nas escolas demolidas e substituídas por areninhas dedicadas exclusivamente ao futebol. Muitas areninhas são controladas por grupos locais e não por políticas públicas esportivas. O urbanismo deixa de ser projeto coletivo e torna-se moeda eleitoral. As areninhas poderiam ter sido quadras cobertas e abertas, com uso poliesportivo, cultural, comunitário, religioso e assistencial.

No campo ambiental a situação é crítica. Dezenas de línguas sujas de esgoto na orla. Manguezais foram destruídos. Restingas foram removidas. Rios foram canalizados em concreto. A Lagoa Mundaú está assoreada e com espécie de sururu invasor ameaçando o ecossistema além da poluição ambiental e riscos da mineração. O Riacho Maceió ou Salgadinho foi transformado em calha rígida de concreto com maquiagem urbanística como está fazendo outras cidades que adotaram esse urbanismo de concreto e sem árvores. Ele voltará a transbordar no inverno porque o Vale do Reginaldo possui 27 quilômetros quadrados de bacia de drenagem e recebe água de mais de dez bairros da parte alta da cidade. Por outro lado nossos cemitérios estão abandonados e em colapso. Nem os mortos respeitamos mais.

O poder público ignora o funcionamento natural do território e repete soluções caras que fracassaram em outras capitais. Onde a restinga foi recuperada, como em Cruz das Almas, a erosão estabilizou. Onde foi removida, o mar avançou, mesmo com contenções milionárias. A ciência ambiental oferece soluções, mas o poder municipal e estadual escolhe ignorá-las.

O problema dos alagamentos segue o mesmo discurso de culpabilização da população. A responsabilidade é atribuída ao “lixo jogado na rua”, mesmo quando bairros nobres como Ponta Verde e Jatiúca alagam da mesma forma que bairros pobres como Vila Brejal, que segue afundando e alagando há décadas. O morador não é o problema. O problema é a infraestrutura de drenagem, o saneamento e a impermeabilização do solo. Não existe política urbana para os esquecidos de Maceió. A política urbana existe apenas na orla.

O centro histórico, com mais de 45 prédios abandonados, é tratado como área descartável. Apenas três prédios foram escolhidos para restauração, com custo bilionário de 1,74 bilhão de reais em 30 anos. O Mercado da Produção tem projeto pronto, mas nunca saiu do papel. A prioridade não é recuperar o que existe. É criar novas vitrines urbanas para contratos, shows e inaugurações. Maceió virou uma cidade de negócios. O urbanismo praticado é o da rentabilidade para poucos.

Maceió deixou de ser administrada com políticas urbanas e passou a ser gerida por marketing urbano. Muitos gestores chamam isso de cidade inteligente.

A cidade não tem Plano Diretor aprovado. Não aplica o Plano Municipal de Saneamento de 2018. Não possui plano de mobilidade urbana. Não revisa o Código Ambiental. Não realiza debates por bairros como o orçamento participativo da década de 1990. O Estatuto da Cidade é ignorado. A participação social foi substituída por publicidade, influenciadores políticos e vereadores que não apresentam propostas urbanas relevantes para Maceió e para a região metropolitana.

A pergunta agora é direta:

Para quem essa cidade distópica está sendo construída?

Para quem mora ou para quem investe? Para quem vive a cidade ou para quem lucra com ela? Para o direito à cidade ou para o direito ao negócio?

A resposta está nas ruas: na imobilidade urbana, nos rios canalizados, nos alagamentos, nos mais de 800 prédios abandonados, nos bairros expulsos, na gentrificação, nos cemitérios abandonados e no patrimônio histórico negligenciado.

Acúmulo de lixo dispensados em galerias é um dos grandes responsáveis por alagamentos em período de chuvas | Junior Bertoldo/Ascom Seminfra

Maceió está deixando de ser cidade e está se tornando produto político e financeiro de elites empresariais e governamentais.

Quando a cidade vira produto, o povo deixa de ser cidadão e vira seguidor. O marketing político, os gatilhos emocionais e a religiosidade manipulada transformam o morador da periferia em um fã que converte curtidas em votos.

Até quando você vai votar em políticos que transformam a cidade real, cheia de injustiças, em uma cidade virtual, colorida e distorcida?

Vivemos uma alienação política e urbana. Isso é muito grave pois as sequelas dessa visão de cidade não se apagarão.

*Arquiteto urbanista e professor da Ufal

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *