sábado, 27 junho 2026
Nuvens dispersas
Maceió
25°C
Nuvens dispersas
Nuvens dispersas
Maceió
25°C
Nuvens dispersas

A revitalização que adoece e ameaça: quando o poder público insiste em “recuperar” uma área que os estudos já consideram de risco

por | 10 nov, 2025

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

Reprodução

Por Mauricio Sarmento*

A cada dia, torna-se mais evidente que a chamada requalificação ou revitalização dos Flexais não representa melhoria, modernização ou cuidado com a população. Muito pelo contrário: ela tem transformado o território em um ambiente insalubre, inseguro e emocionalmente exaustivo, onde a vida cotidiana se deteriora e a saúde das famílias é colocada em risco.

E o pior: essa intervenção acontece em uma área que todos os estudos técnicos classificam como de risco, onde a permanência de moradores contraria recomendações de especialistas e onde investir recursos públicos se mostra desnecessário, inadequado e incoerente com a realidade do território.

Poeira constante, casas sujas e doenças respiratórias

As obras têm produzido um volume de poeira que invade casas, estabelecimentos e vias. O ar se tornou denso, quase irrespirável. Essa “nuvem permanente” tem provocado crises de pieira, alergias, tosse e dificuldades respiratórias, especialmente em idosos, crianças e pessoas com comorbidades.

A população vive com janelas fechadas, pano na boca, e a limpeza se tornou uma tarefa inútil — trinta minutos depois, tudo está coberto de poeira novamente. Viver assim não é revitalização. É agressão.

Pulverização mecânica de inseticida: um novo terror diário.

Como se não bastasse a poeira, a comunidade também tem sofrido com a pulverização mecânica de inseticida, realizada sem aviso adequado, sem protocolo transparente e sem garantia de segurança. O cheiro é forte, incômodo, e muitos moradores relatam dor de cabeça, irritação nos olhos, náuseas e crises respiratórias após a passagem dos veículos que espalham o produto pelo ar.

Essa prática, somada à poeira das obras, cria um ambiente químico e tóxico no qual ninguém consegue viver com tranquilidade. O território virou uma mistura de pó e veneno.

Barulho incessante e violação do direito ao descanso

As máquinas não param. Mesmo aos sábados, dias em que a comunidade deveria descansar, o barulho de tratores, britadeiras e caminhões toma conta do território. Não há silêncio, não há sossego, não há paz.

Esse ritmo de obras desrespeita a vida, a saúde mental e os limites humanos.

Risco de acidentes e circulação caótica

Com maquinário pesado circulando a todo instante, vias estreitas interditadas e trabalhadores se misturando com moradores, os Flexais se transformaram em um canteiro de obras perigoso, sem controle de tráfego, sem rotas seguras e com altíssimo potencial de acidentes.

O transporte público não consegue completar sua rota devido às interdições, obrigando trabalhadores e estudantes a caminharem longas distâncias ou a perderem compromissos.

Dignidade ferida: casas sujas e impossibilidade de receber visitas

As famílias relatam que já não conseguem manter suas casas limpas nem receber visitas. A poeira invade tudo: roupa lavada, móveis, comida, água e isso compromete a dignidade doméstica.

O lar, que deveria ser lugar de acolhimento, tornou-se um espaço de incômodo permanente.

O ponto central: a comunidade dos Flexais não quer requalificação. Quer sair

É fundamental registrar uma verdade que precisa ser dita com todas as letras: a comunidade dos Flexais não quer revitalização. Não quer requalificação. Quer realocação.

Todos os estudos independentes — geológicos, geotécnicos e ambientais — apontam o óbvio: os Flexais são uma área de risco, e a permanência das famílias é insegura.

Diante disso, insistir em obras de revitalização é jogar dinheiro público em um território que não oferece garantias de estabilidade e que, mais cedo ou mais tarde, pode enfrentar novos episódios de subsidência e instabilidade do solo.

O que as famílias querem é o direito de sair com dignidade, com indenização justa, com recomposição de suas vidas — longe de um cenário que só traz medo, doenças e sofrimento.

A incoerência da gestão pública

Enquanto os estudos confirmam o risco, a prefeitura realiza obras caras, confusas e mal planejadas, insistindo em “embelezar” um território que deveria estar sendo tratado como zona de atenção, evacuação planejada e reparação integral.

É incoerente, é irresponsável e é cruel

O que está em jogo não é apenas poeira, inseticida ou barulho — trata-se de vidas. Trata-se de saúde, segurança, dignidade e respeito.

A única revitalização aceitável, neste momento, é aquela que revitaliza o direito das pessoas de reconstruírem suas vidas em outro lugar, sem adoecer, sem sofrer e sem serem tratadas como parte de um experimento urbano fadado ao fracasso.

Os Flexais já deram seu recado. Agora é a vez de o poder público ouvir e agir conforme a realidade, e não conforme discursos.

*É da coordenação do Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB).

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *