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Quando a literatura sai à rua

por | 27 jun, 2026

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Por Carlos Vargas*

Os festivais literários vivem um momento de clara expansão e consolidação, tanto em Portugal como no Brasil. Longe de serem apenas encontros para leitores habituais e consolidados, estes eventos têm-se transformado em plataformas culturais de grande escala, capazes de mobilizarem milhares de pessoas, de gerarem impacto económico local, de reforçarem identidades urbanas e regionais, e de influenciarem de forma decisiva o mercado editorial. Em muitos contextos, são hoje um dos principais dispositivos de mediação entre o livro, os autores e o público.

Em Portugal, destacam-se, de forma particularmente evidente, os festivais Correntes d’Escritas, realizado na Póvoa de Varzim, Escritaria, em Penafiel, e Folio, em Óbidos. A estes juntam-se as históricas Feira do Livro de Lisboa e Feira do Livro do Porto, ambas já parte central da vida cultural das duas maiores cidades portuguesas. No Brasil, a dimensão do fenómeno é ainda mais impressionante, com destaque, nomeadamente, para a Flip, em Paraty, a Bienal do Livro de São Paulo, a Bienal do Livro do Rio, a Flipelô, em Salvador, os festivais literários de Minas Gerais (FliMinas, Fliaraxá e Flipoços) e a Feira do Livro de Porto Alegre. Relativamente ao Estado de Alagoas, importa assinalar a Bienal Internacional do Livro de Alagoas, a Flimar, em Marechal Deodoro e a  FliPenedo (Festa Literária de Penedo).

Festa Literária de Marechal Deodoro (AL). Foto: Waldson Costa/G1

O crescimento destes festivais, feiras e bienais resulta da convergência de vários factores. Em primeiro lugar, importa reconhecer que a experiência da leitura se transformou. Ler continua a ser uma prática essencialmente solitária, silenciosa e individual. Porém, os festivais oferecem algo que o acto privado da leitura não proporciona: oferecem uma dimensão social e performativa. O leitor deixa de estar sozinho com o livro e passa a integrar uma comunidade temporária de leitores, de críticos, de editores e, claro está, de escritores. Ocorre, desse modo, uma deslocação do livro enquanto objecto silencioso para o livro enquanto acontecimento.

O escritor como presença pública

Um aspecto em particular ajuda a explicar a popularidade e o sucesso dos festivais: a valorização da presença do(a) autor(a). Vivemos numa época em que a figura pública do(a) escritor(a) adquiriu uma visibilidade inédita. Muitos autores tornaram-se verdadeiras celebridades. Não se procura apenas ler a obra; procura-se ver, ouvir e interagir com quem a escreveu. O festival funciona, assim, como interface entre leitores e escritores, em particular entre leitores e escritores-vedetas. A sessão de autógrafos, a conversa em palco, a entrevista pública ou o debate literário são hoje parte fundamental da experiência cultural associada ao livro.

Brasil e Portugal: geografias literárias em movimento

Este fenómeno é particularmente evidente na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Desde a sua criação, em 2003, a Flip tornou-se uma referência internacional. Instalado no centro histórico de Paraty, o festival combina programação literária de alto nível com uma forte valorização do território. Paraty transforma-se, durante o evento, numa verdadeira cidade literária. Ruas, praças, cafés e livrarias tornam-se extensões do festival. O espaço urbano deixa de ser mero cenário para passar a integrar a própria experiência cultural. Esta é uma característica central destes acontecimentos: os grandes festivais literários são também instrumentos de políticas urbanas.

Festa Literária Internacional de Paraty. Foto: Sara De Santis/Flip 2025.

A Flipelô – Festa Literária Internacional do Pelourinho é um caso igualmente interessante. Realizada no histórico bairro do Pelourinho, em Salvador, distingue-se por articular literatura, património, memória e identidade afro-brasileira. Mais do que um festival de escritores, a Flipelô transformou-se numa celebração da diversidade cultural brasileira e da herança literária baiana, muito associada a Jorge Amado. O que aqui se observa é que os festivais literários podem funcionar como instrumentos de revalorização simbólica de territórios históricos e de afirmação cultural.

Em Portugal, a lógica é semelhante, embora em escalas distintas. As Correntes d’Escritas consolidaram-se como um dos mais prestigiados encontros literários do espaço ibero-americano, reunindo autores de língua portuguesa e espanhola. A sua singularidade reside na aposta no debate intelectual e na conversa entre escritores. Já a Escritaria construiu uma identidade muito própria ao homenagear anualmente um autor vivo, transformando a cidade num grande dispositivo de celebração literária. Por sua vez, o Folio beneficiou de uma estratégia cultural municipal ambiciosa, reforçando o posicionamento de Óbidos como vila literária de carácter internacional.

Lê-se menos – ou lê-se de outra forma?

Mas será este crescimento contraditório com a ideia, hoje amplamente difundida, de que a leitura está em declínio? A resposta exige atenção e cuidado. Os indicadores de leitura em muitos países mostram, de facto, erosão dos hábitos tradicionais, sobretudo entre jovens sujeitos à competição intensa das plataformas digitais, redes sociais e conteúdos audiovisuais (mas vejam-se os dados publicados no passado mês de Março pela Câmara Brasileira do Livro). Contudo, a conclusão simplista de que “ninguém lê” é enganadora. O que está em transformação não é apenas a quantidade de leitura, mas a ecologia cultural da leitura.

Os festivais literários revelam precisamente essa transformação. Mesmo entre públicos que lêem menos livros por ano, persiste – e em certos casos cresce – o interesse pelo universo literário. Muitos participantes de festivais procuram não apenas livros, mas experiências culturais associadas ao livro. A literatura deixa de ser consumida apenas através da leitura integral da obra: passa também a circular por podcasts, vlogs, entrevistas, clubes de leitura, debates públicos e eventos presenciais.

No entanto, importa salientar que os festivais não desmentem totalmente a queda da leitura tradicional. Mas, apesar disso, mostram que a relação social com a literatura continua viva e dinâmica. E, em muitos casos, os festivais funcionam até como mecanismos de estímulo à leitura. Um jovem que vai ouvir um autor pode sentir-se motivado a comprar o livro e a lê-lo posteriormente. Neste sentido, o evento pode converter uma curiosidade inicial numa prática cultural.

Muito para além do mercado editorial

Há ainda uma dimensão económica relevante. Para a indústria livreira, os festivais, as feiras e as bienais são hoje acontecimentos estratégicos. Concentram lançamentos, aumentam vendas, promovem autores emergentes e prolongam a visibilidade editorial. Editoras, livrarias e agentes literários reconhecem o seu valor como espaços de promoção e de circulação simbólica. Num mercado editorial cada vez mais competitivo, e muitas vezes com ambição internacional, a capacidade de gerar atenção é uma ferramenta essencial.

Mas reduzir os festivais à lógica do mercado é manifestamente insuficiente. O seu impacto alarga-se a várias políticas públicas. Na perspectiva das políticas de cidade, os festivais literários contribuem para a consolidação de um eventual branding territorial, do turismo cultural e da dinamização económica. Municípios como Paraty, Salvador, Óbidos ou Póvoa de Varzim beneficiam claramente da associação entre território e identidade cultural. O festival torna-se, então, parte integrante da cidade enquanto marca.

Festa Literária Internacionala do Pelourinho. Foto:www.conder.ba.gov.br/noticia

Nas políticas de juventude e educação, os efeitos são igualmente significativos. Muitos festivais incluem programação escolar, oficinas de escrita, sessões para crianças e encontros com autores para o público infanto-juvenil. Num contexto em que a promoção da leitura é uma preocupação central das políticas educativas, estes eventos culturais criam ambientes mais informais e emocionalmente atractivos para a aproximação ao livro.

No que respeita às políticas culturais, os festivais revelam também uma mudança importante na própria concepção de cultura. Com efeito, a cultura contemporânea valoriza cada vez mais a experiência, a participação e o encontro. Nesse sentido, já não basta disponibilizar conteúdos, é preciso criar contextos de envolvimento. Assim, os festivais literários alinham com uma lógica cultural mais participativa, relacional e experiencial.

O regresso colectivo da palavra

De todas estas dimensões, resulta muito evidente a força contemporânea dos festivais. Num tempo marcado pela aceleração digital, pela fragmentação da atenção e pela saturação de estímulos, a festa literária oferece algo raro e valioso: tempo partilhado em torno das palavras. As pessoas deslocam-se fisicamente para ouvir conversas longas sobre livros, ideias, narrativas e linguagem.

Contudo, não podemos deixar de destacar uma aparente contradição e mesmo ironia: quanto mais digital se torna o mundo, maior parece ser o valor atribuído à presença física e à experiência ao vivo. O sucesso dos festivais literários – de resto como o dos festivais de música, embora muitos destes noutra escala – confirma inequivocamente esta tendência. O livro sobrevive não apenas como objecto, mas também como centro de comunidades temporárias que valorizam a atenção, a escuta e o diálogo.

FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos. www.infatima.pt/

O crescimento dos festivais literários em Portugal e no Brasil parece sugerir algo muito importante e que deve ser tido em consideração por todos nós: talvez a verdadeira questão não seja se as pessoas deixaram ou não de se interessar pela literatura, mas sim, de que forma desejam as pessoas, hoje, relacionar-se com essa forma de cultura. Dito de outra forma, a literatura não desapareceu do espaço público. Pelo contrário, em muitos contextos, regressou sob novas formas – mais performativas, mais urbanas e, por isso mesmo, mais colectivas.

Assim sendo, os festivais literários mostram que o livro continua a possuir uma extraordinária capacidade de mobilização dos cidadãos. Mesmo numa sociedade dominada pela imagem e pela velocidade, continua a existir uma profunda necessidade humana de histórias, de palavras e de imaginação partilhada.

Alguns festivais literários no Brasil

Bienal Internacional do Livro de Alagoas: https://bienal.ufal.br/2025/

Bienal do Livro (Rio de Janeiro): https://bienaldolivro.com.br/

Bienal do Livro (São Paulo): https://www.bienaldolivrosp.com.br/

Feira do Livro de Porto Alegre: https://www.feiradolivropoa.com.br/

Festa Literária de Marechal Deodoro: https://www.instagram.com/flimaroficial/

Festa Literária de Penedo: https://destinopenedo.com.br/flipenedo2025/

Festa Literária Internacional de Paraty: https://flip.org.br/sobre/

Festa Literária Internacional do Pelourinho:  https://flipelo.com.br/home/

Lisboa, 26 de Junho de 2026

*Doutor em Ciência Política

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

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