
Protesto contra a presença de multinacionais e contra os transgênicos levou associações as ruas em Burkina Faso no ano de 2018. | AFP
Em Koubri, a 40 quilômetros de Uagadugu, capital de Burkina Faso, o canto das trabalhadoras marca o início das atividades da Associação Feminina de Watinoma. Ali, cerca de 30 mulheres cultivam dois hectares de forma agroecológica, produzindo alimentos saudáveis que abastecem famílias, escolas e mercados locais.
“Eu produzo cebola, tomate, e na estação de chuvas mudo para o milho e o amendoim”, contou a agricultora Kafando Wendyaoda Brasil de Fato. “Com o que ganho, ajudo meu marido e contribuo para a escolaridade dos filhos. Nós comemos de forma saudável, tenho boa saúde e consigo economizar um pouco para investir”, disse.
A agroecologia é hoje um dos pilares da revolução agrícola em curso no país, parte do projeto político do presidente Ibrahim Traoré, que assumiu em 2022 com o objetivo de romper com o neocolonialismo francês. O governo busca que 30% das áreas agrícolas adotem práticas agroecológicas até 2030, com apoio de organizações camponesas como a Watinoma e a Associação Yelemani, fundada pela ativista Blandine Sankara.
Soulemane Yougbare, diretor técnico do Conselho Nacional da Agricultura Biológica (CNABio), destaca o papel das associações na resistência às multinacionais e aos transgênicos. “Nos anos 2000, vimos a invasão das sementes geneticamente modificadas. A sociedade civil reagiu com mobilizações que fizeram as multinacionais recuarem”, afirmou. “Entre nós, dizemos que são os pequenos camponeses que alimentam Burkina Faso.”
A recuperação do solo é central na experiência de Watinoma, criada em 2004. As agricultoras utilizam compostos naturais, sistemas agroflorestais e biopesticidas feitos com folhas de nim, gengibre, alho e pimenta para proteger as lavouras. O presidente da associação, Ima Hado, reforça o vínculo com as tradições: “Temos amor pela agroecologia, pela terra, pelas árvores e pelos insetos. Adaptamos experiências de outros lugares à nossa realidade.”
A escassez de água é enfrentada com um reservatório de 15 mil litros, abastecido por energia solar, que garante irrigação durante o período seco. “Nossa história é ajudar Koubri e os vilarejos a seguirem o caminho da agroecologia, que era o dos nossos antepassados”, afirmou Hado.
O Sahel, região entre o Saara e as savanas úmidas, enfrenta temperaturas extremas que chegam a 45 °C, agravando a desertificação e a perda de fertilidade dos solos. Segundo Yougbare, “a combinação entre calor, degradação e uso de insumos sintéticos empobreceu os solos e reduziu a produtividade”. Ele alerta que, embora as empresas de algodão tenham recuado, “elas tentam retornar sob outras formas”.
As bases da agroecologia em Burkina Faso remontam ao legado do líder revolucionário Thomas Sankara, que governou o país entre 1983 e 1987. Influenciado pelo ambientalista Pierre Rabhi, Sankara defendia uma agricultura sustentável e autossuficiente. “Antes dele, a política agrícola era voltada à produtividade. Sankara trouxe a visão de devolver a terra a quem produz”, lembra Yougbare.
Após sua morte, o regime de Blaise Compaoré incentivou práticas convencionais e o abandono de tradições como o compartilhamento de sementes crioulas. “Essa agricultura moderna nos foi imposta, mas não se adapta ao nosso contexto”, critica Yougbare.
Para o agricultor e deputado Mark Gansonré, a retomada agroecológica reacende a esperança: “Se essa dinâmica continuar, em cinco anos poderemos ver a luz no fim do túnel. Antes tínhamos baixa produtividade, mas hoje, com as novas políticas e a agroecologia, já é possível perceber uma evolução concreta”, conclui.






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