Por Geraldo de Majella*
A ofensiva política para enfraquecer a Polícia Federal (PF) ganhou força após o avanço das investigações da Operação Carbono Oculto, que revelou o envolvimento de instituições financeiras — especialmente fintechs — em esquemas de lavagem de dinheiro comandados pelo crime organizado.
No centro dessa ofensiva está o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), ex-militar afastado da Rota por excesso de homicídios e relator do Projeto de Lei 5.582/2025, conhecido como “PL Antifacção”. Indicado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, Derrite atua em sintonia com parlamentares e governadores da extrema-direita, em uma tentativa de esvaziar institucionalmente a PF e limitar sua autonomia nas investigações sobre o crime organizado.
A tentativa de reduzir os poderes da PF, segundo analistas, é uma reação direta ao avanço das investigações que atingem setores do mercado financeiro e da política. A ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, afirmou que o texto em debate no Congresso “blinda o crime organizado”. O presidente do PT, Edinho Silva, também reagiu: “Quando esvazia o poder da PF, está fortalecendo o crime organizado e a corrupção.”
O desespero dos seis governadores de extrema-direita decorre do fato de que a PF, ao longo de dois anos, mapeou um sistema que movimenta dezenas de bilhões de reais provenientes do crime organizado. As apurações revelam que esses recursos não se limitam ao tráfico de drogas, mas também circulam no mercado de combustíveis, abrangendo redes de postos, refinarias e navios.
Segundo os investigadores, o “andar de cima” do crime organizado atua dentro da economia formal, utilizando instituições financeiras e empresas de fachada, com apoio de políticos com mandato parlamentar, em sua maioria alinhados ao bolsonarismo.
De acordo com a Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), há 88 organizações criminosas identificadas no sistema prisional brasileiro entre 2022 e 2024. Destas, 72 atuam localmente, 14 regionalmente e 2 em nível nacional ou internacional — o PCC e o Comando Vermelho. A PF constatou ainda infiltrações criminosas nos três poderes da República: Executivo, Legislativo e Judiciário.
O risco institucional se estende para as eleições de 2026, que devem ocorrer sob influência crescente do crime organizado — tanto no financiamento ilegal de campanhas quanto no controle violento de territórios em diversas regiões do país.
O esvaziamento da Polícia Federal, portanto, não é uma disputa menor em Brasília: é uma tentativa de bloquear a atuação do principal órgão de investigação da República, no momento em que o Estado brasileiro começa a expor as ligações entre mercado financeiro, política e crime organizado.
A democracia brasileira está sob pressão direta de grupos empresariais e financeiros que atuam como pontos de lavagem de dinheiro de facções criminosas, e de políticos investigados pela PF, PGR e STF. Parlamentares como Guilherme Derrite se tornaram operadores no Parlamento dos interesses dessas organizações criminosas, ameaçando o funcionamento das instituições e a integridade do processo democrático.
Enfraquecer a Polícia Federal interessa a quem teme ser investigado. É uma estratégia de proteção para políticos, empresários e grupos financeiros ligados ao crime organizado. Limitar a PF significa enfraquecer o Estado e ameaçar a democracia.
*Historiador e jornalista






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