
Foto: Divulgação
Oito anos após o terremoto que revelou o impacto da mineração de sal-gema em Maceió, a Associação do Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB) divulgou nota pública na qual denuncia abandono institucional, ausência de reparação integral e falta de transparência na responsabilização criminal.
Logo na abertura do documento, a entidade afirma: “Hoje, 3 de março de 2026, depois de 8 anos do terremoto que denunciou de modo inequívoco o desastre socioambiental criminoso cometido pela Braskem através de uma exploração desregrada e predatória de sal-gema em Maceió, muitas das nossas instituições que deveriam defender os direitos das vítimas posicionam-se objetivamente ao lado da infratora socioambiental, buscando defender as soluções apresentadas por quem causou o dano e deixando no abandono quem busca a reparação integral e a efetiva satisfação dos prejuízos sofridos.”
Segundo a associação, essas instituições dizem às vítimas: “Agradeça pelo que recebeu… e conforme-se pelo nada que foi pago… se vire, nada podemos fazer, pois de acordo com a infratora, nada podemos fazer!”, concluindo que a mensagem imposta seria: “conforme-se e diga ‘Obrigado por me traíres!’”.
A nota sustenta que “Desde o início da exploração do sal-gema em Maceió foi coberto de falhas, pois houve uma exploração mineral sem qualquer estudo de impacto ambiental, mesmo depois que tal procedimento passou a ser obrigatório, e as instituições responsáveis pela fiscalização da lavra não exerceram qualquer averiguação do modo como a extração da nossa riqueza estava acontecendo e isso piorou muito depois da privatização, quando a lei do lucro máximo para os acionistas passou a ser o dogma sagrado da exploração mineral.”
Exclusão das vítimas e denúncias de coação
O MUVB afirma que, após a identificação das causas do abalo de 3 de março de 2018, ocorreu “uma outra série de violências contra as vítimas, pois elas não foram chamadas para participar do acordo que estava sendo construído pelo MPF/ MPE/DPU/DPE e quando as vítimas pediram para participar no sentido de propor critérios para a avaliação da indenização dos danos devidos tais instituições simplesmente negaram esta participação.”
A entidade acrescenta: “Assim, foi criado um processo de coação para as vítimas, sendo elas verdadeiramente expulsas de suas casas, com um auxílio aluguel insuficiente em que tinham que complementar o valor, para depois se submeter a um processo de monopsônio ambiental em que a infratora pagava o quanto queria, tendo que se conformar com o valor proposto.”
A associação afirma que “Essas violências atingiram diretamente: mais de 60 mil moradores, sem falar dos mais de 140 mil das áreas do entorno; mais de 6 mil negócios formais destruídos, sem falar dos mais de 2 mil negócios informais, e quantos outros negócios do entorno não foram atingidos? E quanto aos estudantes, que devem atingir mais de 7 mil? E o que dizer dos mais de 15 mil trabalhadores?” Para o movimento, “Sem uma matriz de danos das violências praticadas pela Braskem contra suas vítimas o desastre socioambiental criminoso continuará impune!”
Sigilo, áreas em risco e memória apagada
No campo criminal, a nota declara: “No que diz respeito a responsabilização criminal dos responsáveis pelo desastre o que se sabe é que ele continua sem qualquer razão sigiloso, sendo isso uma afronta à sociedade, pois tal segredo de justiça é totalmente indevido, sendo direito da sociedade e das vítimas saber quem cometeu o crime ambiental que prejudicou toda a cidade.” O documento também afirma que a população dos Flexais, em Bebedouro, sofre “contra a sua vontade um processo de revitalização quando estudos internacionais demonstram a sua situação de risco, contestado apenas pelos consultores da Braskem e de seus aliados.”
Acrescenta ainda: “Outra situação vexatória e revoltante é dos moradores da Rua Marquês de Abrantes e do bairro do Bom Parto, que também vivem em situação de risco geológico, mais os poderes públicos simplesmente cumprem o que a Braskem e seus consultores ditam, alegando que está tudo conforme.”
O texto denuncia que “Não podemos silenciar os ataques sofridos por alguns dos que lutam em favor das vítimas que sofreram processos criminais e civis, simplesmente por cobrar efetividade da atuação daqueles que deveriam defender as vítimas da melhor forma possível e assim não agem.”
Questiona também: “E o que falar da memória da cidade que foi apagada com a demolição de todas as casas da área?” E conclui: “Por fim, fica a questão das propriedades das áreas, que deveriam continuar com as vítimas e com o poder público, mas acordos no mínimo irresponsáveis doaram para a Braskem a titularidade da área, para que ela no futuro aufira vultosos lucros!”
Encerrando a nota, a associação retoma a frase do dramaturgo Nelson Rodrigues: “Diante disso será que devemos dizer, como disse o personagem de Nelson Rodrigues: ‘Obrigado por me traíres?’” E finaliza: “As vítimas da Braskem e o povo de Maceió luta para que todas as violências sejam sanadas e que a reparação integral e indenizações justas sejam realizadas!”





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