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Por Carlos Vargas*
A Câmara Brasileira do Livro constitui uma das principais entidades representativas do sector editorial no Brasil, desempenhando um papel central na promoção do livro, da leitura e da cadeia produtiva editorial. Criada com o propósito de fortalecer o mercado livreiro, a instituição congrega editoras, livrarias e profissionais do sector, desenvolvendo ainda iniciativas de grande relevância, como feiras, prémios – entre os quais se destaca o Prémio Jabuti – e estudos de natureza estratégica.
Entre essas iniciativas, assumem particular destaque as pesquisas periódicas que visam compreender o comportamento do consumidor de livros no país. Um exemplo paradigmático é o estudo “Panorama do Consumo de Livros”, divulgado em Março último, com base nos dados relativos ao ano de 2025. Realizado em parceria com a Nielsen BookData, este levantamento tem como principal objectivo mapear hábitos de compra, perfis sociodemográficos e tendências emergentes no mercado editorial brasileiro.
A importância dos estudos sobre hábitos de leitura
Investigações desta natureza desempenham um papel estratégico em múltiplas dimensões. Em primeiro lugar, fornecem dados empíricos fundamentais sobre o comportamento do leitor brasileiro, permitindo não apenas identificar quem lê, mas também compreender como, onde e por que razões o faz.
Adicionalmente, estes estudos exercem um impacto directo sobre o mercado editorial, ao orientar decisões relativas à produção, distribuição e estratégias de marketing. Estes estudos contribuem ainda para a formulação de políticas públicas, ao evidenciarem, por um lado, desigualdades no acesso e no consumo; e, por outro, no que respeita a promoção da leitura, ao identificarem públicos potenciais e barreiras estruturais.
De facto, ao revelarem padrões e tendências, estas pesquisas permitem transformar o livro, frequentemente entendido como um bem cultural abstracto, num objecto de análise inserido na lógica do consumo contemporâneo.

Foto: Carta Capital
Principais resultados da pesquisa
De seguida, destacam-se, de uma forma acessível e sintética mas devidamente fundamentada, quatro das principais tendências identificadas nesta pesquisa:
Crescimento do consumo e expansão do público leitor
Um dos dados mais significativos do estudo é o aumento do número de consumidores de livros no Brasil. Em 2025, 18% da população adulta adquiriu pelo menos um livro, representando um crescimento de 2 pontos percentuais face ao ano anterior, o que corresponde a cerca de 3 milhões de novos leitores. Este crescimento foi também amplamente assinalado pela comunicação social, que sublinha a expansão do público leitor no país.
Perfil do consumidor: entre diversidade e desigualdades
A investigação evidencia transformações relevantes no perfil do leitor brasileiro. As mulheres constituem a maioria dos consumidores de livros, representando 61% do total. Entre estas, as mulheres pretas e pardas correspondem a 30% dos leitores, configurando o maior grupo consumidor, sobretudo na classe C. Por sua vez, os jovens entre os 18 e os 34 anos apresentam a maior taxa de crescimento, sinalizando uma renovação do público leitor. Estes dados apontam para um processo gradual de democratização do acesso ao livro, ainda que marcado por desigualdades estruturais persistentes, de natureza socioeconómica e territorial.

Foto: Crédito Blog Unis
Digitalização e redes sociais como canais centrais
Outro resultado relevante prende-se com o papel crescente das tecnologias digitais. Actualmente, 56% dos consumidores adquirem livros através de redes sociais, sendo plataformas como o WhatsApp (73%) e o Instagram (63%) determinantes na circulação de informação. Além disso, 70% dos leitores acompanham lançamentos editoriais, sobretudo por via de canais digitais. Este cenário evidencia uma crescente intermediação tecnológica no consumo cultural, redefinindo as formas de acesso, recomendação e descoberta de livros.
Persistência do livro impresso e da experiência física
Apesar do avanço da digitalização, o livro impresso mantém uma posição dominante: 80% das compras mais recentes correspondem a exemplares físicos. As livrarias continuam a ser valorizadas enquanto espaços culturais e de sociabilidade, sendo que 53% dos consumidores as encaram como locais de lazer e descoberta.
Contudo, subsistem desafios significativos. Embora 72% da população afirme existir pelo menos uma livraria na sua cidade, a distribuição destes espaços é desigual, sendo frequente a ausência de livrarias em determinados bairros ou regiões.
Analisar para compreender e orientar políticas públicas
A análise do consumo de livros no Brasil revela um sector caracterizado por avanços relevantes, mas ainda condicionado por limitações estruturais. Entre os aspectos positivos, destacam-se o crescimento do público leitor, a diversificação dos perfis e o forte envolvimento digital, que contribui para ampliar o acesso e a visibilidade dos livros. A isto acresce a valorização simbólica do livro e das livrarias enquanto espaços culturais.
Por outro lado, persistem fragilidades importantes. A reduzida penetração do consumo demonstra que a leitura ainda não constitui um hábito plenamente consolidado. As desigualdades de acesso, particularmente em regiões desprovidas de livrarias, e a dependência de canais digitais podem reforçar exclusões já existentes. De considerar ainda a baixa frequência de compra, que compromete a sustentabilidade económica do sector.
Em simultâneo, emergem oportunidades significativas. A expansão do comércio electrónico e das redes sociais, o crescimento entre os públicos mais jovens e a segmentação de nichos de mercado ampliam o potencial de desenvolvimento do sector editorial. As políticas públicas de incentivo à leitura assumem, neste contexto, um papel determinante na promoção do acesso e da inclusão.
Ainda assim, subsistem ameaças concretas, nomeadamente a concorrência com outras formas de entretenimento, as persistentes desigualdades socioeconómicas e o encerramento de livrarias físicas.

Foto: Dreamstime
Um panorama complexo e dinâmico
A pesquisa da Câmara Brasileira do Livro revela um cenário ao mesmo tempo promissor e desigual. O Brasil lê mais – facto inequívoco –, mas ainda enfrenta obstáculos significativos para poder transformar este crescimento num hábito consolidado e amplamente disseminado.
O aumento do número de leitores e a diversificação dos perfis constituem progressos relevantes, embora insuficientes face às desigualdades territoriais, económicas e culturais persistentes. A digitalização amplia o alcance e cria novas formas de acesso, mas não substitui a necessidade de infraestruturas físicas, políticas públicas consistentes e processos contínuos de formação de leitores.
Mais do que um simples diagnóstico, o estudo impõe uma agenda inadiável: converter crescimento em inclusão efectiva. O futuro do livro no Brasil dependerá da capacidade de enfrentar as desigualdades estruturais que condicionam o acesso à leitura, garantindo que o aumento do número de leitores se venha a traduzir não apenas em expansão estatística, mas em práticas regulares, sustentadas e socialmente equitativas. Sem essa transformação, o progresso observado permanecerá limitado e incapaz de consolidar a leitura como um verdadeiro direito cultural universalmente partilhado.
O estudo “Panorama do Consumo de Livros” encontra-se disponível para consulta em https://conteudo.cblservicos.org.br/lp-panorama-do-consumo-de-livros-2025
Lisboa, 6 de Abril de 2026
(*) Doutor em Ciência Política
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa






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