Sem patrocínio, sem verba pública e produzido com cerca de R$ 250 arrecadados em vendas de brigadeiros, o curta-metragem Me desculpa, Nathan saiu das salas da Faetec Adolpho Bloch para ganhar repercussão nacional ao retratar a exaustão da classe trabalhadora brasileira. Exibido no Estação Net Rio, em Botafogo, o filme lotou a sala ao acompanhar a rotina de uma mãe solo atravessada pela escala 6×1.
Dirigido por Kauã Pereira, o curta acompanha Thamires, interpretada pela atriz Isabelle Brum, uma mulher que passa quase toda a semana longe do filho para conseguir sobreviver. Enquanto enfrenta longas jornadas de trabalho e deslocamento, o menino Nathan permanece sob os cuidados da avó.
O impacto da produção ultrapassou rapidamente o ambiente escolar. Segundo o montador e finalizador Matheus Ferreira, a equipe percebeu a dimensão do projeto após os primeiros convites para exibições e a repercussão nas redes sociais. “A identificação das pessoas com a história gera um debate sobre o tema, que por si só já é político”, afirmou.
A precariedade enfrentada pela personagem também marcou os bastidores do filme. Sem orçamento formal, a equipe improvisou em praticamente todas as etapas da produção. “Muitas cenas tiveram que ser adaptadas para que fossem possíveis com os equipamentos que tínhamos”, contou Matheus.
As produtoras Bárbara Callado e Emanuelle Reis relatam que um dos maiores desafios foi viabilizar gravações em espaços públicos e lidar com a falta de equipamentos disponíveis na escola. Inicialmente, o grupo tentou arrecadar recursos vendendo brigadeiros dentro da própria Faetec. “Alguns alunos já faziam isso e decidimos entrar na concorrência”, relembrou Emanuelle. O dinheiro, no entanto, não foi suficiente, obrigando a equipe a buscar outras alternativas para concluir o projeto.
A origem da história também nasce de experiências pessoais. Emanuelle contou que cresceu convivendo com os impactos da escala 6×1 dentro de casa, antes mesmo de compreender o debate político em torno do tema. “A escala 6×1 interferiu muito na minha infância”, disse. A partir dessa memória, o grupo decidiu transformar a exaustão da classe trabalhadora em narrativa cinematográfica.
A dimensão emocional do curta se intensifica na interpretação de Isabelle Brum. Durante as filmagens, a atriz enfrentava uma crise de insônia que durava meses e enxergou na personagem um reflexo do próprio esgotamento físico e mental. “Meu cansaço era minha falta de mim”, afirmou.
Segundo Isabelle, Thamires representa mulheres que seguem vivendo sem tempo para existir. “Ela não tem tempo para ver o filho crescer, não tem tempo para descansar, não tem tempo para si.” Mesmo sem ser mãe, a atriz buscou referências em mulheres negras próximas de sua realidade e destacou que o título do filme carrega a culpa produzida pelas condições de trabalho. “Esse ‘me desculpa’ é quase um ‘me perdoa por eu não ter vida’”, declarou.
Para a atriz, o curta funciona como um “pedido coletivo de socorro” de trabalhadores brasileiros, especialmente mulheres negras e mães solo. “O descanso deveria ser um direito acessível para todas as pessoas, mas não é”, afirmou.
A repercussão de Me desculpa, Nathan também ajudou a ampliar a visibilidade de produções independentes realizadas em cursos técnicos e por jovens periféricos. Para Bárbara Callado, o reconhecimento mostra que projetos feitos fora do circuito tradicional possuem força para alcançar o público. “Isso incentiva outros estudantes a acreditarem mais nas próprias ideias”, disse.
Ao transformar a exaustão cotidiana em cinema, o curta escancara os impactos da precarização do trabalho na vida de milhões de brasileiros e levanta uma pergunta central: quanto custa sobreviver quando já não sobra tempo para viver?
Me desculpa, Nathan” está disponível gratuitamente no YouTube neste link.








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