Apontada nos bastidores da Câmara dos Deputados como o “terror das entidades patronais”, a economista Marilane Teixeira tornou-se uma das principais vozes técnicas na disputa em torno da proposta que prevê o fim da escala 6×1 no Brasil.
Coordenadora de um estudo desenvolvido no Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, ela contesta frontalmente os relatórios apresentados por setores empresariais que associam a redução da jornada a queda do Produto Interno Bruto (PIB), retração econômica e aumento de custos.
Em entrevista ao Intercept Brasil, Teixeira afirma que os estudos patronais ignoram mecanismos reais da economia, como ganhos de produtividade, reorganização das escalas e necessidade de novas contratações. Segundo ela, o debate sobre a redução da jornada não é essencialmente econômico, mas político.
“A ideia era justamente responder aos estudos que estavam circulando, que tratavam da queda do PIB, para mostrar que o problema não é econômico, o problema é político”, afirmou.
Reorganização do trabalho
O estudo coordenado pela economista utilizou a mesma metodologia adotada pelas entidades empresariais, mas chegou a conclusões opostas. O ponto de partida da pesquisa considera que a economia não deixaria de funcionar com a redução da jornada semanal. Para Teixeira, diminuir o tempo de trabalho não significa reduzir consumo, circulação de renda ou atividade econômica.
“Se o PIB se mantém e você reduz o número de horas trabalhadas, o sistema precisa se reorganizar”, explicou.
A análise parte do princípio de que a proposta em discussão prevê redução de jornada sem corte salarial. Nesse cenário, empresas precisariam compensar as horas reduzidas de duas formas: ampliando produtividade ou contratando mais trabalhadores.
Segundo a economista, os impactos variam conforme o setor. Áreas mais intensivas em tecnologia tenderiam a absorver a mudança por meio de inovação, reorganização produtiva e ganhos de eficiência. Já segmentos fortemente dependentes da escala 6×1 — como comércio, supermercados, farmácias, shopping centers e parte do setor de serviços — teriam necessidade direta de ampliar quadros de funcionários para manter o funcionamento contínuo.
“Você precisa reorganizar a escala, substituir quem está descansando, e isso implica contratação”, disse.
No cenário inicial estudado pela equipe da Unicamp, baseado em uma jornada de 36 horas semanais e escala 4×3, a projeção apontava criação entre 4 milhões e 4,5 milhões de postos de trabalho, além de ganhos médios de produtividade de 4,6% nos setores tecnológicos.
Projeções
Com a proposta atualmente em discussão no Congresso — de redução para 40 horas semanais —, o impacto estimado é menor, mas ainda significativo. A projeção atualizada calcula geração entre 600 mil e 700 mil empregos.
Teixeira argumenta que o avanço tecnológico historicamente esteve associado à redução da jornada de trabalho e ao aumento da produtividade. Para ela, a resistência empresarial reproduz um padrão recorrente em momentos de mudança nas relações trabalhistas.
A economista também rebateu declarações feitas por representantes patronais durante audiências públicas na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Ao comentar a fala do presidente da Central Brasileira do Setor de Serviços (Cebrasse), João Diniz, de que trabalhadores não seriam a parte mais fraca da relação por terem “poder político para eleger presidentes”, ela afirmou que as relações entre capital e trabalho permanecem profundamente desiguais.
“As relações entre capital e trabalho são absolutamente assimétricas. Se o trabalhador não se submete, ele é substituído”, declarou, citando ainda os efeitos da reforma trabalhista na ampliação de acordos individualizados e na fragilização da negociação coletiva.
Outro ponto criticado por Teixeira foi o argumento de representantes do agronegócio de que determinados setores não poderiam funcionar sob uma escala 5×2. Durante audiência na CCJ, integrantes da Confederação Nacional da Agricultura afirmaram que “a vaca não sabe o que é feriado” para defender a manutenção das jornadas atuais.
Para a pesquisadora, a crítica parte de uma interpretação equivocada sobre a proposta. Ela argumenta que a adoção de uma jornada legal de 40 horas não significa paralisação de atividades aos fins de semana, mas reorganização de escalas — algo já praticado em diversos setores que operam diariamente, como hotelaria, comércio e serviços.
“A discussão não é sobre parar atividades, mas sobre reorganizar o trabalho”, resumiu.
Qualidade de vida
Apesar das projeções de geração de empregos, Teixeira afirma que o objetivo central da redução da jornada não é econômico. Segundo ela, o foco está na qualidade de vida e na sustentabilidade das relações de trabalho diante de um cenário marcado por adoecimento mental, exaustão, alta rotatividade e dificuldade crescente de retenção de trabalhadores.
“O objetivo é garantir qualidade de vida, bem-estar, permitir que as pessoas possam se dedicar a outras dimensões da vida”, afirmou.
Enquanto a proposta avança no Congresso, empresários e representantes de setores conservadores seguem pressionando por mudanças no texto, ampliação de prazos de transição e flexibilizações. Nos bastidores da Câmara, o embate em torno do fim da escala 6×1 se consolidou como uma das principais disputas entre capital e trabalho no país.







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