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O naufrágio na prateleira

por | 11 ago, 2026

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A gente vive num país onde vender livro é mais difícil do que achar um político que pague o próprio cafezinho. Aí vem a Tamara Klink — que tem cara de heroína de romance russo, mas é velejadora, filha daquele outro Klink que adora passar frio no mar — e consegue o impossível: vira best-seller. O livro dela, “Bom Dia, Inverno”, despenca (ou melhor, sobe) direto para o topo da lista dos mais vendidos.

Qual seria a reação normal de qualquer mortal que escreve nesse país? Soltar fogos, abrir um espumante barato, mandar fazer camiseta e dar entrevista ao Trilha das Letras da TV Brasil dizendo que a literatura nacional está salva.

Mas a Tamara não. A Tamara veio direto do Ártico com aquela cabeça de quem passou meses olhando para gelo e foca. Do meio do mar, ela olhou para o topo da lista de mais vendidos e pensou: “Chega. Parem de comprar esse livro”.

Não é magnífico? Num mundo onde todo mundo quer vender até a alma no Instagram em troca de engajamento, Klink conseguiu fazer um anti-marketing involuntário. O raciocínio dela até que tinha uma lógica meio ecológica, de marinheira de primeira viagem na Terra: “Gente, já tem muito livro circulando. Pega emprestado da tia, do vizinho, lê na biblioteca. Vamos gastar menos papel, salvar as árvores da Groenlândia”.

Pronto. Foi o suficiente para o mundinho literário brasileiro entrar em parafuso coletivo.

Escritores, editores, livreiros e donos de sebo tiraram os punhais da gaveta. “Como assim, garota? Você não pensa na cadeia produtiva? No pobre do livreiro que paga o aluguel com o suor do próprio boleto? No editor que passa o mês contando os centavos do direito autoral?”.

Achei uma graça. O brasileiro finalmente se importa com a cadeia produtiva do livro — mas só para brigar com a moça que mandou parar de comprar.

O que me interessa nessa história toda é essa mania de que todo mundo tem que ter opinião de manual de autoajuda. Se a pessoa escreve um livro, ela tem que se comportar como uma executiva de marketing multinível, sorrindo com um exemplar na mão e repetindo slogans corporativos sobre o “poder transformador da leitura”.

Mas a Tamara não tem culpa de ser quem é. Afinal, estamos falando de uma garota que cresceu ouvindo o pai contar como foi descer o Atlântico a remo ou congelar no horizonte. Para quem já cruzou a Passagem Noroeste em solitário, o mercado editorial brasileiro deve parecer uma tempestade em copo d’água — ou melhor, num copo de plástico descartável que ela faz questão de proibir na mesa do jantar.

O problema é que o mercado editorial não perdoa inocências ecológicas. No Brasil, o livro é tratado como artigo de luxo, mas o autor é cobrado como se fosse funcionário do mês. Quando ela sugeriu que as pessoas passassem o livro adiante como quem empresta uma furadeira para o vizinho, ela tocou numa ferida aberta. O editor brasileiro já sofre tanto para fechar a conta no final do mês que, quando ouve a palavra “economia”, pensa logo em concordata, não em preservação da calota polar.

Fico imaginando a reunião de crise na editora. Os diretores de terno e gravata, vermelhos de raiva, olhando para a tela do computador onde a própria galinha dos ovos de ouro pedia para o público fechar a carteira. “Onde já se viu?”, esbravejava o editor-chefe. “A criatura escreve uma obra-prima sobre o isolamento no Ártico e quer congelar as nossas vendas também?!”.

E a pobre da Tamara, tadinha, debruçada sobre as cartas náuticas dela, achando que o mundo funcionava na base da solidariedade e da partilha comunitária. Esqueceu que aqui na terra firme a gente gosta mesmo é de acumular pilha de livro na cabeceira da cama para fingir para as visitas que a gente lê tudo aquilo.

Dois dias depois, acuada pela patrulha literária e, imagino eu, com o eco de mil editores gritando na sua orelha esquerda, a velejadora teve que se retratar. Veio a público pedir desculpas. Disse que errou, que ama os autores pequenos, grandes e independentes, e que reconhece o valor sagrado de cada livraria de bairro.

Fiquei imaginando a cena. A moça passou o inverno inteirinho sozinha, trancada num veleiro no meio do gelo polar, conversando com focas e gaivotas, sem correr risco nenhum de ser cancelada. Voltou para a civilização, escreveu um livro excelente, e descobre que o gelo mais perigoso do mundo não fica no Ártico: fica nos comentários da internet e na sensibilidade da indústria editorial.

No fim das contas, a retratação dela foi de uma elegância. Reconheceu o erro, pediu desculpas à cadeia produtiva, afagou os sebos e manteve a sua coerência verde. É o triunfo da navegação à vela sobre a burocracia do asfalto. “Bom Dia, Inverno” continuou lá no topo, logo atrás de Kafka e Graciliano Ramos.

Ou seja, a moça conseguiu o que queria e o oposto do que pediu; o brasileiro comprou o livro para ver se achava o trecho onde ela manda economizar papel.

Ela pode até ter pedido desculpas aos editores, mas aposto que, na primeira oportunidade, vai fugir de novo para o meio do mar gelado. E quer saber? Eu apoio. Se eu tivesse que aturar a patrulha da internet brasileira todos os dias, também preferiria passar oito meses trancado com uma foca na Groenlândia.

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