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Aridez Paradoxal do Aquário

por | 29 jun, 2021

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A função de programador musical, em uma rádio onde não existe a ingerência perniciosa do Jabaculê, vai muito além da simples escolha das músicas. Na verdade, é uma função muito interessante, pois permite propor uma estética musical a uma parcela significativa da comunidade. Assim, a cada música que escolho, implicitamente, estou dizendo: – Ei, eu acho esse som legal, gostaria que você ouvisse! Partindo desse princípio e com total liberdade de expressão, tenho no meu horário de programação, a cada bloco musical de 30 minutos, evidenciado a produção musical dos artistas locais, no mínimo, com um deles em cada bloco. Perdoe-me por esse extenso preâmbulo, mas se fez necessário a um melhor entendimento do que vem a seguir.

 

Pois bem, certa vez, resolvi fazer uma experiência um tanto infantil, cujo resultado foi decepcionante e desestimulador, por mais que eu admitisse a possibilidade de acontecer. Cansado de perceber a passividade e permissividade da nossa classe artística (especificamente a musical) e dos alagoanos “boanas”, decidi experimentar na prática uma forma de corroborar a teoria do efeito avestruz, que todos já conhecem. Daí, simplesmente, durante todo o mês de abril de 2008, no meu horário de programação, não programei nenhuma música dos artistas locais. Nenhuma! Absolutamente nada! E olha que estou me referindo ao universo de 57 artistas que, repito, à época, democraticamente, tinham e têm até hoje suas músicas executadas na programação que faço. Na pior das hipóteses, qualquer pessoa poderia supor que ao menos um deles, ou até mesmo alguns ouvintes, telefonaria para saber o que estava acontecendo. Qual o porquê da Educativa FM, de repente, no referido horário, não executar mais as músicas dos artistas locais. Ou então, numa atitude altruísta, em prol da coletividade, algum deles protestar pela exclusão da música alagoana na programação da única emissora que acolhe de braços abertos a nossa produção musical.

 

Não quero ser precipitado, rápido no gatilho, indo direto ao cerne da questão, onde adjetivos tipo passividade, leniência, permissividade, alienação e etc, etc., poderiam ser amplamente usados, para definir tal comportamento coletivo. Não! Antes, prefiro entender através de alguns vieses dessa questão. Todos, lamentáveis, é bem verdade.

 

Um deles, é que ninguém mais ouvia a Educativa, principalmente, no referido horário. Daí, sem audiência, não há questionamentos, e ponto. Outra hipótese, é de que qualquer um dos artistas, ao sintonizar a emissora e não ouvir mais a sua música, nem às músicas dos colegas, simplesmente, poderia ter pensado: foi obra do acaso, não dei sorte, foi o horário…E que se lixe o trabalho dos outros. Já o público ouvinte, este, prefiro deixar fora desse imbróglio. Afinal, não era e acho que jamais será parte tão interessada assim. Além do mais, na programação da Educativa, o artista alagoano, até pela qualidade da música que produz, não é segregado e entra na programação de igual pra igual com os grandes nomes da música brasileira, sem quebra de padrão. Portanto, nem sempre o ouvinte irá saber se é um artista local ou não, que está sendo executado.

 

O fato é que, durante todo aquele mês, não recebemos sequer um telefonema, e nas oportunidades em que estive pessoalmente com vários dos artistas que estão na playlist da Educativa, nenhum deles fez absolutamente qualquer tipo de comentário ou menção ao fato. Se atinaram para o que aconteceu, de tão silentes, coniventes e genuflexos aos fatos contraditórios à própria classe, já não reagiam mais, nem ao menos pela preservação da individualidade.

 

Desde a última vez em que preenchi a ficha de um hotel, não mais me considerei um compositor e sim um “propositor”. Descobri isso em audições e audições das obras daqueles que já fizeram tudo de bom nessa seara. Portanto, meu exercício é de propositor e, como tal, explicitei-o ao questionar nossos artistas, por meio da ausência de suas músicas na minha programação musical, na Rádio Educativa FM. Porém, descobri o que no meu íntimo não pretendia, embora já soubesse: de que adianta ser propositor na aridez paradoxal de um aquário?

(*) Mácleim Carneiro é jornalista, músico e compositor.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

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