Por Geraldo de Majella*
Acabo de ler Samuel Wainer – O homem que estava lá, de Karla Monteiro, biografia de 583 páginas publicada pela Companhia das Letras, em 2020. Resultado de cinco anos de pesquisa, o livro vai além da vida de seu personagem. Ao confrontar as memórias que Wainer construiu de si mesmo com documentos, jornais, correspondências e depoimentos, Karla Monteiro recompõe também um período decisivo do Brasil e as relações entre jornalismo, política, dinheiro e poder.
Wainer foi um jornalista de muitas vidas. Uma das mais reveladoras está em sua relação com Getúlio Vargas. Durante o Estado Novo (1937-1945), esteve na oposição, e sua revista Diretrizes foi perseguida pela censura e fechada. Anos depois, já nos Diários Associados, aproximou-se de Vargas e, em 1949, fez em São Borja a entrevista que recolocaria o ex-presidente no centro da cena política. A partir dali, os dois estreitaram relações, e Wainer se tornou um dos principais jornalistas ligados ao trabalhismo.
A história, porém, não ocorreu exatamente como Wainer contou durante anos. Segundo Karla Monteiro, a entrevista não nasceu de uma decisão repentina do repórter ao sobrevoar São Borja. A viagem já havia sido articulada nos bastidores, e Wainer, enviado para uma reportagem sobre trigo, acabou realizando o encontro. O acaso esteve em sua chegada antes que Vargas recebesse a informação sobre a visita; o mérito jornalístico foi transformar aquela oportunidade em um grande acontecimento político.
A entrevista rompeu o silêncio público de Vargas e revelou sua disposição de voltar à vida política. Wainer percebeu a força que o ex-presidente ainda conservava entre as massas. Dessa percepção nasceu sua maior obra.
Última Hora
Em 1951, fundou, no Rio de Janeiro, a Última Hora. O jornal surgiu em oposição ao cerco que grande parte da imprensa fazia ao governo Vargas e assumiu claramente o trabalhismo e o nacionalismo. Mas Wainer queria mais do que um jornal governista: pretendia criar uma nova maneira de fazer imprensa.
A Última Hora adotou uma linguagem mais direta, títulos fortes, fotografia, cores, charges, esporte e polícia, aproximando-se do público popular urbano. Num cenário em que os principais jornais estavam ligados a grupos das elites econômicas e políticas, Wainer abriu espaço para trabalhadores, sindicatos e reivindicações populares. O trabalhador deixou de ser apenas personagem da notícia e passou a ocupar lugar central na narrativa política. Para Wainer, jornal tinha lado — e o seu estava definido.
A imprensa comunista já havia construído, desde 1945, uma ampla rede partidária. A experiência de Wainer era diferente. Ele transformou uma posição política em um empreendimento jornalístico privado, com identidade editorial própria e alcance de massa. Essa combinação deu à Última Hora um lugar singular na imprensa brasileira.
Em 1952, o jornal ganhou uma edição em São Paulo e, nos anos seguintes, expandiu-se para outras regiões. Formalizada em 1961, a Rede Nacional de Última Hora alcançava diversos estados, com edições regionais em importantes cidades. Mais do que ampliar o número de praças, Wainer construía uma rede nacional articulada por uma mesma concepção editorial.
Para sustentar e ampliar esse projeto, circulava entre políticos, banqueiros e empresários e buscava nesses círculos os recursos necessários ao crescimento da empresa. Sua atuação empresarial estava vinculada à posição política que orientava o jornal. Wainer queria fazer da Última Hora uma empresa forte, capaz de disputar leitores, mercado e influência com os grandes grupos de comunicação.
Ele conhecia o poder por dentro. Transitava entre as elites e, ao mesmo tempo, construía um jornal que disputava com elas a interpretação do Brasil. Era próximo dos poderosos, mas fazia da imprensa um instrumento de disputa política. Por isso, tornou-se alvo dos grandes grupos empresariais e da imprensa tradicional, que viam na Última Hora uma ameaça ao espaço que tradicionalmente controlavam.
Sua rivalidade com Carlos Lacerda tornou essa disputa mais evidente. Lacerda fazia da Tribuna da Imprensa uma trincheira contra Getúlio Vargas e o trabalhismo; Wainer transformava a Última Hora em uma voz de defesa de Vargas e do projeto trabalhista. O confronto ultrapassava a rivalidade pessoal entre dois jornalistas: envolvia concepções diferentes de imprensa, projetos políticos distintos e visões opostas sobre os rumos do país.
A campanha contra Wainer alcançou um de seus momentos mais duros na CPI que investigou seus negócios e os financiamentos da Última Hora. Karla Monteiro mostra que sua condição de outsider da grande imprensa pesava: ele havia entrado num território dominado por grupos tradicionais e criado um jornal que os incomodava política e comercialmente.
Mas Wainer não se resume à Última Hora. Próximo de Juscelino Kubitschek, acompanhou a ascensão e a crise de João Goulart e, em 1964, viveu outra ruptura decisiva. Sua trajetória atravessa quase quatro décadas da política brasileira, marcadas por disputas, golpes e conflitos pelo poder.
Daí a precisão do título escolhido por Karla Monteiro: o homem que estava lá.
Wainer estava lá na volta de Vargas à política, na consolidação do trabalhismo, na construção de uma imprensa popular e nos embates que transformaram os jornais em campo de disputa política. Estava lá também quando a democracia foi rompida pelo golpe de 1964.
Não se limitava a registrar os acontecimentos. Participava deles.
Essa talvez seja a melhor chave para compreender sua trajetória. Wainer reuniu ambição empresarial, posição política e intimidade com o poder. Defendeu Vargas depois de ter sido perseguido pelo regime de Vargas e circulou entre banqueiros, empresários e políticos enquanto construía uma imprensa identificada com os trabalhadores.
Karla Monteiro não procura eliminar essas tensões. Apresenta um homem de seu tempo, com ambições, interesses, alianças, acertos e erros. É essa complexidade que dá força à biografia.
Ao terminar o livro, fica a impressão de que Samuel Wainer foi muito mais do que o fundador da Última Hora. Compreendeu como poucos a relação entre imprensa e política no Brasil e fez do jornal uma empresa e um instrumento de disputa.
Depois do golpe de 1964, a perseguição política atingiu diretamente Samuel Wainer e sua rede de jornais. A Última Hora foi empastelada, seus direitos políticos foram cassados e Wainer foi obrigado a deixar o país. A edição paulista passou para o grupo da Folha de S.Paulo, enquanto a edição carioca seria vendida em 1971. Era o fim da Última Hora como projeto de Samuel Wainer.
Seu jornal tinha lado: o trabalhismo, o nacionalismo e as reivindicações populares.
Sua marca maior talvez esteja nessa escolha: o jornalista não precisa assistir à história da calçada.
Samuel Wainer entrou nela.
E esteve lá.
*Historiador e jornalista










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