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O livro O Mar Salva Mas Afoga, de Alexandre Câmara, não se limita ao gênero da poesia. É uma travessia que mistura literatura, política e afeto num só movimento — uma escrita que se lança como testemunho, manifesto e expurgo.
O autor reivindica a poesia como território de exposição e combate. Seu projeto literário se inscreve nas margens — nos corpos, nas violências, nos silêncios que a história oficial tenta soterrar. Câmara não escreve versos para ornar o mundo, mas para rasgá-lo. E para reconstituí-lo, pedra por pedra, palavra por palavra.
Há, em cada poema, a recusa deliberada do lirismo domesticado. Em vez disso, ele opera com a palavra como lâmina, denúncia, confissão e trégua. A herança beat e a radicalidade niilista comparecem como referências assumidas, não por fetiche estético, mas como gesto de filiação ética. Sua poesia emerge da borda — da pele, da margem, da beira — como grito que não aceita a domesticação da linguagem.
Ao tratar de Maceió, o livro também desmonta a cidade-cartão-postal. A capital alagoana surge nos versos como alegoria de resistências: território dos caetés, das comunidades negras, das quebradas urbanas. A cidade turística é desfeita em favor de outra Maceió — a que pulsa nas ausências, nas memórias apagadas, nos becos onde existir já é insurgência.
Espaços como a Avenida da Paz, o Pontal da Barra ou o antigo Gogó da Ema ganham nova carga simbólica: não como postais nostálgicos, mas como locais de disputa. Câmara desnaturaliza o passado e recusa as imagens coloniais. Seu verso desenterra raízes, denuncia apagamentos, reaviva conflitos.
Há ainda a dimensão do amor, mas não idealizado ou edulcorado. Em poemas como “O último verão”, o sentimento aparece sem disfarces: com febre, com dor, com memória. Um amor vivido na pele da maturidade, onde o tempo já removeu as ilusões mas não a potência de afeto. Não há cinismo, apenas a verdade de quem aceita amar sem máscaras.
Mas é no campo político que O Mar Salva Mas Afoga mostra seu nervo mais exposto. Câmara assume a posição do poeta militante, sem panfleto, mas com projeto. Ele propõe uma nova imaginação social, em que a poesia não apenas denuncia o mundo — mas o propõe de outro modo. Uma poesia que sonha alianças entre saberes populares e acadêmicos, entre quilombos e universidades, entre afeto e economia.
No poema “O chamado às esquerdas”, essa proposta se adensa. O texto se oferece como pauta concreta, não simbólica: é um chamamento à ação, uma exigência de compromissos reais para enfrentar o mundo governado por algoritmos e extração de dados. O poeta quer o verso como arma e construção: não para acalmar, mas para inflamar.
Mais do que livro de poemas, O Mar Salva Mas Afoga é ato estético-político. Um campo de batalha onde o passado é recontado, o presente desafiado e o futuro imaginado com coragem.
Este não é um livro para quem busca conforto. É um livro que inquieta — e convida a virar a mesa.
Serviço
Livro: O Mar Salva Mas Afoga
Autor: Alexandre Câmara
Gênero: Poesia contemporânea / Manifesto político-poético
Lançamento: 17 de julho de 2025 (quinta-feira), às 15h
Local: Hall do Museu Palácio Floriano Peixoto (Centro, Maceió)
Contato para imprensa: (82) 99920-4342





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