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Ancestralidade moderna

por | 10 maio, 2026

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Nos dias atuais, sobretudo na seara da música, onde a grande maioria das “novidades” são apenas personalísticas e raramente pelo viés musical, quando temos a oportunidade de um verdadeiro sopro de inovação, que envolve conceito, forma e músicos talentosos por excelência, há que se pensar que a humanidade ainda não está totalmente perdida, e que a arte apolínea é e ainda será capaz de nos redimir, apesar dos abismos e retrocessos observados ao redor do mundo, pela ascensão de personagens que colocam a humanidade e o planeta em xeque-mate, com o que há de pior na espécie humana.

O fato é que o excelente álbum ‘Duo Rádio’ reúne dois grandes e habilidosos músicos brasileiros e seus respectivos instrumentos, trombone e contrabaixo, numa formação pouco usual e incomum até mesmo para os que são afeitos a sonoridades e expressões musicais sublimes. Como se não bastasse o inusitado, o contrabaixista baiano, radicado na Suécia desde 2015, Rubem Farias e o trombonista paulistano Jorginho Neto, de formação acadêmica pela Souza Lima, partiram de um conceito admirável e altamente necessário aos dias hodiernos, trazendo à luz e à cena da música instrumental brasileira um passado memorável: a era de ouro do rádio.

Releituras Surpreendentes

Essa ideia muitíssimo oportuna, foi elaborada pelos dois músicos de maneira preciosa e minuciosa, ofertando-nos um repertório impecável, que contempla intérpretes como Carlos Galhardo (Fascinação), passando por Noel Rosa (Feitio de Oração) até chegar à mestra pioneira Chiquinha Gonzaga (Lua Branca). Tudo, em releituras surpreendentes, não apenas pela textura sonora da irmandade entre dois instrumentos de famílias diferentes, mas que atuam em tessituras e regiões bastante próximas e são discípulos da clave de fá, mas, sobretudo, pela simbiose magnética e expertise de dois músicos extraordinários!

Apenas a título de esclarecimento, aos que por acaso ainda não conhecem os protagonistas dessa bela história, o trombonista Jorginho Neto tem se destacado na cena instrumental brasileira e já lançou dois álbuns: ‘Samba Jazz’ e ‘Leste’, que reafirmam o seu lado compositor. Também ganhou diversos concursos como solista e foi apadrinhado pelo grande e saudoso Raul de Souza, além de integrar a Jazz Sinfônica e a Nelson Ayres Big Band. Já o baiano Rubem Farias é baixista, arranjador, compositor e multi-instrumentista, atualmente, mora em Estocolmo. Rubem trabalhou e realizou projetos com inúmeros artistas brasileiros e internacionais. A lista é extensa e vai de Flávio Venturini e Filó Machado, passando por Mike Stern, Gilberto Gil e Nelson Faria, entre outros.

Cartão de Visitas

O lançamento, pela Brasil Nativo Multiproduções, do álbum ‘Duo Rádio’, amplia assaz a importância desses dois músicos brasileiros, muito além de uma simples e rápida apresentação de suas carreiras. É com ‘Fascinação’ (Dante Pilade e Maurice de Féraudy), originalmente uma canção francesa, que, literalmente, o fascínio começa a dar suas cartas, logo no começo da audição desse importante trabalho. E, claro, ambos os músicos mostram a que vieram, numa introdução com uma pitadinha da melodia e muita fantasia onírica, para que depois a melodia fique a cargo do trombone e a harmonia por conta do contrabaixo, até chegar a hora dos improvisos criativos e até mesmo irreverentes, em comparação à formalidade dantes conhecida dessa valsa. É, portanto, um belíssimo cartão de visitas!

Na sequência, o samba ‘Baixa do Sapateiro’ (Ary Barroso) promove um diálogo prá lá de interessante e divertido, entre trombone e contrabaixo, que nos remete direto aos requebros e balangandans de sua intérprete primeira, Carmem Miranda. Em seguida, como a lembrar que os opostos em algum momento têm pontos convergentes, ‘Hino Ao Amor’ (Édith Piafi e Marguerite Monnot) tem na introdução o contrabaixo esclarecendo que o ternário 6/8 é um brinquedo para poucos. Aliás, nos faz supor que Piafi jamais imaginaria que sua canção, dedicada ao grande amor da sua vida, o pugilista Marcel Cerdan, teria tanto footwork e jogo de cintura, como nessa versão irreverente e deliciosa. O marco da música romântica dos anos 1950, ‘Nem Eu’ (Dorival Caymmi), tem aqui uma versão com todo peso do romantismo e dolência de Dorival e, logo na introdução, em uníssono, os dois instrumentos se irmanam na declaração de que o belo está na singeleza, sem floreios desnecessários. Um soberbo momento desse admirável trabalho!

Quente e Valvulado

Daí por diante, não há mais volta, a viagem pela ancestralidade moderna já está consolidada e ‘Feitio de Oração’ (Noel Rosa) se encarrega de mostrar toda inteligência harmônica e o solo de contrabaixo, de fato, tem um feitio de oração. ‘Jura’ (Sinhô) segue o fio da meada até que ‘Lábios Que Beijei’ (Leonel Azevedo), que abre com um sampler do que seria sua gravação original, remete-nos direto a Orlando Silva e à sonoridade dos anos 1930. Uma boa sacada para imersão definitiva naquela atmosfera musical tão rica e saudosa, até para mim, que não alcancei essa época. Como a nos dizer que tudo pode ser ainda mais intenso e belo, Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran) recebe um tratamento absolutamente diferente do samba-canção original, numa espécie de célula rítmica do contrabaixo, que provoca polirritmia com a melodia executada pelo trombone. Uma bela versão para esse clássico regravado aos borbotões.  Recuaremos no tempo (1912), num paradoxo à modernidade e criatividade do arranjo para ‘Lua Branca’ (Chiquinha Gonzaga). Sem dúvida, um ponto fora da curva e borbulhante de ideias criativas e solos inspiradíssimos. É a penúltima faixa do álbum a nos dizer: você chegou até aqui, pois vai sair sem fôlego! ‘Bossa Eterna’ (Raul de Souza) é a décima e última faixa do álbum e é, também, uma bela e justíssima homenagem ao saudoso ícone do trombone brasileiro, Raul de Souza.

Assim, dois músicos incríveis e seus instrumentos aparentemente díspares, põe-nos em comunhão com um período de ouro, onde o rádio, esse veículo lúdico, interativo e insuperável, era capaz de proporcionar régua e compasso ao encantamento e transcendência. O álbum ‘Duo Rádio’, é um belíssimo legado, quente e valvulado, que os talentosos músicos Jorginho Neto e Rubem Farias generosamente ofertam a todos nós e em especial à música instrumental brasileira.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Pulo do Gato:Eu fico sem dormir, mas sem pegar no baixo, não!” (Rubem Farias)

“Na periferia também tem como se fazer música de qualidade.” (Jorginho Neto)

Ouça, aqui: https://music.youtube.com/search?q=album+Duo+Rádio+jorginho+Neto+e+Rubem

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