domingo, 10 maio 2026
Névoa
Maceió
25°C
Névoa
Névoa
Maceió
25°C
Névoa

Por que ficamos irritados ao sentir fome? Estudo investiga

por | 10 maio, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

A ciência avança na explicação de um comportamento comum: a irritabilidade que surge quando estamos com o estômago vazio. O fenômeno — conhecido em inglês como “hangry”, fusão das palavras “hungry”, faminto, e “angry”, bravo — é mais complexo do que parece. Um estudo publicado em fevereiro na revista The Lancet mostra que essa é uma resposta biológica que depende da consciência de que se está com fome.

A investigação buscou entender se as variações de humor são causadas diretamente pelos níveis de glicose ou pela percepção subjetiva desse estado. Os resultados indicam que a glicose influencia as emoções de forma indireta, tendo o sentimento de fome como mediador. Na prática, sem perceber que está com fome, a queda da glicemia tem pouco impacto sobre o humor.

“Em adultos, o estado de hangry é melhor explicado pela percepção consciente da fome, o que nos ajuda a contextualizar melhor as conhecidas crises de irritabilidade em crianças pequenas”, explica o neurocientista Nils Kroemer, autor correspondente do artigo, à Agência Einstein. Segundo ele, aprender a atribuir a irritabilidade a um sinal metabólico é uma ferramenta de regulação emocional que aprimoramos conforme crescemos.

No entanto, por se tratar de um estudo observacional com adultos saudáveis, as hipóteses ainda precisam ser validadas em grupos maiores e em pacientes que convivem com doenças como obesidade ou transtornos alimentares.

“Dentro de todas as limitações esperadas para este desenho do estudo, esta prova de conceito é interessante para gerar as hipóteses das perguntas a seguir e que, para serem respondidas, precisam ser validadas em estudos com maior número de pacientes afetados com as doenças de interesse”, analisa a endocrinologista Cynthia Valerio, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Consciência corporal

O estudo introduz um conceito central para a saúde mental: a “interocepção”, capacidade do sistema nervoso de sentir e interpretar sinais internos do organismo. A pesquisa demonstrou que pessoas com maior precisão interoceptiva — ou seja, que “escutam” melhor o próprio corpo — apresentam menor oscilação emocional.

Essa consciência corporal atua como um mecanismo de controle e proteção. “Se entendemos que uma piora em nosso humor é motivada pela fome, podemos simplesmente comer algo e o humor melhorará”, diz Kroemer.

O risco surge quando há desconexão entre corpo e percepção. Nesse caso, o cérebro pode atribuir o mal-estar a fatores externos, gerando conflitos interpessoais ou angústia sem motivo aparente.

“O que esse estudo confirmou é algo que a prática clínica já sinalizava há tempos: a fome não é só um número na glicemia. Ela é uma experiência construída pelo cérebro a partir de vários sinais ao mesmo tempo”, resume o médico nutrólogo Diogo Toledo, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Segundo ele, algumas estratégias ajudam a melhorar essa percepção corporal. Uma delas é diferenciar os tipos de fome. “Fome física surge aos poucos e aceita qualquer alimento. Fome emocional aparece do nada e quase sempre exige algo muito palatável, um doce, um salgadinho, algo que traga conforto imediato”, explica.

Outras ferramentas incluem diário alimentar, atenção plena durante as refeições, comer sem telas, mastigar devagar e observar os sinais de saciedade. “São exercícios simples que, feitos com regularidade, melhoram a forma como o cérebro interpreta os sinais metabólicos”, destaca Toledo.

A pesquisa também identificou que pessoas com sobrepeso ou obesidade tendem a apresentar menor precisão interoceptiva. “O paciente com obesidade frequentemente não sabe dizer se está com fome ou não. Come porque é hora de comer, porque o alimento está na frente, porque os outros estão comendo. Os sinais internos foram ficando cada vez mais difíceis de ouvir”, detalha o nutrólogo.

Segundo ele, essa desconexão está ligada ao excesso de gordura visceral, que interfere nos mecanismos cerebrais de regulação do apetite e da saciedade. “Reverter esse quadro é possível, mas leva tempo e requer uma abordagem além da prescrição alimentar”, reforça.

O estudo também apontou que a relação entre estado metabólico e humor é mais intensa entre as mulheres, devido às oscilações hormonais ao longo do ciclo menstrual.

Controle sua fome

Para evitar que a fome evolua para irritabilidade ou episódios de compulsão alimentar, especialistas recomendam estratégias voltadas à estabilidade glicêmica:

  • Evitar consumir carboidratos isolados, combinando-os com proteínas, fibras e gorduras boas;
  • Incluir fontes proteicas como ovos, carnes, leguminosas e laticínios naturais;
  • Observar sinais sutis de fome, como irritação, dificuldade de concentração e cansaço repentino;
  • Apostar em alimentos ricos em fibras e gorduras saudáveis, como aveia, chia, abacate e azeite.

Fonte: Agência Einstein

0 comentários