Insólito comum
Houve um tempo no qual uma crítica assinada por críticos como Mauro Dias, Carlos Calado, Luiz Antonio Giron ou Tárik de Souza, era capaz de abater ou içar um disco e provocar reações sentimentais nos respectivos artistas, para o bem ou para o mal. Claro, refiro-me a uma época em que as pessoas ainda liam e interagiam com o algo que não fosse uma tela touch screen ou Tik Toks da vida. Quero dizer com isso, que os tempos são outros e, portanto, tenho absoluta consciência da pouca utilidade do meu trabalho para a coluna Depois do Play, por exemplo. Porém, não dou a mínima! Para mim, o exercício da escrita é uma tarefa prazerosa, que realizo com o maior deleite e, em primeiro plano, para meu aprendizado.
A partir dessa premissa, entendo e adoto o que pensava o célebre crítico literário canadense, Northrop Frye: “A função da crítica é entender o papel da imaginação criativa na sociedade, enxergar o que ela faz e o porquê da sociedade não conseguir existir sem ela”. Portanto, ao particularizar o pensamento do saudoso crítico e ajustar o foco, facilmente chego ao álbum ‘Comum’, mais recente lançamento do compositor paulista Osmar Ricardo Lazarini ou puramente Sonekka, que já pode ser encontrado nas plataformas digitais, desde o dia 15 do mês passado.
Título Insólito
Entendo que música pode e deve ser a expressão espiritual do que o artista é, do conhecimento sobre o seu próprio ser, do que pensa, da sua fé ou crença. A música do Sonekka traduz bem essas possibilidades, não há como dissociá-la da persona. Ouvi-la transporta-nos para o humor crítico de suas intervenções inteligentes e perspicazes, no grupo do WhatsApp que tenho a honra de frequentar. Porém, a primeira vez que tomei ciência da música do Sonekka foi por meio do álbum ‘Agridoce’, lançado em 2008. Desde então, sua música faz parte do meu horário de programação musical na rádio Educativa FM, com absoluto prazer em socializá-la com os nossos 14 ouvintes. ‘Comum’ é o seu oitavo e mais recente álbum, de uma trajetória fonográfica, que começou com o álbum ‘Incríveis Amores’, lançado em 2003.
Não vejo como abrir mão de escrever o que pode parecer um clichê, mas, enfim, é o que é: o álbum ‘Comum’, de comum não tem nada! Se observarmos o título apenas como adjetivo de dois gêneros, ou até mesmo como substantivo masculino, o meu ponto de vista estará plenamente justificado. Agora, se ‘Comum’ for relativo ou pertencente a dois ou mais seres ou coisas, aí já faz bastante sentido esse título insólito. Simplesmente, porque a sua audição provoca cumplicidades entre fruidor e obra.
Convenções Certeiras
Não é incomum a faixa que dá título ao álbum abrir os trabalhos no topo do setlist. De tal modo, ‘Comum’ (Sonekka) dá o pontapé inicial e traz a participação de Zeca Baleiro, literalmente abrindo os trabalhos e provocando a sensação de que ele é onipresente em tudo que é projeto bom, ultimamente. Na coda, acontece um diálogo interessante entre as cordas e a guitarra de Nando Lee, com espaço para o vocalise do Baleiro. Josivan Mangoth assina o arranjo e as programações dessa faixa e da metade do álbum. A outra metade é assinada por Sonekka.
Em mais um arranjo de Josivan Mangoth, ‘Blues da Ansiedade’ (Sonekka, Zé Edu e Rica Soares) dá sequência ao repertório e usa todos os argumentos de um blues tradicional, além do arranjo esbanjar convenções certeiras. Sonekka interpreta esse blues de maneira bem coloquial, como se estivesse falando ao pé do ouvido da Baby blues. Aliás, a forma peculiar e bastante singular com a qual Sonekka interpreta suas canções, ratifica, em mim, a percepção de que ninguém melhor do que os próprios compositores, para dar vida e alma às suas canções! Para manter um tantinho mais o clima night blues, ‘Verdade dos Fatos’ (Sonekka e Glauco Luz) é um blues-balada, bastante fiel ao modus blues do compositor. Ressalte-se o solo de guitarra que, aqui, solta as amarras sem qualquer cerimônia ou economia.
Altas Tessituras
‘Realidade Virtual’ (Sonekka e Glauco Luz) traz uma bem-humorada crítica, ou talvez louvor, à tecnologia hegemônica e, certamente, invasiva. Daí versos como “todo cicerone diz que em gravatá / Já tem sampler de trombone e de pistão”, dão lastro a um trombone sampleado em contracanto. Bacana é o andamento, algo noturno paulistano, tipo um automóvel em velocidade, varando luzes noite a dentro. As coisas dão uma acalmada em ‘Não Me Leve Pra Kiev’ (Sonekka e Cliff Vilar), que me fez pensar: por que não foi essa a canção escolhida para a participação do Zeca Baleiro? Remeteu-me, de imediato, a algum hit dele, mas seria óbvio demais. ‘Cena Paulista’ (Sonekka e Cliff Vilar) tem começo minimalista, só piano e cordas, e bem que poderia ser toda assim, pois cria uma bela e aconchegante atmosfera, que se desfaz exatamente quando não se espera ou se deseja nada além disso.
Chegamos à beira da linha de despedida desse álbum agradabilíssimo, quando uma espécie de marcha rancho futurista acontece, trazendo a cereja do bolo. Assim é ‘Caldo de Cultura’ (Sonekka e Glauco Luz), uma mistura envolvente de ritmo, melodia e letra, perfeitas e irmanadas entre si. Some-se a todas essas qualidades, a interpretação e participação vibrante, em altas tessituras, de Renata Pizi, em sintonia com os voos alpinos da interpretação do Sonekka! ‘Big Bem’ (Sonekka) soa para anunciar o final dos trabalhos, como uma roda de ciranda dengosa e preguiçosa, deixando pegadas de saudades e levantando a poeira nostálgica de um gostinho de quero mais. O que é absolutamente comum, a esse belo e singular trabalho!
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
SERVIÇO
Comum, Sonekka
Plataformas digitais: Spotify, Apple Music, Deezer, Tidal, Amazon Music e Youtube Music








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