Por Klinger Silva*
Alagoas, e em particular Maceió, possui um símbolo de liberdade que desde o início do século XX constitui um importante patrimônio, repleto de histórias e ricas dimensões culturais. Um bem patrimonial de valor inestimável. Confluência de significados e representações locais e de além-mar. Destaque de nossa tradição cultural, histórica e social. A Estátua da Liberdade.
Hoje, localizada no bairro de Jaraguá em Maceió, possui o “status” de Patrimônio Histórico Cultural. Bem como, todo o espaço urbano envolvente, com seus prédios, suas áreas verdes e monumentos. Este conjunto patrimonial, do qual a importante escultura faz parte, foi tombado, em sua totalidade, pelo Estado de Alagoas, através do Decreto nº 6.061 de 19 de novembro de 1984.
A Estátua da Liberdade de Alagoas, de certo sotaque francês, à semelhança de sua congênere novaiorquina, cruzou o Atlântico e chegou à América. Uma ao Sul, outra ao Norte, em séculos diferentes. A primeira aportou, nesta região particular, abaixo da linha do equador em 1904. Dezoito anos depois da chegada e inauguração de sua coirmã do Norte em 1886.
Memória
Este valioso Patrimônio dos alagoanos, como se sabe, é originário da França. Segundo afirmam os registros históricos, a iniciativa original de aquisição desta réplica da Estátua da Liberdade para Maceió se deveria ao artista plástico Rosalvo-Ribeiro (1865-1915). De fato, a proposta, ao ser encampada pelo poder público municipal teria como justificativa o embelezamento da cidade de Maceió dentro de um processo de reforma urbana. “Libertas”, como também pode ser referida, trouxe consigo, algumas companheiras nessa jornada histórica; outras esculturas também estruturadas em bronze: um javali, um lobo, um leão e um tigre. Este último, o povo rebatizou. Até hoje todos sabem onde fica a Praça Dois Leões.
O projeto original da Estátua foi concebido pelo escultor Fréderic Auguste Bartholdi (1834-1904), pelo engenheiro Alexandre Gustave Eiffel (1832-1927) diante da sugestão preliminar do jurista, escritor e abolicionista Edouard Lefebvre de Laboulay (1811-1883). O objetivo destes, seria elaborar e enviar um presente do povo francês ao povo americano. No quadro da comemoração dos cem anos da independência dos Estados Unidos e da defesa do contributo americano, em termos constitucionais, para as democracias em fase de transição em todo o mundo e, ainda, homenagear a finalização da abolição da escravatura na América do Norte.
Além da escultura americana, foram concebidas mais três réplica por Bartholdi. Uma se localiza na Ilha dos Cisnes, outra no Museu D’Orsay (ambas em Paris). E a última, mora em Jaraguá. A nossa, assemelha-se àquela do museu parisiense. A de Nova York assemelha-se àquela da referida ilha de Paris, nas duas situações a estatura e o material constitutivo das deidades romanas em questão são parecidos.
Valor simbólico
Todo patrimônio material e imaterial incorpora uma síntese cultural, social e histórica. Com nossa “Libertas” (Deusa Romana da Liberdade) não poderia ser diferente. De fato, tal sincretismo simbólico materializado na mesma e esculturas análogas feitas pelo escultor francês, como também se observa regularmente em diferentes bens patrimoniais, possuiriam certa estabilidade-dinâmica em seus conteúdos, expressões e interpretações. Compreendendo-se, assim, que quaisquer bens patrimoniais, independentemente de sua forma, origem ou conteúdo simbólico, a um só tempo se conservam e, também, atualizam-se, em termos de seus elementos materiais e imateriais, de maneira dialética e dialógica, em meio as contínuas transformações estruturais e superestruturais da sociedade.
Percebe-se, que a ideia para produção dessas imagens de liberdade e democracia, em grande medida, alinha-se a certas cosmovisões filosóficas, políticas e culturais eurocêntricas muito comuns à sua época, entre os finais do século XIX e os inícios do século XX; das quais o ocidente em particular, e o resto do mundo seriam devedores diretos e indiretos. Por outro lado, poderíamos questionar em que proporção a representação simbólica encarnada pela estátua aqui em discussão, efetivamente, operacionalizou-se e se operacionaliza naquilo que foi a sua promessa-ideal originária e naquilo que nós alagoanos compreendemos, de fato, nos dias de hoje como emancipação, independência, liberdade de expressão, livre-arbítrio, autonomia e, não menos importante, a soberania. Tudo isso traduzido como valores democráticos essenciais.
Em 121 anos de residência em Maceió, a nossa estátua da liberdade visitou vários sítios da cidade. Durante todo esse tempo de caminhada, em que medida, a mesma, foi notada em sua passagem por vários logradouros públicos de Maceió? Em cada provável olhar a ela dirigido, foi possível realizar-se algum tipo de reflexão-crítica individual e/ou coletiva sobre o ser livre na vida pessoal ou social, Pensamento este, corroborado pelo imaginário do povo alagoano, reflexo de seu singular e onipresente inconsciente-coletivo? Teria a universalidade de direitos simbolizada pela “Libertas-Franco-Alagoana”, sido de algum modo, compreendida, assimilada e reivindicada pelos diversos atores sociais, como um importante fundamento subjetivo para objetivas e factíveis ações-estratégicas-emancipatórias?
Percebe-se, por outro lado, que, diante da imensa complexidade cultural da sociedade brasileira e também alagoana, no sentido do imenso pluralismo e hibridização em termos socioculturais, a dimensão democrática, simbolizada pela escultura de Jaraguá, poderia ser um importante fator mitigador de potenciais tensões e conflitos desnecessários e dispersadores daquelas energias fundamentais às essenciais disrupturas socio-estruturais, dirigidas, em primeiro lugar, ao atendimento das demandas consideradas urgentes por setores sociais marcadamente precarizados e segregados. E, em segundo lugar, atender à sociedade em geral. Nestes termos, poderíamos perguntar: a “Libertas-Franco-Alagoana” contribuiu e contribui ainda, simbolicamente, exercendo uma função social verificável enquanto patrimônio?
Contextos e Narrativas
Entende-se, conforme o exposto acima, que um bem patrimonial é portador de múltiplos sentidos e significados. Promotores de interpretações e narrativas, por vezes, conflitantes. Como acontece em relação à nossa pequena “Libertas” de Jaraguá e suas inúmeras coirmãs espalhadas pelo mundo. Acresce-se a isto, o fato de que, mesmo em nossa cidade, passou a existir uma réplica, representante cultural inegável da era contemporânea. Provavelmente, sem aqueles valores concebidos por Bartholdi em suas esculturas da “Liberdade” espalhadas pelo mundo.
Aqui há, dois possíveis conteúdos simbólicos divergentes e contraditórias, expressos por uma mesma imagem escultural. A imagem da deusa Libertas. Esta imagem se encontra, a um só tempo, em Jaraguá e, também no bairro do Farol. Entre uma e outra, pequenas diferenças perceptíveis de cor, material e dimensão. O que, de fato, em termos de percepção geral, seriam duas versões perfeitas de um mesmo conceito de estátua da liberdade. O que, de maneira equívoca, poderia levar a conclusões iguais a partir de significantes similares com significados complemente divergentes, relacionados a cada estátua. Tal percepção superficial estaria muito distante daquilo que ao primeiro olhar não se descortina.
De fato, de acordo com a mitologia do antigo império romano, a Deusa Libertas não teria relação direta com o comércio e a riqueza. E sim, com aqueles valores universais acima referidos. O Deus romano relacionado ao mercado e ao poder econômico correlato, como se sabe, é Mercúrio. Com suas múltiplas e conhecidas características.
Segundo esta ordem de ideias, pode-se discutir se não seria a escultura do Farol uma espécie, salvo engano, de “anti-Libertas”? Visto que, a Deusa romana da liberdade, em grande medida, não representaria completa e essencialmente relações mercantis. E que, neste sentido, o Deus Mercúrio, concretizado em estátua, não simbolizaria de forma mais verdadeira as intenções políticas-econômicas daqueles que conceberam àquela dita estátua da liberdade? E a mesma comportaria, de fato, valores patrimoniais, à semelhança daquela localizada no bairro de Jaraguá?
Acredita-se, que a melhor maneira de se conhecer, de forma aproximativa e mais assertiva, a essência de discursos e representações simbólicas, tão característicos dos bens e valores patrimoniais, se faz necessário o constante e contínuo exercício de se olhar para além das aparência; cultivar-se o hábito de examinar práticas, perceber-se as diversas narrativas em suas entrelinhas; desconfiar-se de formas generalizantes e simplificadoras explicativas de realidades complexas, traduzidas em textos e contextos; que representam tão bem o patrimônio histórico e cultural. Reflitamos!
Este artigo constitui em uma singela homenagem à amizade franco-alagoana no quadro das comemorações do ano do Brasil na França e do necessário reconhecimento da luta daqueles que defendem, verdadeiramente, a preservação, o reconhecimento e a democratização do aceso, em palavras e atos concretos, o Patrimônio Histórico e Cultural de Alagoas.
“Liberdade vai na poesia…!”
*trecho da canção “Liberdade’: LP Djavan Lilás, 1984.
(*) Mestre em Patrimônio -FCSH- Universidade Nova de Lisboa








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