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Muito além dos Grooves

por | 1 mar, 2026

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Divulgação

Por Mácleim Carneiro*

Depois de ter vivido um carnaval contemplativo, ao lado de familiares queridos, onde pude exercer a habilidade de escapar da hipocrisia política e jornalística de setores conservadores da camada privilegiada da pirâmide social brasileira, estou de volta à labuta na Depois do Play e tenho o enorme prazer em reiniciar minhas atividades trazendo, para os nossos 14 leitores, um belíssimo álbum de um dos gêneros musicais da minha preferência: música instrumental brasileira.

Homenagens’ é o título do álbum em questão e é, também, o mais recente trabalho do contrabaixista alagoano Van Silva, que pode ser encontrado em todas as plataformas do streaming. Aqui, cabe uma rápida contextualização, sobretudo, para os leitores de alhures. Quem é Van Silva, além de um ser humano do bem e músico extraordinário? Particularmente, tive o privilégio de contar com o seu talento fora da curva a serviço da música que proponho, quando em 1998 fizemos uma extensa turnê pelo velho continente, para lançamento do álbum Panambivera.

Extrema Competência

Nessa época, Van Silva era um jovem contrabaixista de apenas 22 anos de idade, talentosíssimo e criativo, sobretudo, para um instrumento da cozinha e um tanto of sede. Lembro-me bem, que durante os shows em alguns dos maiores festivais da Europa, ele recebia do público europeu, aplausos em cena aberta, após improvisos realmente dignos de aclamações efusivas! Um talento nato que, ao longo do tempo, foi sendo lapidado no exercício da função, aprimorando técnica e sensibilidade, para a sorte dos que tiveram e têm a sua participação em centenas de álbuns, sem economizar ideias, ofertando sua grave assinatura ou assinatura grave singular e espontânea.

O fato, é que, de lá do princípio até então, Van Silva evoluiu de sideman, para assumir outras funções com extrema competência. Hoje, é reconhecido como compositor, produtor fonográfico e multi-instrumentista, além de admirável contrabaixista. ‘Homenagens’ é o seu segundo álbum. O primeiro, ‘Nas Ondas do Baixo’, foi gravado em 2012. Aos que conseguiram atravessar a pandemia e sobreviveram à cloroquina e ao necropresidente negacionista, agora, com o devido distanciamento, dá para perceber que foi um período produtivo e de muita criatividade, para a maioria dos artistas brasileiros. Excelentes álbuns foram gestados e produzidos, apesar do isolamento, que impôs uma nova logística de gravação. Sem dúvida, ‘Homenagens’ é um desses álbuns!

Compositor Exigente

Das nove faixas, apenas uma não é de autoria do multi-instrumentista Van Silva, que escolheu a viola caipira de 12 cordas como protagonista, para belas melodias compromissadas com a sutileza e delicadeza inerentes à sensibilidade de um compositor exigente e maturado pelo exercício de sua arte. Neste álbum, o contrabaixista toca todos os instrumentos, porém, traz para a cena o baterista potiguar Di Stéffano, em três momentos distintos, que vão do funk à balada, passando por um baião certeiro, e também a participação do guitarrista Norberto Vinhas e do pianista Herbert Pimentel.

Como o universo feminino abre caminhos e sempre merecerá passagem, o tema ‘Diana’ inicia os trabalhos e, portanto, as homenagens para os três netos do compositor, que assim conceitua e dá forma a este álbum fundamental à discografia caeté. Diana é a neta caçula de Van Silva e, no tema homônimo, ele propicia um diálogo perfeito entre viola e contrabaixo, onde ambos servem de base e apoios mútuos e alternados, para depois chegarem à melodia em uníssono e de mãos dadas. Uma belíssima composição, que resvala na melancolia, mas revela a leveza das sofisticações harmônica e melódica pouco utilizadas para uma viola caipira de 12 cordas. Na sequência e na mesma atmosfera anterior, ‘Bem’ foi composta para Benjamim, o neto mais velho de Van Silva. Assim como a anterior, é uma bela composição reflexiva, porém, avança um pouco mais na questão rítmica. Encerrando a trilogia dos netos, ‘Aurora’ tem concepção e execução apenas para contrabaixos. Remete-nos a uma alegria subjetiva, pela complexidade formatada pelo compositor, certamente, pela maturidade precoce da menina Aurora, como me revelou Van Silva.

Café no Bule

Para Felipe’ é coisa de baixista para baixista de sensibilidades recíprocas. Neste tema, não iremos encontrar exibição performática, nem notas em profusão para agilidades ocas, mas, sim, beleza e sutileza melódica e harmônica, que chegam a ser tristes e nostálgicas. ‘Dia Manso’, cujo homenageado dispensa comentários, é um baião dos bons, onde Van Silva quebra o padrão sonoro que vinha acontecendo até então e abre mão da solitute instrumentística, chamando à cena a batera de Di Stéffano, para acrescentar o molho na medida certa. Note-se que a sanfona e os solfejos estão bem colocados e executados, por obra e graça de Van Silva. Na sequência, ‘Eu e Você’ é uma balada romântica, que nem de longe pode ser piegas. Nela, a viola assume a dolente melodia, tornando-a uma bela e justa homenagem à Adriana, esposa e companheira de uma vida inteira do compositor.

O grande Arthur Maia foi merecidamente homenageado em ‘Maia 5.9’. Van Silva procurou aproximar-se bastante da sonoridade e atmosfera do legado deixado pelo saudoso baixista de Niterói. Inclusive, fazendo os vocalizes tão frequentes nos temas gravados por Arthur Maia. Aqui, temos a guitarra singular e vibrante de Norberto Vinhas e o piano de Herbert Pimentel, além de um solo inspirado de contrabaixo. Para finalizar essa audição muitíssimo prazerosa, ‘Passagem’ e ‘Tico Tico’ (Francisco Torres e Bruno Albuquerque) são os únicos temas que não são homenagens específicas. Dois belíssimos temas! O primeiro, com os contrabaixos conduzindo todo um clima lúdico e até mesmo onírico. O segundo, fechando o álbum de maneira primorosa, com Van Silva solfejando um lalaiá, numa preciosa melodia de viola, que deu até para sentir o cheiro de café no bule e açoitar uma saudade inesperada do saudoso Boldrin.

Pulo do Gato: “Esse álbum é como uma joia rara para mim. A forma mais intensa de deixar para eternidade o meu coração em forma de composição”. (Van Silva)

PS: O Spotify tem feito doações ao Trump e subsidiado uma startup de IA, usada para criar tecnologia de guerra. Para mim, é o suficiente para não acessar mais essa plataforma e sequer citá-la aqui. Portanto, compactuo com o grande Aquiles Reis, que escreveu: “Não citarei mais o nome de quem investe na necropolítica”. Daqui por diante, só teremos o Pulo do Gato!

* Jornalista, cantor, compositor e escritor

 

 

 

2 Comentários

  1. Saullo

    Oi, Van é um contrabaixista exemplar, muito respeitado em nossa terra, admiro demais seu trabalho e parabenizo pelo grande empenho em suaa arte em nossa terra carente de cultura musical. Graças a Deus a pandemia nao o parou e o governo foi atuante, sendo o 3 país a distribuir mais vacinas no mundo… Tornando possível que muitas pessoas até hj possa desfrutar de suas notas. PARABENS VAN, que seu trabalho sobreviva aos impostos múltiplos do governo atual para cobrir a irresponsabilidade de seus atos milionários.

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  2. Augusto

    Van é uma lenda viva do baixo em qualquer cenário que se pode citar: Local, nacional, mundial… E que tenho orgulho de ter como conterrâneo e amigo. A maneira não só que ele executa, mas que ele “pensa” a música é diferenciada. Sem falar que é um ser humano fora de série… Um “cara do bem”, com quem tive o grande prazer de trocar uma ideia. Conversar sobre contrabaixo, família, vida… Que Deus te abençoe sempre meu irmão… Desejo o melhor de Deus pra você, sempre.

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