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No tempo do relógio do Bar

por | 5 fev, 2026

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Marcus Vinicius

Por Stanley de Carvalho*

O pedido da saideira era apenas uma maneira de enganar o dono do bar que, já há vários minutos, vinha reclamando que já era muito tarde. Mas, nos planos dos clientes ainda haveria a vez da ideira, da última, da derra, da de fechar a conta, da de lavar a prensa, e outras mais.

Os assuntos, estes já se escasseavam, mas a imagem do mel amarelo, geladíssimo e coroado por uma espuma branca, quando descia lábios abaixo, arrancava palavras escondidas na traqueia e explodia em arrotos que subiam orofaringe acima, desenterrando novos temas, para desespero do proprietário do Recinto.

Na mesa lateral um garçom já dormia, com as pernas espalhadas e cabeça pendida para trás. Parecia que fora atingido, não pelo sono, mas por um míssil, no campo de batalha.

Ali, a 20 metros, Aimoré, motorista do taxi amarelo, sentado no banco de cimento da Praça, fumava seu cigarro, muito mais aceso que ele. Brigando contra o sono, aguardava que Morfeu derrotasse um daqueles boêmios e este resolvesse ir para casa, lhe trazendo alguns cruzeiros por uma corrida a mais.

– Desce 2 ideiras super geladas, chefe!
Somente a lembrança dos 10 por cento movia as pernas do atendente.

O relógio da estação soava suas 2 pancadas na madrugada, combinando com os quatro mostradores do Bar que já nem tocavam, mas ainda moviam seus ponteiros, disciplinadamente.

Bar do Relógio

Auroreando… Já é domingo, com missa logo cedo, na Igreja do Livramento, e a incumbência de ir fazer feira no Mercado, garantindo o pleno funcionamento do Bar, à noite.

Vez por outra os apitos dos vigias cortavam a frieza da manhã que já chegava. Um deles se aproximava vagarosamente e com um boa-noite rouco, se anunciou, pediu um cigarro a-ce-so e dai voltou a mergulhar nas penumbras das ruas e becos.

De repente, um alvoroço no recinto. Cumprimentos, apertos de mão, abraços…. Era Marcus Vinicius que acabava de chegar, com seu violão, trazendo uma comitiva com Gerado Lopes, Claudia Maria, Mário Gomes do bandolim e mais outros madrugadores. Acendeu mais um cigarro, pigarreou e deslizou o indicador cordas abaixo, no violão… Agora lascou! A noite vira criança. O Bar do Relógio para de medir o tempo.

Mal se acomodou em sua cadeira, Marcus Vinicius já foi intimado a molhar a boca e cantar “A volta do boêmio”. As ondas de sua voz grave e afinadíssima ganham o éter, sobem pelo Produban, correm pela rua do Comercio, acendem os vagalumes e iluminam as mariposas Moreira Lima afora. Agora é que ninguém dorme. Agora é que esse povo vai de acordar o sol.

Já são 3 e meia da madruga quando chega Padre Damasceno, Darci, o Cão, e Jorge Villar. Pense no time! O tarimbado do violão escorrega de Nelson, pra Cartola, Lupicínio, Caymim e Dolores Duran.

Aquele era o Bar do Relógio: o último a fechar, quando fechava, e o primeiro a abrir, quando já não estava aberto.

Lá pras 5 e tanta da manhã o primeiro trem parte da Estação, apitando, como se acompanhando os acordes vindo do Bar, e passando devagar, como que para censurar os que se rendiam à farra.

Os acordes dos apitos da fábrica de Noel Rosa foram os últimos a serem ouvidos naquele dia. O enfado tomava conta, a cerveja já não descia tão gostosa e os olhos já não se abriam devidamente. Pausa do Domingo. Mais tarde o Bar do Relógio irá despertar e recomeçar a tocar.

(*) Engenheiro civil, compositor e cronista.

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