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por | 20 jan, 2026

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Reprodução

Por Mácleim Carneiro*

Caminhar pelas areias paradisíacas da Praia do Francês, esse bocado iluminado e ameaçado, do município de Marechal Deodoro, é uma belíssima opção de vida! De preferência, caminhar na direção do mar dos surfistas, do antigo Leprosário, dos coqueirais dos gaviões, onde a poluição sonora e mercadológica ainda não se fez presente. Não obstante, é exatamente esse lado sul que está sob a mira de uma evidente ameaça, muito mais perigosa e poderosa do que qualquer poluição sonora, pois se trata da especulação imobiliária predatória, que tenta ocupar a área de restinga e obriga ambientalistas e moradores a um alerta constante, no sentido de evitar a destruição do ecossistema e impedir a construção de empreendimentos imobiliários na região. Não precisa ser nativo, para perceber a importância da conscientização ambiental em defesa da restinga, este importante ecossistema que margeia as praias e desempenha um papel essencial na proteção da costa e da biodiversidade local.

Desfrutar da Praia do Francês, que independe de questões climáticas para estar sempre linda e deslumbrante, é como dar um salto para cima e criar asas para voos sensoriais a cada manhã! O acesso, à praia, pela Vila dos Pescadores ainda preserva um tantinho do Francês dos anos 1970, onde tudo tinha um quê de alternativo, de liberdade consentida, de marijuana espargida pela brisa do mar e do som que rolava no histórico Festival de Verão de Marechal Deodoro. Eram tempos onde os biquínis das mocinhas aconteciam como deliciosas novidades, e só tinham a magia que tinham porquê na Praia do Francês.

Ameaça Real

No trajeto diário pela Vila dos Pescadores, aos poucos, tem-se o prazer e a sorte de encontrar personagens singulares, moradores longevos e nativos, de uma época que, além de estar submergindo ao tempo, também está sendo descaracterizada em sua memória arquitetônica afetiva. Impressiona que seja tão nitidamente perceptível a voraz especulação imobiliária no Francês, que avança, literalmente, demolindo o que era antes e transformando a paisagem e a atmosfera, antes bucólica, numa espécie de minicidade despersonalizada e padronizada pela crescente verticalidade mimética, tipo a mesmice dos produtos das feirinhas de “artesanato”, iguais de Norte a Sul.

Até que ponto é bacana dizer que o Francês, em nome do turismo e do “progresso”, tem se transformado à semelhança de Búzios, Porto Seguro ou Porto de Galinhas? Se parece ser inevitável, pois que seja a La Rue (Rua Carapeba) e seu entorno, não a Vila dos Pescadores, que atualmente está às voltas com tratores e maquinas de demolição em sua porta de entrada, como uma ameaça visível e real ao futuro dos moradores, praticamente indefesos ao avanço da especulação imobiliária manipulada pelo poder econômico frio, insensível e calculista, mas que tem CNPJ e CPF.

Exemplos Vivos

Não obstante, é sobre alguns dos longevos moradores da Vila dos Pescadores, que essa matéria pretende por luz e foco. São eles o real motivo para um olhar mais atento, humano e criterioso, posto que não é só o surf ou a exploração turística que simbolizam e conferem identidade à Praia do Francês. Na verdade, são esses personagens que merecem reconhecimento, apreço e cuidado. Dois desses senhores são exemplos vivos, que representam muitíssimo bem os demais, os quais são dignos de todo o respeito e carinho, até como singela homenagem e registro de suas existências, para além do tempo e das coisas de agora.

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As primeiras conversas na Vila dos Pescadores foram com o simpático Lourival Misael Lima, de 84 anos, conhecido por todos como Louro do Francês. Em diversos encontros casuais, quase que diários, nunca o vi em outro estado de espírito que não fosse com um sorriso genuíno e verdadeiro, seguido da sua saudação na ponta da língua: “Bom dia, meu peixinho de aquário! Minha xirinha amarela”! E foi justamente por causa desse bordão – que depois vim a saber ser o mesmo para qualquer pessoa –, que tive a curiosidade de entender o motivo pelo qual ele respondia, ao meu bom dia, dessa maneira tão peculiar.

Há bastante tempo, refiro-me a Maceió pelo epiteto de ‘aquário’ e, claro, considero-me um dos seus peixinhos. Então, pensei: como esse senhor sabia da tese aquariana, se apenas eu entendo e penso Maceió como um aquário, a partir de sua estrutura social? Claro, foi muita pretensão e ingenuidade da minha parte achar que a elocubração aquariana havia chegado ao conhecimento daquele senhor, que sequer me conhecia, porém, foi assim que demos os primeiros passos para as nossas conversas e amizade.

Entreposto Importante

Louro do Francês nasceu em 1941, é pai de nove filhos, e toda a sua existência foi salgada pelo mar do Francês e aromatizada pela brisa e histórias da vida ativa na Vila dos Pescadores e um pouco mais acima e ao norte, quando por mais de vinte anos trabalhou no sítio Ariticum, do Sr. Leônidas Barbosa, homem de posses, que estendeu seus domínios territoriais para além do que depois viria a ser o Leprosário do Francês. De acordo com o Mestre Louro – como o trato carinhosamente –, dessa época, além da fartura de peixes, o que mais lhe traz boas recordações são as grandes embarcações de madeira, que faziam da Praia do Francês um porto para descarga de mercadorias, certamente, contrabandeadas. Essas mercadorias abasteciam os comerciantes de Maceió, Marechal Deodoro e todo o litoral sul. Eram muitas embarcações no mar e, em terra, uma frenética atividade de carros de boi e carroças, que faziam do Francês um entreposto importante, para fugir das taxas portuárias e alfandegárias do porto da capital. Louro do Francês é a memória viva dessa época. Em sua fala pausada e seu sorriso franco, carrega uma tristeza velada por tudo ter mudado tanto!

Outra personagem que todos o têm em alta conta, é o Sr. Moisés Alves das Neves, 77 anos, pai de 9 filhos, entre eles o meu amigo Osvaldo, também conhecido como Bareta, pescador como o pai e sempre pronto a uma prosa sobre pescaria, como a maioria dos nativos praieiros, que sabem todas as artimanhas da pesca à beira-mar e dos segredos que o mar do Francês revela em minúcias decifráveis aos que são do ofício. ‘Seu Moisés’, como é conhecido por todos, é um pescador das antigas, que ainda dá as suas tarrafadas e, desde sempre, habita a Vila dos Pescadores, onde é o dono da única peixaria da redondeza.

Dia da Hora

Quer saber como e qual político alagoano, por vingança ególatra, mandou destruir os currais que existiam, mais ao norte da Praia do Francês? Inclusive o curral da Dona Nazinha que, diferente dos demais, sempre enchia de peixes e ela distribuía com os moradores locais, que lhe atribuíam algum tipo milagre, como a multiplicação bíblica dos peixes, pois a fartura acontecia só no curral dela. Seu Moisés, assim como o Louro do Francês, são detentores dessas histórias e reminiscências, no melhor estilo da tradição oral. São muitas histórias, que Seu Moisés não se furta em contá-las, pacientemente, com o olhar distante e alheio aos tempos de agora. É dele, também, as lembranças sobre o Dia da Hora, a festa mais importante do Francês, que acontecia todo mês de maio: “Era apenas durante o dia, porque não havia energia elétrica no povoado do Francês, mas à noite o forró corria solto”, ressalta.

Recentemente, lá para as bandas do final do coqueiral, encontrei Seu Moisés jogando a tarrafa e arrastando-a cheia de peixes saltitantes. Fiquei feliz em vê-lo ativo e esbanjando sua técnica, pois, significava que estava superando um problema de saúde pelo qual havia passado. Não quis atrapalhar o seu trabalho e esperei ele desenganchar os peixes da tarrafa, um a um. Só depois perguntei que tipo de peixe era. Ele, do alto da sua esperteza cativante, respondeu: “É perna-de-moça. O melhor peixe do mundo”! Aí eu perguntei por que era o melhor peixe do mundo? Ele abriu um sorrisinho maroto e disse: “Porque é perna de moça. Se fosse de velho era uma desgraça”. Sorrimos, despedi-me e continuei a caminhada de volta, rumo ao portal da Vila dos Pescadores.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

(*) Jornalista, cantor, compositor  e escritor

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