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por | 29 mar, 2026

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É muito prazeroso dizer que esta é a terceira resenha, consecutiva, sobre álbuns de músicos alagoanos e seus trabalhos instrumentais. Dessa vez, encerrando a trilogia, temos o álbum ‘Sururu Com Dendê’, do saxofonista e compositor alagoano Junior Maceió. Porém, antes de irmos direto à apreciação do objeto dessa resenha, farei um rápido preâmbulo, a propósito do protagonista deste belíssimo trabalho. Geraldo Manoel de Souza Júnior cresceu em Santa Luzia do Norte (AL), num ambiente marcado pela prática musical. Lá, aos onze anos de idade, iniciou sua formação no saxofone. Do início, na Filarmônica de Santa Luzia, até agora, Júnior Maceió tem desenvolvido o seu talento em habilidades na família das palhetas e das tabocas, tornando-se um músico e compositor expressivo, que vai muito além de um sideman habitual.

Ao longo do tempo, Junior Maceió integrou projetos como, por exemplo, a Orkestra Rumpilezz, sob a direção do maestro Letieres Leite. Em 2015, lançou o seu álbum de estreia, Together y Misturados, para, só depois, em 2018, migrar para Portugal e ingressar na Escola Superior de Música de Lisboa, onde concluiu licenciatura e o mestrado. Pois é desse músico habilidoso, que tem o sonho desafiador de implantar uma escola de música na sua cidade natal, com linguagem jazzística, para retribuir à sua raiz tudo o que aprendeu e deixar uma semente plantada para as novas gerações, que a humanidade acaba de receber o seu segundo álbum, ‘Sururu Com Dendê’, uma fusão musical apetitosa, entre Alagoas e Bahia ou a sustança do sururu e a palma-de-guiné.

Amálgama Perfeito

Se Utilizar de ‘Asa Branca’ (Luiz Gonzaga e Humberto Texeira) e ‘O Ovo’ (Hermeto Pascoal), de maneira incidental, para dar início aos trabalhos do álbum, no tema ‘Baião Pra Santa Luzia’ (Junior Maceió), onde Junior Maceió, ao pífano, sola à capela, por quase dois minutos, foi uma escolha acertada, para demonstrar que as raízes do compositor estão mais do que preservadas, embora a proposta deste belo e instigante trabalho seja jazzística. Daí por diante, são mais de sete minutos de música, onde o quarteto formado por Hugo Lobo (piano), Rodrigo Correia (contrabaixo acústico), Rogério Pitomba (bateria) e Júnior Maceió (sax soprano e pífano), com absoluta maestria, demonstra porque a interação desses músicos configura um amálgama perfeito e sugere uma viagem sem possibilidades de contrição.

Na sequência, acontece um híbrido de ijexá e salsa, em Sururu Com Dendê (Júnior Maceió), faixa que dá título ao álbum e dá a entender que a mistura desses ritmos, por si só, esclarece quem é de sururu e quem é de dendê. Como na faixa anterior, tem na introdução vários compassos de solo sem acompanhamento, dessa vez, Junior Maceió utiliza o sax alto, para só depois o trio chegar com o molho necessário a mais de nove minutos de tema, que passam rápido como as coisas boas tendem a passar. Ao todo, são nove temas que estruturam esse trabalho bem urdido, todos com minutagem alongada, uma característica ainda em voga na música instrumental, quando feita e afeita aos que não têm pressa para degustar o que é bom. Em ‘Marcha Dos Elefantes’ (Joana Machado e Junior Maceió), abre-se o portal para as participações especiais, a começar pela cantora portuguesa Joana Machado, em dueto melódico com o sax soprano de Junior Maceió, num registro tão próximo um do outro, que chega a dar inveja de quem os concebeu. Aqui, o solo de contrabaixo acústico de Rodrigo Correia é um caso à parte de bom.

Polirritmia

Mais uma convidada especial acontece em ‘A Harpa De Maria’, no caso, a harpista portuguesa Maria Vassalo Lourenço, que aparece só na introdução, para dar lugar ao sax tenor de Junior Maceió, num dolente e belíssimo blue, daqueles que dá para imaginar um abajur lilás na penumbra de uma mesa qualquer, em um nigth club esfumaçado e cheirando a cigarro e whisky, típico das atmosferas de Tom Waes. Daí, temos ‘Partido No Bairro Alto’ (Jr. M.), quase que um jazz de breque, com um quê de chorinho e de uma irreverência cheia de malemolência. ‘Ixo é Xério’ (Jr.M.) é uma belíssima homenagem a um dos mentores de Junior Maceió, na Orkestra Rumpilezz, o saudoso Maestro Letieres Leite. É o tema que apresenta um envolvente 7/4 em polirritmia, onde o batera Rogério Pitomba, magistralmente, não economiza baquetas, peles e pratos, e protagoniza um criativo e empolgante solo, daqueles que merece uma exclamação, tipo: pitombas, ó pá!

As coisas dão uma acalmada em ‘Lila’ (Jr. M.), uma balada onde o quarteto aplica dinâmicas, até bem próximo da pausa silenciosa, que promete, mas não chega a acontecer. ‘Vó Zana’ (Jr. M.) tem mais uma participação especial. Dessa vez, de Thazinho Sax, no vocal. Ele também é de Santa Luzia do Norte e cantou junto com Junior Maceió, no único tema com letra e composto para homenagear à avó do compositor. Um tema, literalmente, repleto de narrativas de sua infância marota. ‘De Maceió a Lisboa’ (Jr. M.) fecha a tampa desse belíssimo trabalho e encerra a narrativa disposta e pensada pelo compositor, na montagem do álbum, que começa na primeira faixa e desenvolve-se numa sequência lógica, como uma ciência filosófica. Neste tema final, é a vez do piano de Hugo Lobo fazer as honras da casa e acompanhar o ouvinte até a porta da frente. É, também, onde o jazz se faz mais intenso em seus elementos e fundamentos característicos, num contraponto ao primeiro tema, que contempla o regionalismo inerente ao compositor.

O fato é que este trabalho está repleto de carinhosa afetividade e alusões às raízes alagoanas, que o compositor dedica à sua origem e as pessoas importantes em sua vida e trajetória. ‘Sururu Com Dendê’ é um álbum pleno de referências afro-brasileiras, elementos do jazz contemporâneo e memórias pessoais. Com ele, Junior Maceió vai muito além do que seria convencional, num salto atemporal entre Santa Luzia do frevo e Portugal do fado, passando pelo vasto mundo da música universal.

No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!

Pulo do Gato: “Coloquei o título de “Ixo é xério” na música que homenageio o maestro Letieres Leite, porque ele tinha uma forma de falar com a língua meio presa e a sonoridade de ‘isso é sério’ ficava ‘ixo é xério’”. (Junior Maceió)

Ouça aqui: https://music.youtube.com/watch?v=NA9zXBW-vnE&list=OLAK5uy_mGyMRpvLIVH-zJCNoldkqag1h0pBVJ1Xk

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