Os números não mentem – e preocupam. Em Alagoas, os atendimentos por choque elétrico realizados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) cresceram de forma significativa em 2025, revelando um problema silencioso que, muitas vezes, começa dentro de casa e termina em tragédia.
Nas centrais de Maceió e Arapiraca, os registros dispararam. Na capital, o aumento foi de 29,03%, passando de 31 ocorrências em 2024 para 40 neste ano. Já em Arapiraca, o crescimento chama ainda mais atenção: 92,31%, quase o dobro, saltando de 13 para 25 atendimentos.
O avanço também se reflete nos óbitos. Em Maceió, as mortes causadas por choque elétrico subiram de quatro para seis. Em Arapiraca, dobraram: de dois, em 2024, para quatro em 2025. Segundo especialistas, todos esses casos poderiam ter sido evitados com medidas simples de segurança.
Um episódio recente ilustra a gravidade do cenário. Na última quarta-feira (7), um homem de aproximadamente 55 anos morreu após receber uma descarga elétrica ao subir em um poste de alta tensão, na rua Barão de Alagoas, no Centro de Maceió. A vítima, sem identificação e possivelmente em situação de vulnerabilidade social, sofreu queimaduras graves, ferimento na cabeça, lesão elétrica na mão direita e múltiplas escoriações após a queda.
O Samu enviou ao local uma equipe de motolância, seguida por uma Unidade de Suporte Avançado (USA). Apesar da rápida resposta, o óbito foi constatado ainda na cena. A empresa Equatorial, responsável pela rede elétrica, foi acionada, e o corpo ficou sob guarda da Polícia Militar até a chegada da Polícia Científica.
Para o coordenador-geral do Samu Alagoas, Mac Douglas de Oliveira Lima, o crescimento dos casos acende um alerta. “O aumento preocupa porque muitos desses acidentes são evitáveis com simples cuidados no dia a dia”, afirma. Segundo ele, grande parte das ocorrências acontece durante tarefas rotineiras, como trocar lâmpadas, manusear eletrodomésticos ou fazer pequenos reparos elétricos sem conhecimento técnico.
A prevenção, inclusive, começa cedo. Por meio do Projeto Samu nas Escolas (PSE) — parceria entre a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e o Samu — crianças e adolescentes da rede pública e privada recebem orientações sobre primeiros socorros e riscos elétricos ao longo do ano. “Educar desde cedo salva vidas. Ensinamos a reconhecer perigos reais, como fios expostos ou equipamentos molhados”, destaca Mac Douglas.
O médico socorrista do Samu, Jack Emerson, reforça que atitudes simples fazem diferença. “Nunca toque em aparelhos elétricos com as mãos molhadas. Antes de trocar uma lâmpada ou fazer qualquer reparo, desligue a chave geral da energia”, orienta. Em casas com piscina, ele recomenda a instalação de dispositivos DR, que interrompem automaticamente a corrente em caso de fuga elétrica.
Durante períodos de chuva, o risco é ainda maior. “Evite usar aparelhos conectados à tomada, como secadores e ferros elétricos. Raios podem causar picos de tensão e provocar choques mesmo dentro de casa”, alerta.
Em oficinas e empresas que lidam com fiação elétrica, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como luvas isolantes e calçados apropriados, é indispensável. Em caso de choque, a regra é clara: nunca tocar diretamente na vítima enquanto ela estiver em contato com a fonte de energia. O primeiro passo é desligar a corrente.
“Em situações de acidente por choque elétrico, ligue imediatamente para o 192 ou 193. As equipes estão preparadas para salvar vidas, mas o mais importante ainda é a prevenção”, resume Jack Emerson.
Num cenário em que os números sobem e as tragédias se repetem, a mensagem é direta: informação e cuidado continuam sendo as formas mais eficazes de evitar que a energia, essencial no dia a dia, se transforme em ameaça.






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